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Vítor Rainho 14/02/2020
Vítor Rainho

vitor.rainho@newsplex.pt

A eutanásia não pode deixar de ser referendada

Só que, ao contrário de se despedir “até para o ano”, disse um “até sempre”: já tinha marcado a hora da morte numa clínica suíça. O conhecido banqueiro estrangeiro tinha perdido as faculdades e o que se avizinhava não era nada simpático. É óbvio que é preciso ter uma grande coragem para tomar uma decisão destas.

A discussão sobre a eutanásia fez-me viajar até aos dias e noites intermináveis que passei em urgências hospitalares. Aí vi coisas aterradoras e fazia-me alguma confusão como se procurava prolongar a vida de pessoas que não tinham qualquer esperança de algum dia ficarem sem os tubos e as máquinas que lhes mantinham, nalguns casos, os olhos abertos. Autênticos vegetais que já nem tinham capacidade de desistir ou de lutar por estarem vivos. Estavam ali, à espera que o coração parasse de bater. Por isso sempre fui contra a distanásia, que permite aos médicos prolongarem a agonia dos doentes que não têm, repito, qualquer hipótese de algum dia sentirem o que quer que seja. Há outros casos dramáticos como, por exemplo, o retratado no filme Million Dollar Baby, em que uma pugilista vai definhando irreversivelmente numa cama de hospital. O seu treinador, interpretado pelo magnífico Clint Eastwood, tem, no final, uma atitude de uma nobreza e de uma dificuldade impressionante ao desligar a máquina, permitindo que o sofrimento da personagem interpretada por Hilary Swank possa acabar. Quantos não gostariam, numa situação semelhante, de ter alguém que lhes fizesse o mesmo?

Outra história completamente diferente de que me recordo foi do meu amigo Gigi, que me contou que um dos seus melhores clientes do restaurante no Algarve apareceu um dia numa cadeira de rodas e, no final, despediu-se de todos, como fazia habitualmente. Só que, ao contrário de se despedir “até para o ano”, disse um “até sempre”: já tinha marcado a hora da morte numa clínica suíça. O conhecido banqueiro estrangeiro tinha perdido as faculdades e o que se avizinhava não era nada simpático. É óbvio que é preciso ter uma grande coragem para tomar uma decisão destas. Como também me parece óbvio que os deputados portugueses deviam chegar a acordo para fazerem um referendo sobre a eutanásia. Não é por ser a favor que acho que uma matéria tão delicada não deva ser referendada.

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