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Serguei Eisenstein. Como me tornei realizador

Serguei Eisenstein. Como me tornei realizador

Jornal i 17/02/2020 13:14

Pré-publicação de um excerto de Reflexões de Um Cineasta, de Serguei Eisenstein, obra que na sua publicação original foi apreendida pela PIDE, e que volta a ser editado este mês, com selo da BookBuilders, e com tradução (do francês) e um estudo introdutório de José Fonseca e Costa

 

O que vou contar passou-se há muito tempo.

Há trinta anos.

Embora me lembre como se tivesse sido ontem.

Quero dizer: a história do meu primeiro contacto com a arte.

Duas impressões directas, dois acontecimentos fulminantes decidiram o meu destino a este respeito. Em primeiro lugar, Turandot, na encenação de Komisarjevski (digressão do teatro Nezlobine de Riga em 1913).

O teatro tornar-se-ia para mim, daí em diante, objecto de cuidados privilegiados e de furiosos arrebatamentos.

Nesta época, ainda sem qualquer projecto de me ligar ao teatro, preparava-me honestamente para seguir o caminho paterno – a carreira de engenheiro civil – a ela me consagrando desde

os meus verdes anos.

O segundo golpe, este já esmagador, definitivo, que cristalizava a determinação implícita de abandonar a construção para me dedicar à arte, foi vibrado pela representação de Mascarade,

no antigo Teatro Alexandrinsky.

Agradeci mais tarde ao destino ter-me infligido tal choque num momento em que havia já concluído os meus exames de matemática, que incluíam o cálculo integral e diferencial, dos quais, aliás, no momento presente (acontece o mesmo com as outras disciplinas) nada consigo lembrar.

Todavia, foi no estudo desta cadeira que se formou o meu amor pela exactidão matemática e pela clareza.

Caído da Escola de Engenharia Civil no turbilhão da Guerra Civil, bem depressa queimei os castelos do passado.

Não foi para a escola que voltei: cabeça baixa, acometi impetuosamente o teatro.

O primeiro teatro operário do «Proletkult». A princípio como decorador.

Depois como encenador.

E, com a continuação, sempre integrado na mesma «troupe» e, pela primeira vez na vida, como realizador de cinema.

Mas ainda não disse o essencial.

O essencial é que a minha atracção pela misteriosa carreira a que se chama arte era invencível, voraz, insaciável. Nenhum sacrifício me fazia medo.

Para vir até Moscovo, inscrevi-me na secção de línguas orientais agregada à Academia do Estado-Maior. Domino, graças a isto, um milhar de palavras japonesas e tenho ao meu alcance

várias centenas de estranhos hieróglifos.

A Academia não significa apenas Moscovo, mas a possibilidade de conhecer o Oriente, de mergulhar na fonte original da «magia» da arte, para mim indissoluvelmente ligada ao Japão e à China.

Quantas noites de insónia passadas a estudar afincadamente as palavras de uma língua desconhecida, que em nada se prende com as línguas familiares da Europa!…

Quantos artifícios subtis chamados em auxílio da memória!…

Senaka: as costas.

Como lembrar-me disto?

Ah! Sim: Senaka – Séneca.

Verifico, no dia seguinte, as virtudes da habilidade. Tapando com a mão a coluna das palavras japonesas, releio o meu caderno.

As costas?

As costas??

As costas???

Eschine, com certeza!!!

E assim por diante…

Uma língua diabolicamente incómoda.

Ademais, por falta de pontos de referência fonética com as línguas que conhecemos. E, sobretudo, porque o tipo de pensamento que preside à construção da frase difere totalmente do que nos é habitual nas línguas europeias.

O mais difícil não é lembrarmo-nos das palavras. Mas atingir aquele processo de pensamento, para nós extraordinário, pelo qual se regulam a elegância do discurso, a estrutura das orações, o agrupamento das palavras, a sua representação gráfica.

Mais tarde, voltei a ficar agradecido ao destino pelo facto de me haver feito tomar contacto, a custo de tantas experiências, com os modos de pensamento e de escrita das veneráveis línguas de Leste. Porque foi, sem dúvida, o que de extraordinário existe neste modo de pensamento que me ajudou, anos depois, a apreender a natureza da montagem. E a percepção de que se tratava da trajectória normal de uma lógica afectiva interna, diferente daquilo a que chamamos lógica, ajudou-me a orientar pelas mais secretas veredas do método da minha arte. Voltarei a este assunto.

