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Uma história de amizade com a marca dos milhões e da polémica

Uma história de amizade com a marca dos milhões e da polémica

José Sérgio João Amaral Santos 19/02/2020 20:42

A marca de Portugal na Venezuela é profunda e quotidiana. À vasta comunidade juntam-se as parcerias somadas ao longo dos anos.

A lua-de-mel comercial entre Portugal e Venezuela pode ter abrandado nos últimos anos, mas os números de 2019 refletiam uma recuperação desta antiga relação bilateral. O cenário volta agora a sofrer um retrocesso, depois da decisão de Caracas de suspender os voos da TAP.

Cada vez mais distante vai a memória dos tempos em que Hugo Chávez e José Sócrates trocavam rasgados elogios de admiração mútua, ao mesmo tempo que selavam negócios que prometiam revolucionar a nova sociedade bolivariana – projetos provenientes de Portugal que acabariam por cair, num denso manto de dúvidas e investigados pela justiça.

Estávamos em 2008 quando o plano de cooperação estratégica entre Portugal e Venezuela acelerava rumo ao futuro. Naquela época, várias entidades atravessaram o Atlântico para firmarem acordos milionários.

A habitação social era um desses exemplos. O Governo venezuelano lançou a construção de 50 mil apartamentos sociais, por um valor de 838 milhões de euros. O Grupo Lena conquistou a preferência, sem concurso público internacional, alegadamente por influência de Sócrates. O empreendimento culminou com a construção de 12 512 habitações assinadas pelo Grupo Lena.

Por essa altura surgia o produto made in Portugal mais bem-sucedido por terras venezuelanas: o computador Magalhães. Em 2009, Chávez anunciou a aquisição de um milhão destes equipamentos. Entretanto, o nome local mudou para Canaima, mas o computador português continuou a multiplicar-se como uma ferramenta de trabalho indispensável nas escolas do país. Atualmente são mais de cinco milhões.

A última grande polémica – antes da atual – sucedeu em 2017, já com Maduro no poder. O novo líder da Venezuela acusou o Governo português de boicotar o Natal dos “seus”, travando a exportação de pernil de porco, o elemento fundamental nas mesas da ceia de Natal das famílias do país, por alegadas dívidas de 40 milhões. “O que se passou com o pernil?”, gritava a Lisboa, furioso, Maduro pelas televisões. Mas nem sequer a popular iguaria escapou às redes da polémica... e da justiça. Entre 2013 e 2016, a portuguesa Iguarivarius tornou-se um fornecedor privilegiado, com contratos de 60 milhões. A empresa havia sido presidida pelo então ministro das Obras Públicas de Sócrates, Mário Lino, que acabou por sair da administração em 2018. A empresa está a ser investigada por fraude fiscal e branqueamento de capitais, por alegadamente ter lesado o Estado em sete milhões de euros.

Subida em dois sentidos O Instituto Nacional de Estatística (INE) indica que as exportações portuguesas para a Venezuela cresceram 71% em 2019, para os 7,2 milhões de euros (4,2 milhões de euros no ano anterior) – distantes, ainda assim, dos 207 milhões registados em 2014.

Em sentido contrário, Portugal continua a importar em quantidades mais significativas, comprando no último ano à Venezuela produtos no valor de 26 milhões de euros, o que representa um crescimento na ordem dos 127% (em comparação com os 11,6 milhões de euros de 2018). O segmento dos metais comuns – concretamente construções e partes de ferro fundido e ferro/aço – continua a representar largamente a maior parte do investimento português feito no país. Feitas as contas, são 25 milhões de euros ou 97% do total, segundo o INE.

 

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