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Itália, uma mancha numa Europa em que Portugal é já uma ilha

Itália, uma mancha numa Europa em que Portugal é já uma ilha

AFP Carlos Diogo Santos 26/02/2020 13:55

Fronteiras europeias vão continuar abertas, mas em Itália há localidades completamente isoladas e cidades desertas. Governante do Irão infetado.

“O mundo não está preparado para enfrentar o novo coronavírus”, afirmou Bruce Aylward, especialista que liderou a equipa da Organização Mundial da Saúde enviada à China. E Portugal também não está para uma possível pandemia, segundo o pneumologista e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos criado para acompanhar o Covid-19: “Para uma pandemia, não estamos preparados”, disse Filipe Froes, acrescentando que, por exemplo, “não temos capacidade teórica de duas mil camas”. Recorde-se que Graça Freitas, diretora-geral da Saúde (DGS) tinha referido que estão identificados mais de dois mil quartos de isolamento nos hospitais do SNS.

E, do lado do Sindicato Independente dos Médicos, Jorge Roque da Cunha disse ontem que o Governo está a lidar de “forma ligeira” com a situação.

O certo é que na Europa será impossível fechar fronteiras, como avisou Marcelo Rebelo de Sousa, admitindo que existe já a noção de que o problema de Itália “se pode converter num problema europeu”. E nem faz sentido que se fechem, diz Filipe Froes, alertando, no entanto, que “é altura de a União Europeia demonstrar que é mais do que um espaço de política comum e de economia e que valoriza o ativo mais importante, que são as pessoas”.

Mas vamos a números: no mundo, o Covid-19 já matou mais de 2700 pessoas e há registo de dezenas de milhares de infetados. Está já presente em mais de 30 países e o avanço em Itália está já a fazer soar os alarmes na União Europeia: ontem à noite, o país integrava já o top-3 dos países com mais infetados no mundo, 322, e registava 11 mortes. Grande parte dos casos estão concentrados na região norte – onde há localidades isoladas para conter a propagação. Numa situação mais delicada que Itália apenas se encontram a China, com perto de 80 mil infetados e 2663 mortos, e a Coreia do Sul, com quase mil infetados e dez vítimas mortais.

Europa com fronteiras abertas e localidades fechadas Apesar do receio e da proximidade geográfica com o surto italiano, os ministros da Saúde de Itália, França, Suíça, Áustria, Croácia e Alemanha concordaram ontem que fechar as fronteiras terrestres seria desproporcional. A decisão foi conhecida no mesmo dia em que Croácia, Suíça e Áustria confirmaram os seus primeiros casos de infetados com o Covid-19. Em França, o número de infetados também subiu para 14 – recorde-se que o país já regista uma vítima mortal e conseguiu curar 11 doentes.

Mas se entre países não existem fronteiras, dentro do espaço italiano, tudo tem sido feito para isolar mais de uma dezena de localidades do norte do país – cerca de 50 mil pessoas numa quarentena obrigatória. Quem desrespeitar poderá enfrentar até três meses de prisão. O foco, localizado em Codogno, 60 quilómetros a sul de Milão – capital financeira do país –, terá tido origem numa alegada falha hospitalar. Quem o admitiu ontem foi o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, em declarações à estação televisiva Rai Uno. “Sabe-se que houve uma gestão ao nível de uma estrutura hospitalar que não é completamente apropriada segundo os protocolos de prudência recomendados nestes casos e que, certamente, contribuiu para a propagação”, admitiu.

Aqui ao lado, em Espanha, mais concretamente em Tenerife, há um hotel que está em isolamento, depois de se ter descoberto que um turista italiano, ali alojado há sete dias, está infetado. Nas últimas horas deu positivo o teste feito à sua mulher.

Velórios e casamentos apenas para os mais próximos Ontem, em Milão, as ruas estavam mais vazias do que o normal – com mais pessoas com máscaras na cara –, e os museus, cinemas, discotecas e até igrejas estavam fechados (casamentos e velórios puderam contar apenas com a presença dos mais próximos). A catedral gótica Duomo, o teatro de ópera e os recintos desportivos não são exceções. Já os bares, esses têm agora de fechar às 18h. As empresas de maior dimensão estão também a incentivar o trabalho a partir de casa.

Em Veneza, o Carnaval já tinha sido cancelado, havendo escolas e universidades fechadas. Há ainda imagens que mostram supermercados em Génova com as prateleiras vazias.

Apesar de a preocupação das autoridades se centrar na região de Lombardia, ontem foram detetados os primeiros casos mais a sul: um em Florença e outro em Palermo.

Jogos de futebol à porta fechada e Europeu em risco O vírus chegou já ao desporto-rei, com a 26.a jornada da primeira liga italiana a ter seis jogos à porta fechada – incluindo o Juventus-Inter de Milão, que se realiza no próximo domingo.

“Decidimos proibir eventos desportivos nas regiões da Lombardia, Véneto e Piemonte, mas também em Friul-Veneza Júlia, Ligúria e Emília-Romanha. A proibição vai decorrer até ao próximo domingo. De qualquer forma, acedemos aos vários pedidos que nos chegaram e permitimos que os jogos se realizem, mas à porta fechada”, disse já o ministro do Desporto, Vincenzo Spadafora. As partidas Udinese-Fiorentina, Milan-Génova, Parma-SPAL, Sassuolo-Brescia e Sampdoria-Verona serão as restantes a realizar-se sem a presença de adeptos nos estádios.

Também o jogo dos 16-avos- -de-final da Liga Europa, que opõe o Inter de Milão ao Ludogorets, será à porta fechada.

No último fim de semana, quatro jogos do campeonato italiano foram já adiados devido ao surto – algo que no próximo fim de semana vai repetir-se no país, mas com os jogos de basquetebol.

Mas não só em Itália há a preocupação com o risco que grandes concentrações de pessoas em estádios podem acarretar. A própria UEFA está em alerta no que respeita ao Euro 2020, organizado por vários países e que se prevê que aconteça entre 12 de junho e 12 de julho. “Estamos numa fase de espera. Estamos a monitorizar país a país, e o futebol tem de seguir as ordens de cada país”, alertou ontem Michele Uva, membro do comité executivo da UEFA.

Coronavírus assusta governantes de todo o mundo No Irão, o novo coronavírus já faz vítimas no Governo. O ministro adjunto da Saúde foi infetado com o Covid-19, segundo a agência de notícias ILNA. De acordo com o responsável pela comunicação da pasta da Saúde, o governante Iraj Harirchi foi entretanto colocado em quarentena.

Também o primeiro-ministro eslovaco foi ontem internado com problemas respiratórios e febre alta. Ainda que oficialmente nunca tivesse sido avançada a tese de uma infeção por este vírus, os sintomas apresentados pelo staff do governante são os mesmos do Covid-19, tendo a OMS indicado já que quem estiver nestas circunstâncias deve procurar acompanhamento médico especializado.

Portugal continua a ser uma “ilha” no mapa da Europa Ontem ao final do dia estavam ainda a ser analisados dois casos suspeitos em Portugal, ambos vindos de Milão: um internado em Lisboa e outro no Porto. Além destes, já foram realizados testes a outras 15 pessoas nos últimos dias, tendo todas apresentado um resultado negativo.

Quanto ao português infetado e que está já hospitalizado no Japão, Marcelo Rebelo de Sousa disse ontem que foi feita uma pressão permanente para que fosse retirado do navio onde estava isolado e colocado numa unidade hospitalar. O Presidente da República revelou ainda que esteve sempre em contacto com a mulher da vítima.

 

 

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