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"Os patrocinadores podem deixar de investir milhares de milhões"

"Os patrocinadores podem deixar de investir milhares de milhões"

AFP João Amaral Santos 18/02/2020 14:25

O episódio Marega junta-se a outros escândalos do futebol português e os patrocinadores podem deixar de apostar na modalidade.

O fenómeno nem sequer é recente, mas a decisão irreversível de Marega em abandonar o relvado em Guimarães deu-lhe maior visibilidade, aquém e além fronteiras, fundando na cidade-berço um novo debate em torno do racismo no futebol (e na sociedade) em Portugal.

É fácil recordar quando, há anos, era comum serem emitidos em uníssono e repetitivamente das bancadas os sons que reproduzem a fala dos símios. Lá em baixo, o jogador de futebol, alvo da turba, era apoucado e desestabilizado, sem que nada pudesse objetar. A bola continuava a rolar e ao soar do apito final as cadeiras esvaziavam-se sem remorso ou castigo. O hábito servia para todos, de cima a baixo, sem quaisquer consequências. Daniel Sá, diretor executivo do Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM) e especialista em marketing desportivo, recorda que “os limites da sociedade portuguesa mudaram nos últimos anos, e não apenas no futebol. Sem querer desvalorizar a questão, há dez ou quinze anos estes casos não tinham o impacto que hoje têm”.

Com a evolução dos tempos, a máscara da ingenuidade (e da inconsciência) caiu e nos regulamentos foram sendo introduzidas normas que o jogo há muito carecia. Para os especialistas, porém, tal não é ainda suficientemente dissuasor para erradicar o problema do racismo no futebol. “A legislação do futebol em Portugal não acompanhou as alterações que se verificaram na sociedade. Acho evidente que com os atuais regulamentos nada se vai alterar”, diz Daniel Sá.

Essa ideia, aliás, sai reforçada após o caso que envolveu Marega, tal como já havia acontecido no processo que levou à primeira condenação por racismo de um clube português – em 2017, o Rio Ave foi punido pelos cânticos racistas dos seus adeptos dirigidos a Renato Sanches, à época jogador do Benfica, aquando de um jogo para o campeonato disputado um ano antes. Na altura, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol condenou o Rio Ave ao pagamento de 536 euros de multa, um valor pecuniário reduzido e sem qualquer pena acessória, pois o clube de Vila do Conde terá confessado “integralmente e sem reservas todos os factos” que lhe eram imputados.

Mas, afinal, o que dizem os tais regulamentos? As regras da UEFA e da FIFA “obrigam” o árbitro a interromper o jogo assim que se aperceba, ou seja informado, de comportamentos racistas oriundos da bancada. De seguida, deverá solicitar que seja feito um anúncio pela instalação sonora pedindo aos espectadores para pararem imediatamente com tais comportamentos, mas se tal não acontecer, após o reinício do jogo, o árbitro suspenderá o encontro por um período razoável de tempo e pedirá às equipas para regressarem aos balneários. Será feito um novo anúncio pela instalação sonora do estádio e, como último recurso, se a situação persistir, o árbitro poderá dar definitivamente o jogo por terminado. Em Guimarães, Luís Godinho ignorou esta recomendação, o que motivou fortes críticas do próprio Marega.

Já o artigo 113.º dos Regulamentos da Liga, relativo a comportamentos discriminatórios em função da raça, religião ou ideologia, diz que “os clubes que promovam, consintam ou tolerem a exibição de faixas, o cântico de slogans racistas ou, em geral, com quaisquer comportamentos que atentem contra a dignidade humana em função da raça, língua, religião ou origem étnica” serão punidos com a sanção de um a três jogos à porta fechada e uma multa entre os 200 e os mil euros. Ao que tudo indica, o castigo ao Vitória de Guimarães será aqui enquadrado. Daniel Sá admite que as sanções “são insuficientes”, mas acredita que este episódio “possa ser exemplar para que se repensem soluções no futuro”. Todavia, ninguém tem dúvidas que este processo “vai ter decisões rápidas e diretas”. “A UEFA e a FIFA têm tido mão muito pesada nestas questões e o mediatismo internacional deste caso vai, certamente, levar a que as entidades competentes portuguesas atuem” com eficiência, refere o especialista.

 

Futebol português “está em risco”

Na sequência deste caso, Daniel Sá alerta “para os danos evidentes para o futebol português”. O especialista afirma que o problema “não se resume apenas a este episódio, mas a todos os casos somados ao longo dos últimos anos – como o terrorismo em Alcochete, os emails, as toupeiras, os bonecos enforcados à porta de um estádio e agora o racismo – e que apenas têm servido para afastar os patrocinadores e os espectadores. Estamos a falar das entidades que pagam o futebol e acho que estamos a correr um risco, que não está a ser levado devidamente a sério”.

Daniel Sá acredita que “os patrocinadores podem mesmo deixar de querer ver as suas marcas associadas a este fenómeno, deixando de investir no futebol português centenas de milhões de euros, o que levaria a que a modalidade caísse do pedestal em que se encontra”.

Para Daniel Sá, existem responsáveis pelo momento por que passa a modalidade. “Tendo em conta o peso de Benfica, FC Porto e Sporting, não tenho dúvidas em afirmar que este três clubes, cada um à sua maneira, têm enormes responsabilidades no atual estado do futebol português”. “Têm vindo a apresentar o pior exemplo possível, com estratégias de comunicação que, semana após semana, contribuem para enfatizar e agudizar os problemas”. “Acho que não compreendem o mal que estão a fazer ao desporto e ao futebol em Portugal”, acrescenta.

Como solução, considera que “é fundamental que os agentes do futebol português percebam a necessidade de mudar de paradigma, ou a indústria corre o sério risco de ser totalmente destruída”. “Os grandes clubes têm, de uma vez por todas, de assumirem responsabilidades. Aprenderem a ser parceiros e a trabalhar em conjunto”, sublinha.

“Vergonha em Portugal: Marega deixa o campo depois de sofrer insultos racistas”

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