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José Cabrita Saraiva 20/02/2020
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@newsplex.pt

Os mármores da vergonha

O timing da União Europeia revela uma hipocrisia tremenda. Se os Estados-membros acham tão importante a devolução, porque não a exigiram antes? Como puderam durante tantos anos pactuar com aquilo que, de um momento para o outro, passaram a considerar uma injustiça?

A discussão tem-se arrastado ao longo de décadas. Os gregos querem que o Reino Unido lhes devolva as esculturas do friso do Partenon, entre outras que foram retiradas do país e se encontram hoje no Museu Britânico. Para aumentar a pressão, no ultramoderno Museu da Acrópole, em Atenas, há um espaço destinado a receber as famosas esculturas – por enquanto, é ocupado por réplicas de gesso. Naturalmente, o museu londrino e as autoridades britânicas nem querem ouvir falar nisso. Mas a questão acaba de ter um novo desenvolvimento: ontem foi noticiado que os 27 Estados-membros da União Europeia vão mesmo exigir a devolução das obras.

Segundo um rascunho que foi passado aos jornalistas, uma das cláusulas do futuro acordo comercial entre a UE e o Reino Unido prevê a “devolução de objetos culturais ilegalmente retirados aos seus países de origem”. Caberão as esculturas do Partenon nesta definição? As pedras foram levadas de Atenas para Londres entre 1801 e 1812, a mando de Thomas Bruce, hoje mais conhecido por Lorde Elgin, que entre 1799 e 1803 exerceu o cargo de ministro plenipotenciário junto do sultão otomano (império do qual a Grécia então fazia parte).

O navio que transportava as obras naufragou, mas ao fim de três anos e de muito dinheiro e esforço despendidos, mergulhadores contratados pelo diplomata conseguiram resgatá-las. Segundo uma testemunha, quando foram retiradas da Acrópole, as esculturas estariam em risco de serem usadas como material de construção e de se perderem irremediavelmente. Outra testemunha – um viajante inglês – disse que um responsável otomano foi subornado para permitir a sua retirada. Lorde Elgin alegava ter obtido uma autorização do sultão otomano para levar as pedras, mas a verdade é que o documento nunca foi encontrado. Hoje, quem estuda o assunto de forma imparcial tende a dar razão aos gregos – e talvez de facto os mármores devam ser devolvidos.

Mas o timing da União Europeia revela uma hipocrisia tremenda. Se os Estados-membros acham tão imperiosa a devolução, porque não a exigiram há mais tempo? Como puderam durante tantos anos pactuar com aquilo que, de um momento para o outro, passaram a considerar uma injustiça? Se antes os ingleses podiam ter vergonha pela forma como ficaram com as pedras, agora a Europa revela falta dela pela forma como as exige de volta.

Entretanto, o Governo grego emitiu um comunicado a esclarecer que a exigência nada tem que ver com o Brexit. Claro que não. Deve ter sido só coincidência.

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