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António Cluny 03/03/2020
António Cluny

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Ainda e sempre o problema da verdade

Saber dizer, saber explicar a verdade e fazê-lo oportunamente e com rigor, deve ser hoje uma preocupação fundamental dos que se encontram do lado da democracia.

O problema da verdade, do seu lugar na política e na vida cívica e económica, bem como o da responsabilidade dos que a buscam e difundem, ou julgam fazê-lo e contribuir para isso, é, nos nossos dias, uma questão fundamental para a sobrevivência da democracia e, diria até, para a sobrevivência de uma sociedade civilizada.

A verdade é importante no campo da política, como no da ciência e cultura, como, ainda, no da vida quotidiana e prosaica de qualquer cidadão.

Não sei se por acaso, ou se propositadamente, o Courrier Internacional do mês de março fez publicar, quase sequencialmente, um conjunto de interessantíssimos artigos de diversos autores sobre a questão da verdade, do seu valor intrínseco, da sua negação e manipulação e, até, da sua total obnubilação no discurso político e mediático atual, a par de outros que abordam a questão, não menos atual, dos denunciantes ou, na terminologia anglo-saxónica, dos whistleblowers.

A ocultação da verdade é, em democracia, fatal para a credibilidade das instituições que lhe dão corpo e a legitimam, mesmo que todos saibamos que a gestão responsável do tempo da sua revelação pode, em certas circunstâncias, ser essencial para a assegurar uma vida social pacífica e civilizada.

Por isso, a responsabilidade pela sua afirmação, ou ocultação, é hoje matéria da maior pertinência social e política.

Todos sabemos que a luta pela verdade está, de algum modo, no centro da luta política local ou global e que, durante muitos anos, quando o mundo estava dividido em dois blocos antagónicos, essa luta assumiu uma relevância determinante.

Foi precisamente a maior capacidade de difusão de algumas verdades e de ocultação de outras, facilitada pelos novos meios informáticos de comunicação global então emergentes, que ajudaram a fazer pender a balança de tal luta para um dos lados.

Entretanto, a acessibilidade e uso de tais meios tecnológicos e de outros, muito mais rápidos e poderosos, entretanto surgidos, aumentou exponencialmente e fugiu do controlo dos poderes públicos e, até, de alguns poderes fáticos que, supostamente, os tutelavam.

Não dizer a verdade no momento certo, o que pode significar apenas não a revelar, mesmo sem sobre ela mentir, passou, contudo, a ser extraordinariamente mais difícil e, por essa razão, muito perigoso para os poderes que com tal intempestividade condescendem.

Seja por via de whistleblowers ou de hackers (piratas informáticos) – o que, como sabemos já, não é o mesmo e não assume a mesma legitimidade - seja, simplesmente, através da ação de cidadãos mais ou menos informados, a verdade, ou aquilo que alguns julgam que ela é, ou querem que ela seja, brota diariamente através das redes sociais, desafiando versões oficiais ou a oportuna ocultação de factos e de notícias.

O problema reside, porém, aí: se uns não estão empenhados, em dado momento, em revelar a verdade, outros, por motivos vários, são capazes de dela dar uma visão própria e muitas vezes deturpada que, de imediato, se expande e se sobrepõe, por isso, à divulgação tardia, ou truncada, das verdades oficiais.

Acresce que, em certos casos, os que oficialmente ocultam a verdade e os que, do outro lado, a deturpam parecem objetivamente combinados para manter desinformados os cidadãos.

O problema atual da Justiça, com o seu tempo e formalidades essenciais para obter uma verdade civilizadamente aceitável, reside, precisamente, aí: na incapacidade de, em tempo mediaticamente útil, dizer uma verdade legítima. 

Por tal razão, a luta pela verdade e por uma verdade de qualidade nunca foi tão determinante para a democracia e a consolidação das instituições democráticas.

Saber dizer, saber explicar a verdade e fazê-lo oportunamente e com rigor, deve ser hoje, portanto, uma preocupação fundamental dos que se encontram do lado da democracia.

Essa preocupação e o cuidado a ter com a explicação pública da verdade, de molde a combater e deslegitimar os que a deturpam ou, pura e simplesmente, inventam outras “verdades” para melhor a ocultar ou relativizar, tem de ser, nos nossos dias – deveria ter sido sempre – a preocupação do poder democrático e da sua principal arma: a comunicação social livre e responsável.   

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