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Avenida da Liberdade. Os Campos Elísios cá do sítio

Avenida da Liberdade. Os Campos Elísios cá do sítio

Rita Pereira Carvalho 23/02/2020 11:45

Tem cada vez mais lojas e mais clientes. A Avenida da Liberdade foi criada a pensar nas avenidas parisienses e hoje o conceito ainda se mantém. A excentricidade faz parte da rua mais cara do país e as histórias multiplicam-se – com ricos e pobres à mistura. Se para uns se fecham lojas para que possam fazer as suas compras descansados, outros dormem à porta de espaços onde uma camisola pode custar o equivalente a uma renda de um quarto.

Uma avenida que é um museu. Entre o Marquês de Pombal e os Restauradores, os passeios são feitos entre lojas de luxo únicas em Portugal, com preços também eles únicos. E naquela exposição a céu aberto representa-se fielmente a habitual pirâmide social – que ali é mais acentuada, não fossem os clientes de milhares a dar uma moedinha ao sem-abrigo que arruma carros. A Avenida da Liberdade tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos – há hoje mais lojas de luxo, mais clientes que passam horas na mesma loja e também mais pobres a tentar a sua sorte. Por ali não faltam hotéis, escritórios e a Avenida é um espaço onde a mudança entra todas as semanas, seja com as corridas que juntam milhares de pessoas, com as feiras de velharias, ou até mesmo com as manifestações ou marchas populares.

“São os Campos Elísios cá do sítio”, diz ao i uma das funcionárias de uma das lojas de luxo daquela rua que tem mais de um quilómetro. E acrescenta: “É o único sítio onde estão concentradas lojas de marcas de luxo que não há noutros pontos do país”. Quem para por ali já sabe ao que vai. E há, segundo quem trabalha ali todos os dias, cada vez mais clientes russos e brasileiros. Os angolanos são cada vez menos e, nesta altura, também se veem menos chineses, “talvez por causa do novo vírus, porque clientes chineses há sempre, agora é que têm vindo menos”.

Se hoje há quem compare a Avenida da Liberdade aos Campos Elísios, em Paris, há mais de cem anos o objetivo era mesmo esse – a construção terminada em 1886 foi desenhada à imagem das avenidas de Paris e trouxe-se uma réplica das ruas parisienses para desfruto das classes portuguesas mais endinheiradas. As árvores para garantir sombra às burguesas e a calçada portuguesa ainda hoje permanecem.

Os passeios mais caros do país A Avenida da Liberdade é considerada a 35ª avenida mais cara do mundo. E, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, no último trimestre do ano passado o valor por metro quadrado na freguesia de Santo António – à qual pretende a Avenida da Liberdade –, fixou-se nos 4.889 euros. Esta é a freguesia mais cara da capital e do país.

Este facto, por si só, já denuncia algum tipo de excentricidade de quem frequenta estas lojas. E há até relatos de espaços que fecharam para um só cliente poder fazer as suas compras descansado. “Já aconteceu várias vezes. Chego à porta e o segurança diz que tenho de esperar à porta, ou porque a loja está reservada para um determinado cliente, ou porque atingiu o número máximo de pessoas lá dentro – e o número não é assim tão elevado, porque o atendimento é especializado e raramente as pessoas andam sozinhas nas lojas sem acompanhamento de um empregado”, explicou Paula Moniz, uma cliente assídua da Avenida da Liberdade.

Por esta altura, dentro das lojas, fazem-se as devoluções da roupa de inverno e preparam-se as montras para a nova estação. O horário das lojas da Avenida não é tão alargado como o dos centros comerciais e as portas fecham às 19h. “Mas temos clientes que chegam às 18h, por exemplo, e depois nós fechamos a loja e eles ficam até às nove ou dez da noite. Acontece muitas vezes”, conta uma lojista. Ali os clientes são outros e o tempo também se compra. “São clientes que gostam de ficar muito tempo e as peças têm outro valor, é um investimento, no fundo”.

Nas lojas, dizem, não é feita a distinção de clientes. Há sempre os habituais, a quem os empregados já conhecem o nome, mas há também as surpresas. Um antigo trabalhador de uma das lojas mais caras da Avenida contou que ali não se pode julgar pelo aspeto, porque normalmente os que não ostentam tanto são os que mais compram. Há uns anos, este antigo empregado pensou mesmo que teria de chamar a segurança, mas as pessoas que julgava terem ido à loja sem objetivo de comprar, acabaram por fazer a compra mais valiosa do dia.

Lojas restauradas A contrastar com o resto da cidade, na Avenida da Liberdade não se veem edifícios abandonados. E as marcas que aderiram ao conceito de lojas de rua nos últimos anos optaram por abrir espaços em edifícios restaurados. Segundo um estudo CBRE, consultora especialista no mercado imobiliário, para este ano prevê-se que entrem no comércio de rua mais lojas de luxo. Para 2020 está prevista a abertura de mais sete lojas – entre elas a Dolce & Gabanna. O estilo de arquitetura clássica contrasta com a moderna, mas os edifícios do século passado mantêm-se na sua generalidade. A Avenida da Liberdade insere-se numa zona classificada pela Direção-Geral do Património Cultura e muitas dos edifícios são classificados como imóveis de interesse público. Por essa razão, as alterações nas fachadas não podem ser feitas e apenas são permitidas obras de conservação e restauro.

“Por aquilo que tenho visto e tendo em conta o número de lojas que abrem e que vão abrir, acho que o objetivo será prolongar as lojas de luxo até à Baixa”, diz uma das empregadas de uma outra loja. “Daqui a pouco tempo não vai haver mais espaço para tanta loja e a as marcas vão querer expandir-se para outras zonas que não fiquem longe daqui”, acrescenta.

A ‘ZER’ não é problema Ao contrário da preocupação que sentem os comerciantes da zona da Baixa, as alterações anunciadas pela Câmara Municipal de Lisboa, para a nova Zona de Emissões Reduzidas, a chamada ZER, não terão qualquer impacto na Avenida da Liberdade. Ainda que o último quarteirão da rua – que liga a Avenida da Liberdade à praça dos Restauradores – fique sem carros já a partir de junho, isso não parece ser problema para as lojas de luxo. “Os nossos clientes não são pessoas de transportes públicos e há sempre outras alternativas para vir de carro. Acredito que será pior para as lojas tradicionais da Baixa, porque têm outro tipo de clientes”, explica uma das empregadas.

Mas naquele museu em forma de rua parisiense ainda há muito a fazer. O contraste entre aqueles que têm dinheiro e os que nem uma casa têm para dormir acentuam-se ao cair da noite. Quando as lojas fecham, aparecem os cartões e cobertores dos sem-abrigo que escolhem a avenida mais cara do país para passar a noite. Já são conhecidos pelos lojistas e durante o horário de funcionamento das lojas, tiram os cobertores. Mário, um dos sem-abrigo que dorme naquela rua, arruma carros durante o dia e, segundo ele, já conhece “as senhoras todas e às vezes até oferecem amostras de perfumes”.

Pela Avenida há também quem ainda não siga todas as regras. Passeia-se o cão, mas nem sempre se leva o pequeno saco preto. “A boa educação não vem com o dinheiro”, diz Mário.

 

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