O meu primeiro arrebatamento tinha-se transformado no primeiro amor.

Um amor carregado de nuvens escuras, não só furioso como também trágico.

Sempre me encantou a imagem de Isaac Newton a meditar sobre a queda de uma maçã para extrair deste facto todo um mundo de deduções, de conclusões e de leis; encantou-me a tal ponto, que presenteei o próprio Alexandre Nevski com uma «maçã» semelhante, obrigando este herói do passado a tirar de um conto infantil a ideia para a manobra dos seus exércitos na Batalha de Peipus – a história da doninha que no filme lhe é contada pelo alfageme Inácio.

Uma maçã deste género prestou-me serviço assaz nocivo nos alvores da minha carreira.

Nesse tempo, a maçã era a face redonda e rosada de um garoto de sete anos, filho de uma arrumadeira do Primeiro Teatro Operário do «Proletkult».

O rapazola tinha por hábito vir ao salão em que se faziam os ensaios e, durante uma sessão de trabalho, o seu rosto, entrevisto num relance, impressionou-me: reflectia como um espelho tudo o que se passava no palco.

Não só a mímica ou as acções de cada personagem, mas todo o conjunto ao mesmo tempo.

Foi sobretudo esta simultaneidade que me surpreendeu. Já não me lembro se uma tal mímica imitativa do espectáculo era também extensiva aos objectos inanimados, como acentua Tolstoi a propósito daquele seu criado que, sempre que o amo lhe contava uma história, conseguia, apenas pela expressão do rosto, dar vida às próprias coisas.

Em todo o caso, comecei a meditar maduramente, não na reprodução feita pelo miúdo daquilo que tinha visto, mas sobre a natureza do fenómeno.

Corria o ano de 1920.

Os eléctricos não funcionavam.

Era preciso uma boa caminhada desde o tablado do ilustre teatro, situado nesse Karetny Riad que viu nascer tantas ideias cénicas maravilhosas até ao quarto glacial que habitava no Tchistyie Prudy.

Não se pode dizer que fosse um pequeno estimulante para a meditação das observações fugidias registadas pela minha memória.

Conhecia a famosa fórmula de William James: não choramos porque estamos tristes – estamos tristes porque choramos.

Sempre me encantou a elegância do paradoxo, assim como o facto de ser possível fazer nascer, a partir da reprodução correcta de uma expressão, a emoção correspondente.

Mas, se as coisas se passam assim, ao mimar o comportamento exterior das personagens estaria o garoto a reviver o que os artistas sentem no palco, ou, pelo menos, aquilo que tentam transmitir?

O espectador adulto mima os actores com muito maior circunspecção. Mas, por este mesmo motivo, deve colocar-se muito mais intensamente de maneira fictícia – isto é, sem exteriorização material e sem acção física real – em perfeito acordo com a magnífica gama de grandeza e de heroísmo que o drama lhe fornece; ou então, dar livre curso, de maneira fictícia, às baixas inclinações, a traiçoeiros impulsos da sua natureza de espectador, e, aqui ainda, não sob a forma de actos, mas pelo jogo dos sentimentos reais que acompanham a sua cumplicidade fictícia com os horrores que se cometem no palco.

Era este elemento de «disfarce» que ocupava a minha reflexão.

Graças ao fenómeno da simpatia, a arte (aqui o caso particular do teatro) permitia então ao homem levar a cabo, de maneira fictícia, acções heróicas, atravessar, de maneira fictícia, as mais sublimes crises de consciência, ser, de maneira fictícia, generoso para com Karl Moor, já que a comunhão com esta personagem o liberta do fardo dos seus baixos instintos, tornar- se sábio com Fausto; místico com a virgem de Orleães; apaixonado, com Romeu; patriota com o conde de Rizoor; escapar a todos os problemas interiores pela interferência amável de Kareno, de Brand, de Rosmer ou até de Hamlet, príncipe da Dinamarca!

Pior ainda! Este comportamento dissimulado proporciona ao espectador um prazer perfeitamente autêntico.

 

Título: Reflexões de Um Cineasta
Autor: Serguei Eisenstein
Introdução e tradução (a partir da edição francesa) de José Fonseca e Costa
c. 320 pp. / Pvp: 16,90 €
Inclui um extratexto com imagens
Colecção Imagética
Editora BookBuilders
www.bookbuilders.net
Data de publicação: 24 de Fevereiro de 2020

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