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Nabil Abuznaid. ‘Deus não é um agente imobiliário, que divide terras, dá a povos e tira a outros’

Nabil Abuznaid. ‘Deus não é um agente imobiliário, que divide terras, dá a povos e tira a outros’

Bruno Gonçalves João Campos Rodrigues 24/02/2020 18:03

“A solução dos dois Estados vai morrer. Vão apenas assistir?”, desafia o embaixador da Palestina, antigo conselheiro de Arafat

O novo plano para a paz na Palestina, proposto pela administração de Donald Trump, é um golpe de morte para a solução dos dois Estados, como prevista nos acordos de Oslo, de 1993 e 1995, assinados pelo primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, líder histórico da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). 

Nabil Abuznaid, na altura conselheiro de Arafat e hoje embaixador da Palestina em Portugal, ainda se emociona quando recorda Arafat, de quem fala quase sempre no presente. Não esquece como aos 26 anos ponderou ir para os campos de treino da OLP, no Líbano, mas Arafat não deixou: preferia tê-lo como diplomata e temia que arranjasse problemas nos EUA, onde estudou. O futuro embaixador acabou por nunca pegar numa arma. Começou a ver “outro tipo de esperança para a paz”, nas suas palavras. Mas esta parece-lhe cada vez mais longe, sobretudo com o novo plano de Trump, apoiado pelas principais forças políticas israelitas, e no qual os líderes palestinianos não tiveram uma palavra a dizer. À luz da proposta, Washington consideraria os colonatos israelitas legais, à revelia da lei internacional, bem como uma futura anexação do Vale do Jordão. Fora de questão ficaria o retorno dos palestinianos expulsos das suas terras em 1948, ao mesmo tempo que quase toda a Jerusalém seria capital de Israel - nos subúrbios haveria uma hipotética capital do Estado palestiniano, que fica impedido de alguma vez possuir forças armadas ou de segurança. “A realidade é que Israel está lá e não se vai embora”, declarou o responsável pelo plano, Jared Kushner, cunhado de Trump. “É como se alguém entrasse no seu quarto e depois dissesse: ‘Ok, vamos fazer um acordo. Fico com o quarto, mas posso dar-te um pequeno espaço. E, talvez, uma extensão para a casa de banho - mas tenho de te controlar aí’, responde o embaixador da Palestina.

A resposta de vários líderes árabes ao plano de Trump foi muito pouco sonante. Sente que a Palestina foi abandonada pelos Estados árabes?

Temos de ter em conta as mudanças nas administrações americanas. Por exemplo, [George] Bush filho acreditava em dominação, ‘tens de estar comigo, fazer o que te mando fazer’. Depois tivemos Obama, que acreditava em contenção. No caso do Irão, queria tentar trabalhar com a oposição iraniana, e sabia que se atacasse o país a partir de fora todos se uniriam contra ele. Agora temos Trump, que trouxe uma atitude diferente. Veja o caso do Sudão. Trump disse-lhes: “Se melhorarem as relações com Israel levantamo-vos o embargo, damo-vos dinheiro, etc.”. E ameaçaram qualquer país que se posicione contra a proposta dos EUA. A nova abordagem é ‘vamos punir-vos ou talvez subornar-vos’, sobretudo com países que são pobres ou que precisam de ajuda. Com outros, como é o caso dos países do Golfo, dizem-lhes, publicamente: ‘Têm de me pagar para vos proteger do Irão e de outras ameaças’. Foi isso que mudou. Creio que a posição árabe é apoiar os palestinianos, mas também têm de lidar com a pressão americana.

Do ponto de vista dos interesses israelitas e americanos, esta abordagem à diplomacia, oferecendo o pau ou a cenoura, até parece estar a funcionar: Trump apresentou um plano favorável a Israel, perante o silêncio de países que nunca aceitariam algo assim há uns anos.

