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José Paulo do Carmo 21/02/2020
José Paulo do Carmo

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O Big Brother e a notícia da morte da filha ao vivo

Esta semana assistimos a uma das mais podres, abjetas e vis peças de televisão de que há memória. A mais insensível, seguramente. Que revela aquilo que alguns são capazes de fazer em nome da voraz competitividade que a todos atropela e que não olha a meios para atingir os fins.

A tendência nos média um pouco por todo o mundo é, hoje em dia, a exploração cada vez mais crua das emoções. As pessoas deixaram de querer ler uma simples notícia contada por alguém que soube por intermédio de um comunicado ou de uma conferência de imprensa. Nós queremos a experiência à flor da pele, sentir que estamos lá enquanto decorre o acontecimento e, por vezes, pensar que chegámos primeiro e que assistimos a tudo na primeira fila. Isso sim, dá-nos prazer. E dá também prazer a alguns ver o sofrimento dos outros, a dor, o escândalo, para ficarem um pouco mais bem resolvidos com os seus problemas. Há muita gente que se alimenta das desgraças dos outros e esse é um dos principais combustíveis que continuam a fazer carburar o seu corpo e a dar motivação para continuar. Há quem esteja pior que nós.

Esta semana assistimos a uma das mais podres, abjetas e vis peças de televisão de que há memória. A mais insensível, seguramente. Que revela aquilo que alguns são capazes de fazer em nome da voraz competitividade que a todos atropela e que não olha a meios para atingir os fins. Um programa chamado Cidade Alerta, na brasileira TV Record (a tal de Edir Macedo, o grande pastor da Igreja Universal do Reino de Deus), apresentado por um pivô com ar plástico de quem não se importa com nada (de nome Luiz Bucci), faz uma peça de investigação sobre o desaparecimento de uma menina grávida de 21 anos e convida a mãe da mesma (que confessara passar os dias a chorar, sem dormir, à espera de boas notícias) para entrar em direto com a promessa de que teria novidades que desvendariam todo o caso. A mãe ansiosa e desesperada por notícias lá acedeu, mas o que ouviu em pleno programa não era o que estava à espera. A filha tinha morrido, o advogado do homicida declarava que o seu cliente acabara de confessar o crime e de indicar à polícia o local onde estava o corpo e que este já havia sido encontrado. Como seria de esperar, a mãe desmaiou sob um choro compulsivo em direto e as audiências dispararam.

Quando faltará menos de um mês para a estreia do tão aguardado Big Brother 2020, a suposta casa mais vigiada do país (que ninguém admite ver mas que todos comentam ao pormenor), a TVI decidiu colocar a cereja no topo do bolo contratando para apresentador Cláudio Ramos. O rei dos mexericos, das bilhardices, coscuvilhices e conversas sobre a vida alheia, que se especializou como tantos outros nessa carreira que vai tendo cada vez mais futuro na nossa comunicação social, foi apresentado com pompa e circunstância. Como sabemos que este tipo de programas nunca ficam sem resposta, será anunciado um reality show do género na SIC e lá voltamos nós a esta palhaçada que explora até à exaustão o pior que o ser humano pode ter. Mais uma vez, ninguém vai ver, mas será com certeza o líder das audiências por uns tempos. Mais uma vez, muitos perderão tempo das suas vidas a alimentar-se da vida dos outros. Com todo o direito, dirá o mais acérrimo dos defensores das liberdades. Claro que sim. Cada um vê o que quer.

Sem querer fazer um paralelismo entre os dois casos, não deixa de ser sintomático que alguma comunicação social esteja a resvalar neste sentido. No fundo, não é mais do que o reflexo da falta de valores, de princípios e de educação da própria sociedade em si. E quem manda, há muito que se ouve dizer, são as audiências. A exploração dos sentimentos, da dor, da humilhação, da exposição pública. Há quem diga que nalguns países já se vai ao ponto de serem os próprios programas a instigar alguns pobres de espírito a cometer certas atrocidades, pagos para que possam ser filmados ao vivo e “apanhados” em flagrante delito. Mas é isso que o público quer. O cinema deixou de ser suficiente e, agora, o cadeirão e as pipocas ficam reservados para ver o triste e mediático circo do mais puro e atroz realismo: a decadência da condição humana.

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