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O Stand. Um stand é um stand a não ser quando...

O Stand. Um stand é um stand a não ser quando...

Mafalda Gomes Cláudia Sobral 18/02/2020 22:05

Sara Mealha e Inês Brites inauguraram a primeira das obras que ao longo do ano vão tomar conta do Siampauto, o stand de automóveis de Lisboa que a cada mês receberá dois novos artistas. Mas só ao fim de semana. Que O Stand não deixa de ser um stand.

Da paisagem da General Roçadas, em Lisboa, faz há muito parte aquele néon verde anunciando um stand de automóveis. Há quase 50 anos que ali funciona o Siampauto. Primeiro especializado em Mercedes, com o tempo alargado a outras marcas, sempre na mesma gama. E sempre com aquele néon. Quem fizer vida na rua poderá até saber: durante mais de 45 anos, o Siampauto pertenceu a um mesmo dono, “o senhor Farinha, um ótimo dono, e amigo” do pai de Diogo Brito (e a quem já vamos), que há um par de anos tomou conta dele.

E eis que estamos aqui: numa noite de inauguração de exposição no lugar para uma inauguração mais fácil de encontrar (quantas são as galerias a fazer-se anunciar por um enorme néon verde?) que, tendo paredes brancas, de white cube não terá mais nada. Ao fundo, uma carrinha (Mercedes, claro) intervencionada pelas artistas Sara Mealha e Inês Brites naquela que foi a sua primeira colaboração artística. Uma carrinha feita obra de arte – ou veículo para o que na folha de sala a curadora Filipa Nunes chamou S <3 I, e que vai assim: “In the muy frías noches of the vale do tejo desert já não existiam possibilities of finding un hueco seguro. People went up north and left us with nada más que sus vasuritas, sus tesoros, sus mercancías”.

Depois uma feira, recuerdos de quando se comia churros com chocolate a olhar um pôr-do-sol... “Since they have cut the energy distribution e are going led until the fim do rolo que temos. A minha luz é de led. There is no way of taking anything away from here. Fazer isto desaparecer é como sonhar que se tem de esconder um corpo cuja morte foi decidida por outrem – é impossível. Loving our things until the end will probably be the most revolutionary cosa a hacer”.

A espreitar de um varandim, na mezzanine que contorna a ampla sala, um Lotus vermelho que não se entende como terá chegado àquele lugar – pelo menos, até que se dê com a plataforma elevatória que se tem debaixo dos pés. Para lá da obra de Sara Mealha e Inês Brites, mais Audis, Mercedes – antes da hora marcada para a inauguração do primeiro fim de semana do ciclo curatorial que se estenderá até julho, sempre com uma nova dupla de artistas, que Diogo Brito, Filipa Nunes e Marina Rei batizaram de O Stand, à saída do Siampauto via-se ainda um BMW retirado para abrir espaço para os visitantes.

Até Diogo, Filipa e Marina chegarem aqui foram dois passos pelos quais os pais de Diogo, que gerem o stand, quase nem deram. Primeiro, foi o pedido natural de Diogo para num espaçosos gabinetes de escritório do espaço instalar o seu ateliê. “É naquele escritório ali”, aponta em direção à mezzanine. “Ali é o escritório dos meus pais, que estão os dois a trabalhar aqui. E eu também, sou o gerente da empresa, por assim dizer”, sorri. “Mas é aqui que faço o meu trabalho artístico e de design gráfico. A verdade é que arranjar um espaço em Lisboa é supercomplicado, poder ter um ateliê dentro do espaço do stand de automóveis dos meus pais foi uma oportunidade incrível”.

Os problemas do mercado imobiliário em Lisboa são também o que dificulta o aparecimento de projetos curatoriais independentes como este. Daí que, uma vez instalado, a Diogo tenha parecido natural que o Siampauto pudesse servir para bem mais do que acolher o seu ateliê. “Comecei a pensar que adorava criar qualquer coisa aqui, dar uma outra imagem a este stand de automóveis, fora da hora laboral”. E explica ainda Filipa Nunes, responsável pela curadoria do projeto: “Estávamos com muita vontade de começar a fazer coisas. Sentimos que no meio artístico de Lisboa faltam mais projetos independentes, menos agarrados a instituições e a espaços brancos e convencionais. E falámos um dia e decidimos começar a pensar num ciclo curatorial”.

Até julho, durante um fim de semana por mês, O Stand dará espaço a dois jovens artistas que não trabalhem habitualmente em dupla. “Interessa-nos que haja sempre um processo de negociação”, explica Filipa. “O trabalho das artes plásticas é sempre muito individual e, nos tempos que correm, cada vez precisamos mais destes momentos em que vemos as coisas de uma forma mais coletiva, ou não tão umbilical, e nos propomos falar sobre as coisas e debatê-las. Há artistas que já fazem parte do panorama artístico de Lisboa, artistas com galeria, há outros que, pelo contrário, se calhar há algum tempo que não expõem. São pessoas, todas estas pessoas, com quem temos vontade de trabalhar há muito tempo e a ideia é mostrar, mesmo que haja algumas diferenças de idades, um conjunto de nomes de uma geração que muitas vezes não encontra um espaço assim tão facilmente na cidade para mostrar o que está a fazer, desprovido do peso de uma instituição. A ideia é voltarmos um bocadinho ao porque é que começámos a fazer isto”.

Passando hoje pela Av. General Roçadas, o Siampauto terá já voltado à vida normal. Do que por aqui se moveu no fim de semana passado ou da obra de Sara e Inês haverá apenas vestígios, e se houver. Agora, só esperando pelo dia 20 de março, às 19h, o dia da inauguração do que vier a ser a colaboração em que Henrique Pavão e Horácio Frutuoso, o segundo par de artistas convidados, estão já a trabalhar. É esperar por dia 20 então. E procurar pelo néon verde e os coletes amarelos que envergam tanto staff como artistas. Afinal, estamos num stand.

 

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