Não creio que esteja a funcionar no interesse da paz, para que os israelitas possam viver em paz no futuro e os palestinianos com dignidade. Tanto Netanyahu como Trump enfrentam problemas sérios nos seus países: acusações de corrupção, de abuso da confiança dos seus cidadãos. Estão sob pressão e aproximam-se de eleições. Não se pode dizer que Netanyahu tenha sido um herói nas últimas eleições: por duas vezes, não conseguiu formar Governo. Os dois estão desesperados, doentes, e sabem que parte do remédio vem um do outro. Trump precisa do voto judaico e dos cristãos sionistas, pensa que quanto mais se aproximar de Israel melhor para si, para conseguir um segundo mandato. Gaba-se: ‘Sou o melhor Presidente para Israel de sempre’. E Netanyahu precisa dele para os seus propósitos. Começou a falar em anexar o Vale do Jordão e os colonatos, está a adiar as eleições a contar com o que tem na América. Nada disto ajuda a uma paz duradora. Por exemplo, quando Netanyahu veio a Portugal, encontrar-se com Pompeo o [o secretário de Estado norte-americano], o que discutiram não foi a preocupação com a paz. O assassínio de Soleimani provavelmente foi discutido aqui. Falaram do Irão e da Palestina. Trump disse que os assassínios eram discutidos há meses e que houve cooperação entre as secretas israelitas e dos EUA.

Falou do Sudão, da pressão sobre países com economias frágeis. A economia portuguesa não é comparável à do Sudão, ainda assim é um país pequeno, mesmo sendo parte da UE. No encontro com o Governo de António Costa, crê que Pompeo tentou pressionar Portugal?

Creio que tentarão. Mas os portugueses foram claros. O vosso ministro dos Negócios Estrangeiros [Augusto Santos Silva], declarou: ‘Com todo o respeito, há grandes desentendimentos entre nós e Israel quanto ao processo de paz e aos colonatos’. O vosso Presidente da República [Marcelo Rebelo de Sousa], quando recentemente visitou Israel e pediram que fosse a Jerusalém ocidental, respondeu: ‘Não posso ir como Presidente. Poderia ir como indivíduo. Criaria um problema político que não precisamos. Reconhecemos a lei internacional e todas as resoluções [da ONU] que estabelecem que parte de Jerusalém pertence a outras pessoas. Não vou lá com a proteção israelita, sem os palestinianos, legitimaria a ocupação’. Foi muito profissional e diplomático. Portugal, a nível oficial, é claro. Aliás, no Parlamento a maioria dos partidos, não só a esquerda ou os comunistas, apoiam um Estado palestiniano, bem como o povo português. Estamos seguros no que toca a Portugal. Mas não podemos ignorar que os israelitas estão a avançar economicamente cá e a criticar tudo como antissemita. Se alguém faz cartoons, os israelitas saltam em cima, e não estão contentes com a vossa posição. Os palestinianos também não, atenção: gostaríamos de ver Portugal fazer mais. Pelo menos estão comprometidos com a posição da UE, que recusou completamente a proposta de Trump.

Como vê esta proposta?

A Resolução da ONU de 1947 estabelece dois Estados na Palestina, um árabe, o outro judeu. As fronteiras do Estado proposto pelos israelitas, que foi reconhecido - foi assim que a comunidade internacional reconheceu Israel - continham 55% do território e o Estado árabe 45%. Mas o que aconteceu? Passou para 77% [com a guerra de 1948, a que os palestinianos chamam Nakba, ou catástrofe, em árabe]. Ficámos com 22% para nós. Agora, se tomarem Jerusalém, o Vale do Jordão, os colonatos, acabamos com 8 ou 10%. É impossível qualquer pessoa aceitar. Quanto é que querem da Palestina?

Jerusalém é um ponto importante da proposta, que prevê que fique a capital Israel e que uma hipotética capital palestiniana fique na periferia da cidade, numa zona descrita como bairros de lata, infestados de gangues. É uma área que nenhum Estado gostaria de mostrar ao mundo como capital. Como se sente quanto a isso?

