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Hosni Mubarak. Morreu o faraó, longa vida ao faraó

Hosni Mubarak. Morreu o faraó, longa vida ao faraó

Attila Kisbenedek / AFP João Campos Rodrigues 25/02/2020 17:57

O ditador herdou um regime impopular, que manteve quase 30 anos, até ser derrubado pela Primavera Árabe. Morreu livre, rico e rodeado pela família, aos 91 anos.

“Derrubámos o regime, derrubámos o regime”, gritaram centenas de milhares de gargantas na Praça Tahir, quando souberam da demissão do ditador egípcio Hosni Mubarak, em 2011, em plena Primavera Árabe. Manifestantes ajoelharam-se para rezar, outros choravam de alegria, entre cânticos de vitória. As celebrações estenderam-se de Alexandria ao Suez, do Cairo a Assuão. Muitos eram demasiado novos para conhecer outro governante que não Mubarak, a quem chamavam o “faraó”: manteve o país na mão durante quase 30 anos, num permanente estado de emergência. Quando Mubarak foi afastado do poder, a expectativa era de uma nova aurora no Egito, mas foi sol de pouca dura. Entretanto, o general Abdel Fattah el-Sisi agarrou o poder ao estilo de Mubarak, que, apesar de ter sido condenado por corrupção e pela morte de manifestantes, morreu em liberdade, esta terça-feira, aos 91 anos, rodeado pela família no hospital militar de Galaa, no Cairo. Para o atual Presidente egípcio, o falecido marechal será lembrado como “líder militar e herói de guerra”, declarou em comunicado.

 

“A vaca que ri” Muhammad Hosni Said Mubarak nasceu numa aldeia rural no delta do Nilo, em 1928, e juntou-se à força aérea egípcia aos 21 anos, formando-se como piloto de caças. Teimoso, disciplinado e abstémio, foi subindo na hierarquia até se tornar comandante da força aérea em 1972, mesmo a tempo da guerra do Yom Kippur, no ano seguinte. O Egito e a Síria foram rotundamente derrotados ao tentar recuperar a península do Sinai, tomada por Israel em 1967, mas os sucessos iniciais das forças egípcias, ao cruzar o canal do Suez, deveram-se em parte ao planeamento do marechal Mubarak, granjeando-lhe o estatuto de herói nacional. O então Presidente egípcio, o coronel Anwar Sadat, transformou a derrota em propaganda: em 1975 nomeou Mubarak seu vice-presidente. O futuro ditador seria o braço-direito de Sadat nas históricas negociações de Camp David, mediadas pelos Estados Unidos. A troco do Sinai, o Egito foi o primeiro Estado árabe a normalizar relações com Israel, em 1979: a viragem chocou muitos egípcios, e garantiu a Sadat e a Mubarak o desprezo do mundo árabe.

O acordo de paz foi citado como a principal motivação dos soldados egípcios que viraram as suas armas contra o seu comandante-chefe, a meio de uma parada militar, em 1981. Mubarak estava nas bancadas, ao lado Sadat, quando o tenente Khalid al-Islambouli, secretamente membro da Jihad Islâmica Egípcia, saltou de um camião e descarregou uma metralhadora sobre o Presidente - o seu braço-direito escapou apenas com ferimentos ligeiros. Mubarak, então com 53 anos, rapidamente tomou as rédeas do poder, executando sumariamente todos os envolvidos no assassínio de Sadat: o estado de emergência nunca seria levantado.

A promessa do novo Presidente era simples: paz, estabilidade e prosperidade. Mas herdou um regime impopular, alicerçado numa polícia secreta odiada. Ao contrário de Sadat, Mubarak tinha pouco de carismático - pelas costas chamavam-lhe “a vaca que ri”, pela sua suposta semelhança com o símbolo da marca de queijo processado - e estava pouco interessado no pan-arabismo revolucionário do antecessor de Sadat, Gamal Abdel Nasser, que tentou em várias ocasiões fazer do Egito e da Síria um só país.

Aliás, o Egito de Mubarak continuou ostracizado pelos seus pares árabes durante boa parte dos anos 80 - ultrapassou o isolamento graças a uma relação cada vez mais estreita com Washington. Antes de George W. Bush declarar a Guerra ao Terror, após o 11 de Setembro, Mubarak já a travava, contra os grupos jihadistas que lançavam ataques por todo o Egito, sobretudo contra a indústria turística - um dos setores mais cruciais da economia egípcia. Mubarak seria alvo de seis tentativas de assassinato, a mais famosa das quais em Addis Abeba, em 1995, por parte de Mohammed Showqi al-Islambouli, irmão mais novo do assassino de Sadat e associado à Al Qaeda.

 

Fortuna digna de um faraó Ao longo dos seus quase 30 anos no poder, aproximação a Israel e aos EUA garantiu a Mubarak milhares de milhões de dólares em ajuda militar norte-americana. A regra era simples: por cada três dólares enviados a Telavive, dois dólares iam para o Cairo. Se os generais egípcios e os seus empresários aliados estavam satisfeitos, a população não: o desemprego, a pobreza e a corrupção continuavam a crescer. Para muitos, a fortuna do próprio Mubarak, digna de um faraó, era símbolo disso. Um quinto dos egípcios vivia com o equivalente a menos de dois euros por dia, enquanto o Presidente acumulou uma fortuna que chegou a ser estimada entre os 40 mil milhões de dólares e os 75 mil milhões de dólares (entre os 37 mil e os 68 mil milhões de euros). Aliás, mal Mubarak apresentou a demissão, a Suíça congelou centenas de milhões de dólares seus e dos seus dois filhos, Alaa e Gamal.

Quando a Primavera Árabe irrompeu, ficou claro que sem a prosperidade prometida por Mubarak, os egípcios queriam pouco saber da estabilidade. Mais de 900 manifestantes foram mortos antes de conseguirem derrubar o regime do “faraó”. Nas subsequentes eleições, foi eleito o candidato dos islamitas da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi. Seria derrubado por um golpe de Estado em 2013, pondo de novo o poder nas mãos dos militares, liderados pelo general Sisi. Se a condenação de Mubarak, em 2011, foi recebida com júbilo, a sua anulação pela justiça egípcia, em 2017, não causou grandes ondas. “Neste momento, não quero mesmo saber”, disse na altura ao New York Times Ahmed Harara, um ativista que ficou cego nos protestos de 2011, ao ser atingido nos dois olhos pela polícia. “Percebi há anos que o que está em causa não é apenas Mubarak e o seu regime, é um sistema inteiro que agora ressuscitou”.

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