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Os gigantes dos oceanos que a população vê como inimigos

Os gigantes dos oceanos que a população vê como inimigos

João Amaral Santos 16/02/2020 12:27

As reclamações são muitas, sobretudo quanto a ecossistemas frágeis. Veneza é caso mais mediático.

As polémicas envolvendo navios de cruzeiro surgem recorrentemente. Movimentos de cidadãos e ambientalistas têm chamado a atenção para as consequências para o ambiente que andam lado a lado com as toneladas que compõem cada uma destas cidades flutuantes. A presença destes gigantes dos oceanos junto de muitas cidades é mesmo preocupante, afirmam.

O debate sobe de tom sempre que esta rentável atividade cruza alguns mares e coloca em risco ecossistemas específicos. E isso acontece nas águas mais delicadas da Europa, onde cidades como Barcelona, Palma de Maiorca, Veneza ou Lisboa, entre outras, sofrem os impactos negativos destas rotas de lazer.

É exatamente neste continente que mais se tem debatido o assunto – sobretudo quando está em causa a rota do Mediterrâneo, que irrompe pela bacia do Adriático e para num ponto de destaque: Veneza, em Itália.

É em torno desta cidade que a polémica mais tem grassado. Em terra, o número de turistas continua a aumentar sem cessar, levando grupos de cidadãos a manifestarem-se contra o que dizem ser uma “invasão” destruidora. Das autoridades, exigem medidas concretas. 

É que pelo mar continuam a chegar os indiscretos navios de cruzeiro, de postura arrogante, entupindo os portos e somando perto de mais três mil pessoas cada, entre passageiros e tripulação, às já sobrelotadas praças e ruas da cidade.

Reclamações atendidas

Veneza vive, desde sempre, numa relação de amor-ódio com as suas águas, que simultaneamente compõem e destroem o mesmo corpo. A cidade vai-se afundando sob o peso da admiração que o mundo lhe devota. E os navios de cruzeiro assumem-se como inimigo número um aos olhos dos residentes. 

Em 2019 caiu a gota de água, com dois acidentes envolvendo embarcações junto ao terminal de cruzeiros, no canal Giudecca. O primeiro aconteceu em junho, provocando cinco feridos, e o segundo em julho, causando quatro vítimas (todas com ferimentos ligeiros). Nestes episódios, os navios de cruzeiro perderam o controlo, acabando por embater contra o cais da cidade italiana e abalroando outros barcos de turismo de menor dimensão. 

As consequências dos incidentes foram, em parte, mitigadas pelas companhias envolvidas, mas levaram o Governo italiano a proibir, logo em setembro, que os navios de cruzeiro com mais de mil toneladas atracassem no centro histórico de Veneza. O Executivo assumiu ainda o compromisso de desviar da rota da cidade cerca de um terço do tráfego atual até ao final de 2020. O esforço visa essencialmente controlar o número de turistas que permanecem, em simultâneo, na cidade e reduzir os problemas de erosão nas edificações e a poluição nos canais. 

Alguns especialistas consideram que os navios de cruzeiro são um risco para a lagoa por provocarem ondas que corroem as fundações da cidade. O objetivo é empurrar os navios para os terminais de Fusina e Lombardia, localizados no lado oposto das ilhas centrais. 

Outro exemplo de indignação veio de Barcelona, também no verão passado, quando a presidente da câmara municipal, Ada Colau, prometeu restringir o número de navios de cruzeiro autorizados a atracar no porto da cidade. “Não temos capacidade infinita”, justificou Colau. 

Estas restrições têm como meta reduzir, no imediato, a poluição na cidade, onde a qualidade do ar excede regularmente os limites definidos pela Organização Mundial da Saúde para o dióxido de azoto e partículas PM10. As restrições vão ainda ajudar a controlar e reduzir o número de turistas que visitam a cidade, considerado excessivo. 

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