Jerusalém Oriental é território ocupado, como estabelecido na lei internacional e reconhecido pela comunidade internacional, que diz que o Estado palestiniano deve ser nas áreas ocupadas em 1967. É um direito nosso, ter o nosso Estado onde desejamos. Porque é que discutem connosco onde deveria ser, em vez de abandonarem os territórios ocupados? Jerusalém Oriental é um deles. Estão a tentar enganar as pessoas. Dizem: ‘Oh, estamos a dar aos palestinianos uma capital em Jerusalém’. Como assim em Jerusalém? Para nós, a Cidade Velha é Jerusalém. Não podem ir aos arredores de Lisboa e decidir: ‘Aqui é onde devem ter o vosso Estado’. O que queremos é simples. Vamos negociar e aceitar a lei internacional quanto aos territórios ocupados. Que são 22% do território - nem estamos a pedir os 45%! É como se alguém entrasse no seu quarto e depois dissesse: ‘Ok, vamos fazer um acordo. Fico com o quarto, mas posso dar-te um pequeno espaço. E, talvez, uma extensão para a casa de banho - mas tenho de te controlar aí’. Os israelitas acreditam que quanto mais tempo ficarem, enquanto mudam os factos no terreno, tomando terras com colonatos, mais o seu objetivo se torna real. Alguma vez foi à Palestina?

Não, nunca.

Deveria vê-la com os seus próprios olhos. Como os territórios ocupados estão, com tantos colonatos e estradas entre eles. Muitos dizem que, mesmo agora, é impossível haver dois Estados. Os israelitas agarram-se aos colonatos, em vez negociarem a sério. Bush pai disse: ‘Terra por paz. Terra para os palestinianos, paz para os israelitas’. Temos de ter como base a lei internacional, não é caridade. Quando oiço [Jared] Kushner falar, parece que nos está a dar algo simpático, porque não merecemos nada. Na cabeça dele, não nos vê como proprietários desta terra. É essa a mentalidade das pessoas à volta de Trump.

É interessante que o plano de Trump parece basear-se numa suposta pretensão bíblica do povo judeu à Palestina, o que não acontecia com outras administrações dos EUA.

Antes do mais, Deus não é um agente imobiliário, que divide terras, dá a uns povos e tira a outros. Segundo, quando se olha para a História, vemos que os árabes estiveram aqui na Península Ibérica. Poderia dizer: ‘Os árabes e muçulmanos estiveram nestes territórios há centenas de anos, têm direito a eles”? Ter como base que judeus viveram na Palestina há dois mil anos não faz sentido. Ao longo da história, 33 nações viveram na Palestina. Se isso lhes dá direito à terra, porque é que aos palestinianos, que foram arrancados das suas casas, isso não se aplica? Podem declarar: ‘Deus deu-nos esta terra, alguns judeus viveram aqui, num curto período de tempo’. Isso não legitima a ocupação de outras nações. Alguns fanáticos religiosos dizem isso. Mas eu também sou filho de Deus. Porque é que Deus tem um povo escolhido e eu devo ser atirado para uma tenda? O que é que eu fiz? Os israelitas fingem inocência, que são as vítimas da História. Mas isso não é justo, não está certo. Se estão interessados na paz não é este o caminho, só continua a ocupação e a opressão. Deveriam saber o que é opressão e não fazê-lo a outros povos. Cada vez vemos mais judeus que reconhecem que o que Israel faz aos palestinianos não coincide com os ensinamentos do judaísmo.

Como vê a posição europeia?

Os israelitas prolongam esta situação para deixar o resto do mundo cansado, completamente farto. Até que digam: ‘Não queremos saber, não queremos mais ouvir falar disto, custa-nos dinheiro’. No caso da Europa, no ultimo ano pagaram 600 milhões de euros para ajudar os palestinianos. São 1,5 milhões por dia. Israel continua a pressionar para que a Europa se afaste, mas esta ainda acredita em princípios e pondera quanto ao Médio Oriente - são eles que estão mais próximos, não os EUA. Ao mesmo tempo, Israel, como ocupante, tem responsabilidade de providenciar educação, saúde e serviços aos palestinianos. Mas se a Europa quer pagar... Dão o dinheiro, os israelitas agradecem. Em vez de o entregarem a instituições ficam com ele, já que estão a roubar tudo aos palestinianos. Não há energia, escolas, hospitais. E a Europa não faz nada para mudar este comportamento. Desde 1967, todas as posições europeias são críticas de Israel. ‘Não devem fazer colonatos, não devem fazer isto e aquilo’. Não houve comunicado que a Europa não fizesse nos últimos 50 anos. Netanyahu não quer saber - mete-os todos no lixo. 

Qual é expectativa palestiniana para a ação dos países europeus?

