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25 de fevereiro de 1934. O ladrão português de Caravaca

25 de fevereiro de 1934. O ladrão português de Caravaca

Afonso de Melo 25/02/2020 14:59

A cidade de Múrcia estava chocada. As autoridades espanholas, essas, impavam de farronca. Tudo controlado!

“Es un portugués muy listo”, não deixavam de reconhecer os espanhóis que, vendo bem, nem sabiam se o meliante era português ou não. Santuário de Caravaca, ali à beirinha de Múrcia. Uma peça preciosa de arrepelar cabelos, cruz em ouro puro, cravejada de pedras preciosas. guardada no altar desde o séc. xiii, e agora uma destas! Desaparecida sem deixar rasto. O português, o amaldiçoado português, dava-se ao luxo de uma desfeita deste calibre? Era demais, francamente! O povoléu estava em brasa, os jornais locais fervilhavam de excitação, a polícia, atenta e veneranda, como é da sua obrigação.

Nada de ofício de homem sozinho: impossível! Uma quadrilha, na certa. Vá lá, entre quatro e meia dúzia. A cruz valia bem o esforço: mesmo a dividir por tantos, garantia maquia boa a cada pulha. 

As autoridades falavam pelos cotovelos, como se não lhes tivessem comido as papas na cabeça. Contavam tudo e explicavam o que mais fosse necessário. Os gatunos arrojaram um arpão de ferro ao alto de uma das espessas muralhas do mosteiro, com um corda pendida e, vai daí, treparam como macacos até lá acima, entrando pelo adro e pela porta da igreja. Não havia dúvidas algumas sobre o modus operandi.

Ninguém, por seu lado, revelou grandes pormenores sobre o facto de um relicário daquele valor estar assim tão à mão de semear. Enfim, Caravaca era paróquia de gente honesta, não era de crer que andassem por aí uns pecadores sinistros a desrespeitar os objetos santos. Mas, vendo bem, à medida que a notícia se foi desenvolvendo, surgiram testemunhas mais do que credíveis a jurar a pés juntos que já não era a primeira, nem a segunda, nem sequer a terceira vez que a cruz tinha sido levada pela calada da noite. Valeu que por gente dada a arrependimentos, que a devolveu passado pouco tempo.

Mas o comissário da polícia de Saragoça, chamado para suprir as falhas dos seus colegas murcianos, prometeu que o tal português ladino e ladrão não tardaria a estar atrás das grades e a ver o sol aos quadradinhos. “Sei muito bem de quem se trata!”, afirmou. “Ainda a semana passada andou por aqui a fazer fotografias e criou desconfiança”, acrescentou. Além disso, tratou de revelar com orgulho que já tinham sido detidos três indivíduos de nacionalidade espanhola e que estes iriam, já já, dar com a língua nos dentes. Mais ainda: o intuito do roubo não foi o lucro, apesar de a cruz valer milhões. “Foi um sacrilégio com intuitos extremistas!”, falou grosso. A cruz apareceu na semana seguinte. O português é que não. Se o havia.

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