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Adeus Avenida. Os últimos suspiros das lojas nas galerias do Hotel Florida

Adeus Avenida. Os últimos suspiros das lojas nas galerias do Hotel Florida

Rita Pereira Carvalho 23/02/2020 10:18

O edifício com vista para a praça Marquês de Pombal foi vendido em 2016 e os arrendatários já começaram a receber as cartas de não renovação dos contratos. Ali, há histórias do século passado e lojas frequentadas por jornalistas, ministros e advogados.

Há uns anos, as galerias do edifício onde se situa o Hotel Florida, com vista para a praça do Marquês de Pombal, estavam repletas de lojas e pessoas que entravam e saíam para tomar café ou simplesmente para passear entre as pausas do trabalho. Hoje, duas mãos chegam para enumerar os espaços comerciais que por ali foram ficando. Este edifício podia ser igual a tantos outros, não estivessem lá duas das lojas mais antigas da capital: o restaurante The Great American Disaster e a barbearia Brasília, que nunca mudaram de sítio e criaram a imagem de marca do imóvel de nove andares.

Com o passar dos anos, o abandono foi-se acentuando, denunciado pela falta de limpeza da entrada das galerias. E, segundo o senhor Marques, o dono da barbearia Brasília, “tem sido cada vez pior, porque já ninguém se importa”. “Há quatro ou cinco anos que isto não é limpo”, acrescenta.

O imóvel foi comprado em 2016 por um fundo de investimento chinês e, na altura, as notícias davam conta de que as lojas se iriam manter, não existindo assim nenhuma alteração. Cerca de quatro anos mais tarde, os comerciantes começaram a ser confrontados com a hipótese de não verem os seus contratos renovados.

O Café do Marquês, por exemplo, vai deixar de servir comida e bebidas já no final deste ano. O contrato de arrendamento termina em dezembro de 2020 e José Martins, um dos proprietários, explica que todos os comerciantes estão a ser informados e, claro, não sairão todos ao mesmo tempo, já que os contratos de arrendamento terminam em momentos diferentes. José Martins está naquele edifício “há 40 e tal anos”. “Ainda aqui funcionava o jornal Expresso, o Correio da Manhã, muitas sedes de bancos e até os filmes Castelo Lopes que tinha lá dezenas de mulheres a trabalhar”, acrescenta.

O tempo foi passando, as empresas sobre as quais fala José Martins foram desaparecendo, mudaram-se para outros sítios e “isto ficou deserto”. “Não estou numa zona turística, por isso, tudo me ajuda a sair”, diz. No final do ano, conta que não quer mais nada com cafés e, o mais provável é não abrir portas noutro sítio.

O mesmo se passa com uma pequena loja de chaves, que fica numa das saídas para a Rua Duque de Palmela. O contrato termina daqui a três anos e o arrendatário do espaço já foi informado de que o mesmo não será renovado. Pelos corredores da galeria fala-se na construção de um hotel, mas ninguém sabe ao certo.

O edifício foi comprado por mais de dez milhões de euros e, além dos contratos mais recentes que não estão a ser renovados, existem outros contratos mais antigos, como é o caso do da Barbearia Brasília. Ao i, o dono do espaço explicou que dentro de quatro anos, segundo o regime do arrendamento urbano, o seu contrato também terminará. “Por força daquilo que terá sido o negócio efetuado, os novos donos pretendem ter outro tipo de estabelecimentos por aqui”.

A Barbearia Brasília existe desde dezembro de 1959 no primeiro piso daquelas galerias e, tal como no café de José Martins, também por ali passaram jornalistas, que ainda hoje continuam a ir lá cortar o cabelo. Os tempos mudam, mas, neste caso, os clientes não. Se antes havia muito trabalho, hoje o salão continua cheio e a agenda do cabeleireiro continua preenchida. “Antes só havia mais gente, por uma razão muito simples, porque há trinta anos os homens também lavavam o cabelo uma vez por semana, e o mesmo cliente vinha três ou quatro vezes por mês. Hoje vem uma vez por mês”. Por esta casa já passaram clientes como a família Pereira Coutinho ou o antigo ministro António Vitorino.

Fechando portas, este cabeleireiro que já leva cinco décadas de história não deverá abrir portas noutro sítio e os seis funcionários terão de arranjar outro emprego. Sobre histórias, fala-se também do restaurante The Great American Disaster, propriedade do Hotel Florida. Situado no primeiro andar do edifício, este restaurante traz memórias mágicas a quem, na década de 80, o frequentava. Desde a decoração até aos famosos milk-shakes, entrar ali era como se estivessem a pôr um pé em solo americano. E hoje continua igual, por enquanto.

 

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