No fim de contas, o mundo não pode resolver o problema, só pode ajudar. Se os israelitas não tiverem nenhum interesse nisso, ninguém pode fazer nada. Tem de haver, dentro de Israel, a posição de dizer: ‘Demais é demais. Não queremos continuar a viver assim, nem que os palestinianos vivam assim’. Mas a Europa pode dar alguns passos. Se acreditam na solução de dois Estados, devem protegê-la. Deixar claro aos israelitas que não podem continuar a confiscar terras e construir colonatos. Se continuarem, significa que não vai haver Estado palestiniano, então é estúpido acreditar nos dois Estados. É como alguém estar a morrer e a precisar de cirurgia. Vocês, Europa, vêm, dão-lhe alguns comprimidos. mas sabem que a pessoa vai morrer. A solução dos dois Estados - vão apenas assistir à sua morte? 

Esta cirurgia metafórica seria a solução de um Estado, com direito de retorno dos palestinianos, com judeus, árabes e outros a viverem juntos?

Há várias escolhas. Há a solução de um Estado, onde vivemos juntos, com uma constituição para todos e direitos iguais, na mesma terra. Penso que é a melhor. Mas penso que é impossível para os israelitas sequer pensar nisso. Eles querem um Estado puro dos judeus, sem árabes. Qualquer coisa que não seja um Estado judeu, forte, nem ponderam. Depois há a solução dos dois Estados, nas fronteiras de 1967, nós com 22% e os israelitas com 78%, vizinhos que se respeitam. Se os israelitas aceitarem isso, é algo aceitável para nós. A opção que sobra é dominarem os palestinianos, continuarem a ocupação. É isso que tememos - mas creio que não funcionará. Há um crescente número de israelitas que se questiona: “Porque é que haveremos de continuar a arruinar a vida dos palestinianos?”.

Um dos argumentos usados por Israel contra solução de um Estado, com direito de retorno, é que haveria conflitos entre as duas populações, devido à sua história. O que pensa disso?

Isso está na cabeça deles. Em alguns países as pessoas coexistem pacificamente, como em Portugal. Noutros acreditam no racismo e não conseguem viver juntos. Eu não teria problema em viver ao seu lado, ou de qualquer outra pessoa, desde que nos respeitemos. Mas se me considerar superior a si, tenho a certeza que não conseguiria viver consigo. Alguns israelitas veem-se como melhores. É uma questão de mentalidade, mas que outra opção há? Continuar a ocupação e o conflito? Muitas vezes, em política, faz-se o melhor dentro do possível.

Há uma separação entre palestinianos e israelitas no terreno, mas imagino que haja espaços onde há coexistência pacífica, com mais ou menos tensão.

Humanos são humanos. Mas este conflito e a ocupação não são justos. Ao longo destes anos, muitos israelitas passaram a ver os palestinianos como bombistas suicidas ou mão-de-obra barata, que vem trabalhar em Israel. Já os palestinianos veem os israelitas como os colonos armados, que vemos na Cisjordânia - sentimo-nos ameaçados por eles e eles por nós - ou como soldados com metralhadoras. Muitas vezes vejo os soldados, muito novos, estão assustados e podem disparar - sabe, a maioria das mortes nos checkpoints é cometida por soldados jovens, sem qualquer experiência. Às vezes olho para eles, têm 18, 19 anos, lembram-me o meu filho. Tenho pena que estejam nesta situação, com uma arma nas mãos. Penso que queria que este miúdo estivesse a desfrutar a vida, ou de jantar com ele e conversar. O conflito tornou os palestinianos em refugiados na Cisjordânia, Jordânia, Líbano ou na Síria, e os israelitas em ocupantes. Cada vez que preciso de ir a algum lado tenho de ter um visto militar. Imagina viver no seu país, ter de ir ao Porto e precisar de um visto militar? No sul da Palestina, em Hebrom ou Belém, todos nós, de manhã e à tarde, quando vamos e voltamos, temos de passar por um pequeno checkpoint. Chamam-lhe o contentor: os israelitas trouxeram um contentor e meteram lá uns soldados. Se estiver fechado, ninguém - mais de um milhão de pessoas - pode passar. Cheguei a ver filas demorar mais de duas horas. Imagina passar por isso? Todos os dias se sente a injustiça.

Sei que experimentou isso na primeira pessoa. Quando era mais jovem foi detido por soldados israelitas.

