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Pyramids FC. Só falta uma linha avançada com Quéops, Quéfren e Miquerinos...

Pyramids FC. Só falta uma linha avançada com Quéops, Quéfren e Miquerinos...

DR Afonso de Melo 13/02/2020 22:47

Um novo clube veio pôr em causa a correlação de forças do futebol egípcio e abriu uma guerra que, para já, levou ao adiamento sine die da próxima jornada do campeonato. Um saudita político e poeta está no centro do furacão.

Cairo: a maior cidade de África. Vinte e dois milhões de habitantes espalham-se pelos bairros de Bab al-Louq, Haram, Shubra, Mohandeseen, Nasr City ou Rehab. “For those who are lost, there will always be cities that feel like home”, escreveu um dia Simon van Booy, o novelista anglo-americano. Alguém se sente em casa no Cairo? Alguém que não tenha nascido no Cairo, pois claro! Não sei. Não posso dizer que me senti em casa quando lá estive, mas não posso igualmente dizer que me senti um estranho. Há em todo aquele caos uma espécie de explicação segura da mecânica humana.

Ninguém passa no Cairo sem ir também a Gizé, o lugar das pirâmides, meia hora de distância do centro para quem apanha a El Tahrir, avenida larga que atravessa o Nilo e a ilha de Gezira, bordeja o edifício da Ópera e depois se transforma na Charles de Gaulle, sempre paralela ao rio.

Numa equipa que se chama Pyramids Football Club só faltava que o trio de ataque fosse formado por Queóps, Quéfren e Miquerinos, o nome das três grandes pirâmides da necrópole de Gizé. Mas o clube já passou por novo batismo e já viajou de sul para norte, percorrendo o vale do Nilo, vindo da velha Assiute, onde passavam as caravanas de Darb el-Arabin, que atravessavam o deserto, centro religioso dos cristãos coptas. No ano da fundação, 2008, nasceu como Al-Assiouty Sport. Cresceu o suficiente para chegar à Egypt Premier League seis anos mais tarde. Mas havia nos seus dirigentes um irresistível chamado de Cairo.

“Cairo somehow still feels right...”, diz uma frase das gentes locais. Algo bate certo por entre o seu mistifório e não há quem não queira ir ao Cairo. O Al-Assiouty seguiu as pisadas de tantos outros antes dele. No verão de 2018, um tipo de nome praticamente impronunciável, Turki bin Abdulmohsen bin Abdul Latif Al-Sheikh, saudita papa-tachos e de bolsos sem fundo, presidente da Associação dos Clubes Árabes de Futebol e do Comité Olímpico da Arábia Saudita, mestre dos serviços secretos da Universidade do Rei Fahd, membro do Supremo Tribunal de Justiça e poeta nos tempos livres, comprou o clube e abriu uma nova sede, desta vez no Cairo. Como não fazia sentido ter um clube do Cairo com Assiute no nome, passou a Pyramids FC. Batia certo.

Tranquilos... Os egípcios são, na sua generalidade, um povo descontraído. Talvez o facto de existirem há milhares de anos tenha amaciado necessidades de urgência. No dia-a-dia gostam do mote: “Bokra, Insha’allah, Malesh, abibi...” (“amanhã, se Deus quiser, tranquilos, amigo”, em tradução liberal).

Al-Sheikh, por seu lado, não estava com grande vontade de entrar na habitual procrastinação que mina o espírito dos habitantes da beira-Nilo. Tinha pressa. “I am currently concentrating all of my work on Pyramids FC, which is going to leave its mark on Egyptian, Arab and world football”, bradou, mostrando ao que vinha. Foi ao Brasil comprar um camião de jogadores, começando por Keno, do Palmeiras, que custou 10 milhões de dólares, e continuando com Carlos Eduardo, Lucas Ribamar, Arthur Caíke e Rodriguinho. Os treinadores, esses, duravam pouco: no espaço de ano e meio entraram e saíram Alberto Valentim, Ricardo La Volpe, Hossan Hassan, Ramón Díaz, Sébastien Desabre, Abdel Aziz Abdel Shafy e Ante Cacic. O dono do Pyramids podia ser um xeque, mas não tinha nada de faraó. A sua autoridade estava continuamente a ser posta em causa.

Deu um passo em frente. Comprou um canal de televisão e garantiu os direitos de transmissão dos encontros da Premier League inglesa, ao mesmo tempo que difunde em direto os jogos caseiros do Pyramids. O futebol no Egito agitou-se. Os dois gigantes do Cairo, Al-Ahly e Zamalek, tentaram mover as habituais influências sub-reptícias e o jogo entre Al-Ahly e Pyramids acabou por não se realizar na data marcada. Abdul Latif Al-Sheikh acusou a federação egípcia de patrocinar um calendário que beneficia os clubes mais poderosos e preparou-se para uma guerra sem quartel. Toda a próxima jornada foi adiada sine die. À sombra das pirâmides, novos tempos nos contemplam.

 

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