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Cruzeiros. Um luxo que é pouco amigo do ambiente

Cruzeiros. Um luxo que é pouco amigo do ambiente

Daniela Soares Ferreira 16/02/2020 12:19

A poluição emitida pelos navios de cruzeiro continua a crescer e a ser uma dor de cabeça. Zero e Quercus defendem medidas mais apertadas no controlo desta poluição. Lisboa é uma das cidades europeias mais poluídas por este tipo de embarcação.

A poluição do ar tem sido um dos assuntos da atualidade e Bruxelas avisou Portugal esta semana que tem dois meses para aplicar efetivamente a legislação europeia relativamente à qualidade do ar. Caso contrário, a Comissão Europeia vai recorrer ao Tribunal de Justiça da União Europeia. A verdade é que, apesar das restrições cada vez maiores à circulação de carros, principalmente no centro de Lisboa, os cruzeiros continuam a chegar em força – sendo uma das maiores fontes de poluição, como já foi assegurado pela Federação Europeia de Transporte e Ambiente, que explicou que este tipo de embarcações polui 10 vezes mais do que todos os 260 milhões de automóveis da Europa. Nessa lista, Lisboa é uma das cidades europeias que mais sofre com a poluição dos navios de cruzeiro.

Em 2017, o porto de Lisboa foi o que registou o maior tráfego de navios (115), seguido do de Barcelona e do Palma de Maiorca. E os valores são claros: “No que respeita aos óxidos de enxofre, os navios de cruzeiro emitiram 3,5 vezes mais que os automóveis que circulam na cidade, mas as concentrações de dióxido de enxofre resultantes são, porém, diminutas e este é um poluente que não levanta problemas na cidade e na região”, alerta a Zero com base nestes dados. Mas o mesmo não se pode dizer em relação aos óxidos de azoto: “Os navios de cruzeiro em Lisboa emitiram quase o equivalente a um quinto dos 374 mil veículos de passageiros que circulam na cidade”. 

Ao i, o presidente da Zero explicou que “o maior problema associado aos navios de cruzeiro e principalmente ao tráfego aéreo são as partículas ultrafinas”. Partículas essas que, segundo explica Francisco Ferreira, “são particularmente graves em termos de impacte na saúde, dada a sua pequeníssima dimensão – que leva a que os compostos que transportam entrem muito facilmente no organismo através do sistema respiratório”.

O responsável não tem dúvidas de que um dos principais problemas da poluição associada aos navios de cruzeiro é que a mesma não tem sido devidamente estudada e avaliada, não se sabendo, nesse sentido, que impactos está a ter ao certo.

Já Pedro Santos, da Quercus, explica que o aumento das emissões associadas aos cruzeiros está relacionada com dois fatores principais: “Desde logo o grande aumento do tráfego de cruzeiros que se verificou nos últimos anos. Adicionalmente, o facto de os limites de emissões para os navios serem muito alargados torna urgente a sua revisão para limites mais apertados”. O responsável garante ainda que os dois aspetos conjugados provocaram um aumento recorde da poluição proveniente dos navios de cruzeiro. E não tem dúvidas quando afirma que “é urgente a revisão dos limites de emissão para este tipo de transportes”. Acrescentou ainda que o enquadramento legal atual é extremamente permissivo, quer nos níveis de emissão quer no que diz respeito à imposição de uma transição energética nos cruzeiros e navios, pelo que “é imperioso que o transporte marítimo não se estabeleça como um reduto intocável no que diz respeito à transição energética para fontes de energia renováveis, onde, os ganhos de escala deste transporte fazem das células de hidrogénio e/ou células de amónia fontes de energia de excelência”.

A Quercus considera, portanto, que é necessário e importante que se desenvolva ação em dois campos distintos. Além da implementação de novos e mais apertados limites no que diz respeito aos níveis de emissões permitidos atualmente, será importante ainda a efetivação de metodologias de fiscalização dos combustíveis utilizados aquando a aproximação aos portos. “Este tipo de meio de transporte, regra geral, tem a capacidade de mudar de combustível aquando o movimento de aproximação a um porto, ou seja, pode mudar para um combustível menos poluente do que o utilizado na navegação em mar aberto”, explica Pedro Santos. Ainda assim, há um problema: “Acontece que não existe forma de comprovar que tal mudança é efetivamente feita, pelo que urge o desenvolvimento de métodos e metodologias efetivas de controlo deste aspeto”.

Também a Zero se mostra preocupada com esta situação e por isso está em articulação com a Federação Europeia de Transportes e Ambiente, bem como com outras associações à escala europeia com o objetivo de “apelar à intervenção de diversas entidades governamentais e locais para controlar esta situação de forma integrada e abrangente”, diz Francisco Ferreira.

Há limitações em Lisboa?

O presidente da Zero esclarece que o porto de Lisboa impõe algumas regras internacionais e locais: o teor do enxofre em porto não pode ultrapassar 0,1% (regra internacional) e não é admitido que as partículas que sejam removidas pelo funcionamento de equipamentos de remoção instalados nas chaminés sejam despejadas nas águas do Tejo.

Já Pedro Santos destaca que a poluição atmosférica não é o único problema. “O desembarque massivo de passageiros numa qualquer cidade provoca também um acréscimo muito significativo no consumo de recursos, e consequentemente na produção de resíduos. A criação de limites a este tipo e embarcações deve também considerar este aspeto, ou seja, a sustentabilidade de um modo alargado, não apenas no que diz respeito ao meio de transporte em si, mas igualmente à pressão urbanística que o desembarque instantâneo de milhares de pessoas provoca”. 

Das regras praticadas em Lisboa, a Quercus fala apenas na capacidade do porto e na altura da Ponte 25 de Abril.
Há ainda quem considere que, quando um barco é rebocado até ao cais, a poluição diminui. Francisco Ferreira explica que não é verdade uma vez que o barco continua a trabalhar, mesmo quando está a ser rebocado. Em Lisboa, a técnica do reboque não é aplicada.

Recentemente foi criada uma petição “pelo direito a um ar limpo”, contra a poluição de navios de cruzeiro em Lisboa. Entre as várias medidas pedidas está a instalação de estações de medição da qualidade do ar. As associações ambientalistas aplaudem a petição. “Sem dúvida que é um alerta pertinente e a que o município de Lisboa deve dar a devida atenção em articulação com o Ministério das Infraestruturas e Habitação. É de notar que o terminal de cruzeiros não teve avaliação de impacte ambiental o que é uma falha grave e mesmo em nosso entender uma ilegalidade”, defende o presidente da Zero.

Já a Quercus considera que “todas as participações públicas que promovam o esclarecimento e conhecimento das questões e problemáticas ambientais são positivas e importantes para o caminho da sustentabilidade ambiental. No caso em concreto, a petição em causa é ainda mais relevante pela fundamentação e esclarecimentos prestados a quem a subscreve, pelo que é sem dúvida um excelente ponto de partida”.

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