Fui detido duas vezes, uma vez quando era novo, outra quando já ensinava na universidade. Quando vim dos Estados Unidos fui posto na prisão e interrogado. A maior parte do dia, as minhas mãos estavam amarradas atrás das costas, e punham-me um saco na cabeça. Não se consegue ver nada, cheira mal... Perguntavam-me sobre as minhas atividades nos EUA, quando era estudante. Acusavam-me de ser um nacionalista palestiniano, ou ter laços com a OLP. Vou ser honesto consigo: até hoje, nunca toquei numa arma. Vi armas, mas não quero usá-las. Prefiro não matar ninguém com uma, não quero. Não é segredo, sou embaixador e vou a qualquer lado sem segurança, sem armas. Mas quando estive detido estive nas piores condições, durante três semanas, para verem se dizia: ‘Sim, eu apoio alguma das fações da OLP’, para acabar seis ou sete anos na prisão. Eu disse-lhes que não fazia parte de nenhum movimento. Sou palestiniano, e é isso. Foi uma situação terrível, estar preso por ser palestiniano. Queriam que defendesse a ocupação deles? Claro que não. Decidi que sairia dos territórios ocupados, pediria algum tipo de mediação ou advogado. Disseram que não podia. Só com uma condição: ‘Podes sair, mas não podes voltar por cinco anos’. Consegui baixar para três anos, assinei um papel oficial - guardo-o até hoje. Eles fazem-te sentir que da próxima vez que regressares talvez não te deixem ir embora. Voltei para aos EUA, para fazer o meu doutoramento. Foi um exílio temporário. E qual foi a acusação, falar da Palestina numa aula? Não é fácil para os palestinianos.

Depois disso foi um conselheiro muito próximo de Yasser Arafat , conheceu-o em Beirute. Como foi esse encontro?

É sempre um momento especial quando se conhece Arafat, depois de tantos anos. Poder sentar-me com ele, como estamos agora, tão novo. Tive a hipótese de o conhecer realmente, estabelecer uma relação muito, muito pessoal. Depois disso, pude transmitir-lhe a minha visão sobre vários assuntos. Costumava aconselhá-lo quanto às políticas americanas para a OLP, mas também relativamente a conflitos como a ocupação do Kuwait pelo Iraque, ou as propostas para o processo de paz. Falava-lhe de forma livre, aberta e em privado. Quando ele se deslocou para Tunes, após 1982 [devido à guerra civil no Líbano], eu ainda era novo, quando comparado às pessoas que via à volta dele, generais! Era um rapaz novo na altura. Creio que viver na América também me deu oportunidade de ver o mundo de um ângulo diferente. E aprendi muito sobre a Palestina quando era estudante na América, mais do que dentro da Palestina, quando vivia lá. Porque na América encontras visões, discussões diferentes, escutas mais porque é um país aberto. Foi uma oportunidade para perceber como outros países agem, pensam, o que é que a OLP pode fazer e o que não pode fazer, o que é aceitável e o que não é. No final do dia, as pessoas que tomam decisões nos Estados Unidos, se estudares com eles, consegues falar, escutá-los, percebê-los. É uma mais-valia conhecer os americanos e os decisores políticos, através de relações pessoais. Ao longo do meu trabalho, apercebi-me que a maioria das decisões importantes não são tomadas em reuniões formais, surgem dentro de relações privadas, discretas. Podes ter mais influência assim do que em reuniões formais. 

Construiu uma relação próxima com Arafat, mas quando o conheceu bastava ligar a televisão para o ver descrito como um perigoso líder terrorista. Como foi separar a imagem pública do homem em si mesmo?

