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José Cabrita Saraiva 26/02/2020
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

A queda do Faraó e os sonhos dos manifestantes

Em fevereiro de 2011, há nove anos, a queda do poder de Hosni Mubarak provocou a euforia entre os manifestantes da Praça Tahrir. É compreensível que, ao fim de três décadas, estivessem cansados do seu regime. E os ventos da Primavera Árabe suscitavam nos mais ingénuos todos os sonhos – e todos os delírios.

Visitei o Egito no início do século, em 2002, e deparei-me com um país pouco desenvolvido, e certamente com pobreza, mas onde as coisas aparentemente funcionavam. O_centro do Cairo tinha edifícios modernos, um comércio florescente e um trânsito caótico – todos eles sinais de vitalidade. Cinco anos antes, em Luxor, mais de 60 turistas alemães tinham sido mortos por terroristas. Em 2002, ainda a recuperar desse rude golpe, o país pareceu-me relativamente seguro, um aspeto essencial para a indústria do turismo.

Estávamos perto das pirâmides quando ouvi pela primeira vez alguém referir-se a Hosni Mubarak como  “o Faraó”. Quem assim lhe chamou foi o nosso guia, um cairota que falava espanhol. Esse pormenor revelou-me que, afinal de contas, o ambiente que se respirava não seria assim tão pesado – noutros regimes mais autocráticos talvez não houvesse o mesmo à-vontade para fazer piadas em público acerca do ditador.

O regime de Mubarak não era perfeito, e só se aguentou graças aos milhões vindos dos EUA, que permitiam manter a elite militar satisfeita e sossegada. Mas a instabilidade que se seguiu ao seu derrube tem-se revelado pior. As eleições de 2012 puseram no poder Mohammed Morsi, um islamita, até que um novo golpe lhe retirou o tapete e foi para o seu lugar um militar, o atual Presidente Sisi.

Aparentemente, no vértice da pirâmide as coisas não mudaram muito. Lá dizia o príncipe de Salina no clássico de Lampedusa:_“É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”.

Com uma diferença: pelo meio, o país perdeu anos e anos neste processo. Se valeu a pena, desconheço. Mas uma coisa parece evidente: os manifestantes da Praça Tahrir não tinham razões para deitar foguetes.

P.S. Gostaria de deixar uma nota de pesar pela morte de Laura Ferreira, mulher do antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Como casal, deram um bonito exemplo aos portugueses. Na saúde e na doença.

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