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"Sua Excelência, de Corpo Presente" vence o prémio Correntes d’Escritas

"Sua Excelência, de Corpo Presente" vence o prémio Correntes d’Escritas

Diogo Vaz Pinto 19/02/2020 19:45

Com um romance que se desfralda numa agreste sátira à elite angolana, Pepetela vence o Prémio Literário do Correntes d'Escritas 2020, com o júri a destacar "a dimensão antecipativa" desta ficção.

Por uma vez, nisto de dar eco e fazer o comboio com o resto da turma ao noticiar a atribuição de um prémio, o título da obra faz muito jeito, e rompe o laconismo da coisa, para dar aquela nota de chiste que a ocasião exige. Sua Excelência, de Corpo Presente venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa do Correntes d’Escritas 2020. O romance mais recente de Pepetela (n. Benguela, 1941) foi escolhido por unanimidade (!) de entre 120 livros a concurso pelo júri composto por Ana Daniela Soares, Carlos Quiroga, Isabel Pires de Lima, Paula Mendes Coelho e Valter Hugo Mãe. A par da obra do escritor angolano, a lista de finalistas nomeados pelo júri integrava 15 títulos, entre eles: A Transparência do Tempo de Leonardo Padura, Bilac vê estrelas de Ruy Castro, Ecologia de Joana Bértholo, Fabián e o Caos de Pedro Juan Gutiérrez, Memórias Secretas de Mário Cláudio, O Invisível de Rui Lage, O Nervo Ótico de Maria Gaínza e Pátria de Fernando Aramburu. Face a uma lista com estes títulos, é uma pena que os membros do júri tenham saído todos vivos das reuniões, pois seria justo que qualquer decisão, além de controvertida, só pudesse ser negociada como umas tréguas no final de uma autêntica guerra civil.

Sem bandeira branca nem nada, o anúncio foi feito esta manhã, na cerimónia que marca o arranque do festival da Póvoa de Varzim que nos habituou já ao seu lote invariável de dezenas de escritores de expressão ibérica que ali se congregam anualmente para uma espécie de retrato de família com um dilatado tempo de exposição e que nos dá uma impressão bastante frouxa do nosso meio literato. De acordo com o júri, a atribuição do prémio a Pepetela deveu-se à “originalidade do estratagema narrativo eficaz para denunciar com ironia uma história de nepotismo e abuso de poder próprios de sistemas totalitários”. Num momento em que um raio-X das décadas de roubalheira da elite angolana vem sendo exibido nos noticiários e banha qualquer sátira naquela glória do eu-bem-vos-disse, o júri do prémio fez questão de se mostrar “sensível à dimensão antecipativa da ficção do autor, que estabelece fortes pontos de contacto com a realidade actual”.

O protagonista e narrador de Sua Excelência, de Corpo Presente é um morto, mas um desses com direito a palrar pela eternidade fora, ajustando contas com meio mundo. Depois de se finar, o ditador de um país africano não nomeado começa a exalar aquele vingativo perfume de uma carcaça que viu muito, sabe bem como o poder absoluto é um crime que não se aguenta sem muitíssimos cúmplices. Assim, o morto torna-se a mais penetrante testemunha dessas formas de decomposição, e é-lhe concedido o dúbio privilégio de assistir a partir do caixão onde jaz, num salão cheio de flores do palácio presidencial, ao trabalho dos vermes que sempre o rodearam, e que agora se preparam para atacar o vazio de poder.

O romance vive, assim, de conjecturas que se desenham numa folha de papel vegetal assente sobre a realidade angolana. Este defunto consciente e estrondosamente cínico, assiste ao desenrolar do obsceno jogo de indignidades que antes dominava, oferecendo-nos uma justificação alternativa para a famosa tradição das antigas dinastinas faraónicas de o rei ser sepultado não apenas com muitas das suas posses, mas ainda com familiares próximos e até serviçais, que eram sacrificados de modo a continuarem a servi-lo no outro mundo. Conta-se que o faraó Djer, por exemplo, foi mumificado e enterrado no Vale dos Reis arrastando consigo 318 pessoas.

Perante as honras que lhe são feitas, perante o cortejo onde se misturam tanto aqueles que lhe foram próximos como os populares, o ditador não se mostra comovido e não poupa ninguém, denunciando-os como “um bando de chupistas”... “entre os presentes, quem não mete bens do Estado no bolso? Só as crianças, inocentes. Por enquanto. Basta crescerem um pouco…” Trata-se de um exercício impiedoso da parte de Pepetela, uma consciência que faz do desespero o seu destino mais que certo, pois também o autor sabe que “todos perdem quando querem dar lições de integridade”. Dificilmente, alguém se salva hoje no meio desta suspeitosa barafunda, quando mesmo a denúncia acaba acolhida de forma tonta e inconsequente, desde logo por prémios literários de festivais onde a literatura funciona como outra desculpa para os passatempos de vaidade e inanição, para se encher o calendário com excursões e patuscadas. Afinal, seria interessante indagar se “um país de recorrentes guerras civis, vampirizado pelo nepotismo de uma elite político-militar predatória, corrupta até à náusea e ostensivamente incompetente e prepotente” – isto na excelente caracterização feita por Mário Santos ao recensear este livro de Pepetela – não serve tantas vezes como um reflexo grotesco e, ao mesmo tempo, um álibi, um modo de se isentar ao exercício de auto-crítica que se espera do campo cultural, reconhecendo como mesmo nós, à nossa escala, somos cúmplices destes abusos. No ambiente de estufa dos festivais literários, que outra coisa se celebra senão a superioridade moral de leitores imensamente convencidos da sua integridade?

Pepetela não irá comparecer à cerimónia de entrega do prémio, que tem um valor pecuniário de 20 mil euros. Tendo sido operado recentemente, o escritor de 78 anos disse que não poderá estar presente na sessão de encerramento do festival, no próximo sábado. Esclarecendo que se tratou de um intervenção “sem grande gravidade, mas necessária”, garantiu que o impedia de viajar ou fazer qualquer esforço físico adicional.

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