Deixe-me contar-lhe algo ilustrativo. Quando ele estava em Tunes, se fosse nessa altura à rua dele, via que estava numa casa mais pequena que esta. Mas dava para ver que era a casa mais poderosa do mundo. Pela segurança, o tipo de pessoas que entrava e saía, Presidentes e líderes mundiais... Iam a uma sala como esta, onde estava Arafat. Fui ver essa casa há anos atrás, depois da sua morte. Olhei para aquela pequena sala, onde me costumava sentar com Arafat, fui à cozinha... Pensei: ‘Como é que ele viveu aqui?’. O que importava era quem estava na casa, não a casa. A imagem dele é a de o líder de uma causa, de uma revolução, com contactos com líderes de todo o mundo - com [Bill] Clinton, após o processo de paz, era um visitante frequente da Casa Branca. Quando Arafat era novo, os jovens imaginavam sempre conhecê-lo, ‘Arafat, Arafat...’. Ele desenvolvia sempre relações pessoais muito fortes à volta dele. Mas quando vê Arafat, não é um homem grande, imponente. É pequeno, magrinho. Se não o vir no seu uniforme militar, ele é diferente. Mas aquele que vê, com o lenço da causa palestiniana, com a sua seriedade... Se estiver furioso, ninguém quer falar com ele, ele é duro. Mas se almoçar com ele, de certeza que vai pegar na travessa para pôr comida no seu prato, insistir para que coma sobremesa. Aliás, certa vez tive um jantar, um grande jantar, peixe em Tunes. E recebemos uma chamada, eu e alguns amigos. Disseram: ‘O secretário-geral Arafat está à vossa espera para jantar’. Mas já estavamos cheios! Então fomos lá, sentámo-nos, tentei comer pouco, mas ele disse: ‘Não, não, não está a comer!’. Não podia dizer que já tinha comido, seria um insulto, má-educação, ele esperava que jantasse com ele. Não podia dizer isso e as pessoas comigo sabiam - começaram a dizer que eu estava cheio de fome! [Risos]. No final, quase explodi.

Nota-se uma grande nostalgia em si

Hoje em dia, com os meus amigos, falamos disso, da hospitalidade dele. Também me recordo de quando estava a ensinar na Universidade de Hebrom. Não havia telemóveis na altura. O telefone central da universidade recebeu uma chamada. Disseram-me: ‘o secretário-geral Arafat quer falar consigo’. Pensei que fosse uma piada. Fui ao telefone e ele estava do outro lado da linha: ‘Nabil, eu sei que os teus colegas na universidade não são pagos há muitos meses’ - aproximava-se o Eid, sabe? [feriado muçulmano que marca o fim do jejum do Ramadão]. ‘Quero que vás e peças emprestado algum dinheiro às pessoas da cidade. Garanto que te pago em duas semanas, através do nosso gabinete na Jordânia, em Aman’. Quando penso em alguém me liga de Tunes para que os meus colegas sejam pagos... O Eid é como o natal para nós. Consegue imaginar o respeito com que fica por este homem, que se lembra dos funcionários da universidade? É uma pessoa especial. Quer saber das pessoas, e as pessoas querem saber dele também.

Quando conheceu Arafat, foi durante a guerra civil do Líbano, onde a OLP teve um papel importante. Como foi viver nessas circunstâncias?

Digo-lhe, o Arafat tem visão. Havia lá um campo de treino, e eu era novo, tinha 26 anos, fui lá vê-lo. Ele perguntou-me: ‘Porque é que queres ir? Vais causar-nos problemas. Porque se receberes qualquer treino militar no Líbano, quando voltares aos EUA vais arranjar confusões com o FBI, para a comunidade palestiniana lá, acusam-nos de vir cá treinar, etc.’. Escreveu-me uma nota: ‘Vai para o hotel’. Pagava ele, enviou-me a um contabilista da Revolução, que me deu cerca de mil liras libanesas, equivalente a uns duzentos dólares. ‘Desfruta Beirute e depois regressa’. Quando voltei aos EUA, o FBI perguntou-me se tinha recebido treino militar. Eu disse que não, e não o fiz até hoje. Penso que ficou satisfeito em ver-me ganhar relevância política para ele nos EUA, em vez de ser militar - ele tinha dezenas de milhares e não sabia o que fazer com eles.

Mas na altura estava disposto a receber treino, a lutar pela causa palestiniana.

Nessa idade acredita-se em fazer parte da luta. Quando se fica mais politizado, podemos ver outro tipo de esperança para a paz e começamos a defender essa abordagem. Os militares pensam em como melhorar a sua força. Como político, eu pensava em maneiras de os palestinianos viverem em paz, com dignidade. Essa tornou-se a abordagem da minha vida. Nunca carregarei uma arma. Sou uma pessoa diferente, ele salvou-me, para que fosse um político, suponho. Talvez eu tenha ficado desapontado na altura - ‘Ele não me quer no campo de treino’, pensei. Eu era um académico jovem, mas comecei a aconselhá-lo diretamente - muitos da liderança até ficaram invejosos. É que, na altura, nós não falávamos com a América, não tínhamos qualquer ligação. Qualquer pensador, qualquer americano que estivesse disposto a começar um diálogo com a OLP, Arafat considerava-o um bom canal diplomático.

