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António Luís Marinho 21/02/2020
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

A desventura da direita portuguesa

A direita portuguesa, envergonhada durante décadas, tem hoje um líder. Mas é ele o líder que a direita devia ter?

“Deixe-me dizer no que acredito: no direito do homem de trabalhar como quiser, de gastar o que ganha, de ser dono das suas propriedades e de ter o Estado para o servir, e não como seu dono. Essa é a essência de um país livre, e dessas liberdades dependem todas as outras”

Margaret Thatcher

 

As últimas sondagens publicadas apontam para um grande crescimento do Chega. Um mês depois das eleições de outubro, a primeira sondagem apontava para o dobro dos votos conseguidos nas urnas (1,29%). Em dezembro do ano passado, outra sondagem confirmava a subida, apontando agora para os 4,8%, colocando-o à frente do CDS.

Na passada semana, uma nova sondagem aponta para os 6%, colocando o Chega como a quinta força política, à frente do CDS e do PAN.

André Ventura é, ao mesmo tempo, um dos líderes partidários com mais referências na comunicação social.

Que conclusões devemos tirar destes dados, uma vez que, como nos ensinou Sophia de Mello Breyner, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”?

A primeira, que me parece evidente, é que a direita portuguesa, envergonhada durante décadas, tem hoje um líder.

A segunda questão é se esse líder é aquele que a direita devia ter.

Muitos fatores históricos concorreram para a atual situação.

O primeiro é, obviamente, a herança de um regime de ditadura de inspiração fascista, que durou meio século e que, ao ser derrubado, colocou o anátema sobre qualquer hipótese de direita política claramente assumida. Foi assim que foram rapidamente eliminados agrupamentos como o Partido Liberal, o Partido do Progresso ou o Partido Nacionalista Português.

O CDS, reclamando-se da democracia cristã, acabou por ser a formação política mais à direita tolerada pelo poder revolucionário, nunca tendo assumido esse lugar no espetro político, falando a sua declaração de princípios em abrir-se “a todos os democratas do centro-esquerda e do centro-direita”.

Mais tarde, quando da votação da Constituição, que o CDS foi o único partido a rejeitar, os seus dirigentes, apesar disso, admitiam a “sociedade sem classes” e uma “via original para o socialismo”.

Foi assim que a direita, com vergonha de si própria, se tentou sempre colocar ao centro, entrando no jogo das estratégias de alianças para chegar ao poder, navegando entre a democracia cristã e o liberalismo e, nos últimos tempos, nem uma coisa nem outra.

É verdade que essa posição ambígua no xadrez político conseguira, até agora, tirar espaço a qualquer direita radical.

Só que os tempos mudaram.

Partidos como o Chega e a Iniciativa Liberal conseguiram eleger um deputado à Assembleia da República, exibindo, no segundo caso, um programa coerente da direita liberal, enquanto o primeiro se enquadra claramente na direita radical populista.

Embora com perfis e programas muito distintos, ambos os partidos se assumem de direita.

O novo líder do CDS, eleito recentemente, oriundo da juventude partidária, também afirmou claramente a posição à direita do seu partido. No entanto, parece revelar o mesmo vício taticista de alianças, ao invés de anunciar um programa claro.

O que esperar então da direita portuguesa, finalmente assumida?

Para já, a liderança pertence à ala radical. E desta ala não se esperam boas notícias.

 

Jornalista

 

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