Acha que nesta altura, tantos anos antes, Arafat já planeava algo como o que viriam a ser os acordos de Oslo?

Sim, estava na cabeça dele. O que Arafat dizia publicamente não era o que ia lá dentro. Por exemplo, ele tinha todos estes revolucionários nas fronteiras do Líbano, etc. Estas pessoas precisam que as aqueçam com discursos. Mas quando nos sentávamos, eu e ele, falávamos sobre como usar este poder para nos sentarmos à mesa de negociações, conseguir um processo de paz, falar com os americanos e os israelitas. Porque ele sabe que não podemos simplesmente libertar a Palestina com as nossas tropas. Usamos o confronto militar para negociar, ou ninguém nos leva a sério. Arafat sabia que era esse o jogo. Tinha de ganhar um lugar à mesa para negociações políticas através de ações militares. Quando és político, o que sabes e dizes em privado é diferente do que é dito lá fora. É por isso que creio que qualquer negociação, qualquer acordo de paz, tem de ser feito discretamente. Não com a abordagem de Trump, que entra a dançar com Netanyahu. Foi esse o sucesso dos acordos de Oslo, que foram negociados em segredo.

Ao ver a impotência da Autoridade Palestiniana face ao confisco de terras, aos colonatos, ao plano de Trump, como vê essa ideia de Arafat, de que sem força militar não se é levado a sério nas negociações?

Arafat sempre manteve relação com os territórios ocupados. Então, o mundo inteiro tentou falar com os israelitas, deixar claro que a situação dos palestinianos não podia continuar assim. Ao mesmo tempo, [o então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak] Rabin sabia que quem tinha a chave de um acordo era Arafat - era ele que era reconhecido pela ONU, pelos países árabes, os territórios ocupados não negociariam sem ele. ‘Arafat representa-nos. Falem com ele”. A Intifada [em 1987, ações de palestinianos contra a ocupação israelita] mudou a equação do conflito. Rabin sabia que era altura de parar de desperdiçar tempo e sentar-se com Arafat. Até os americanos tinham consciência disso, porque precisavam dos árabes, durante a Guerra do Golfo. E Arafat também sabia disso. Fazia ações militares, escalava a situação na Cisjordânia, em Gaza, com a Intifada, e depois negociava.

Hoje em dia, o que poderia mudar o cenário como a Intifada mudou?

A violência é um jogo muito perigoso, não sabes como acaba. E há violência desde o início do conflito, não resolveu nada. Mesmo a Intifada, sem Rabin, que pensou que era tempo de negociar e agiu, não teria resolvido. É importante criar as condições para negociar, mas precisas de pessoas que agarrem essa oportunidade, que transformem as condições em que o seu povo vive. A violência não é uma cartada segura, leva a mais derramamento de sangue, o que muitas vezes não significa uma solução melhor. Para ser franco, creio que falta aos israelitas um líder como Rabin. Se não tivesse sido assassinado, não tenho dúvidas que teríamos paz com Israel. Mas porque é que é o mataram? Importa perceber o que são os sionistas. Para eles, houve algo que não é aceitável: Rabin disse para dividirem a terra. ‘Não lhes damos esta terra, veio de Deus, etc’, responderam, e decidiram matar Rabin. Então, dois grupos religiosos na Palestina e Israel - os islamitas do Hamas de um lado, os judeus sionistas mais extremistas do outro - disseram: ‘Não há acordo’. Rabin agiu não porque gostasse de Arafat, mas porque se preocupava com os israelitas e optou pelo processo de paz. E digo-lhe que o que Netanyahu e Trump estão a fazer não é pelos israelitas, mas pelos seu próprio interesse pessoal, em sobreviver nos seus cargos. O que Rabin fez, custou-lhe a vida. É tão difícil apertar a mão do teu inimigo... vê-se isso na foto do aperto de mão de Rabin e Arafat, na Casa Branca.

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