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Não é de padres casados que a Amazónia precisa

Não é de padres casados que a Amazónia precisa

AFP Marta F. Reis 13/02/2020 10:48

Cardeais dizem que exortação não encerra tema, mas cai a ideia de que a região poderia abrir caminho ao fim do celibato obrigatório. Para Anselmo Borges, sai reforçada a ala mais conservadora da Igreja.

São muitos os sonhos de Francisco para a Amazónia, mas o combate ao “desastre ecológico” e à injustiça social e o reforço da presença da Igreja Católica na região não vão passar pela ordenação de homens casados nem de mulheres diáconos. Aquela que era a principal expetativa em torno da palavra final do Papa sobre o sínodo do passado mês de outubro, onde mais de dois terços dos padres que participaram no encontro sobre a região votaram a favor da ordenação de homens reconhecidos pela comunidade, mesmo que tivessem família, e pela abertura de ministérios a mulheres, desvaneceu-se esta quarta-feira.

A exortação a que Francisco chamou “Querida Amazónia” não refere expressamente o celibato, mas defende que se os leigos devem ter um papel, a função do sacerdote de presidir à eucaristia não é delegável. O texto, embora reconheça também que o ministério dos sacerdotes não é monolítico, foi lido como um fechar de portas à hipótese que tinha ficado em aberto – e que teve contestação da ala mais conservadora da Igreja. A publicação de um livro assinado pelo cardeal Robert Sarah e por Bento xvi em defesa do celibato – o que causou um incidente diplomático na cúria, com o Vaticano a alegar que tinha havido um mal-entendido e que Bento xvi não tinha querido assinar a obra em conjunto com Sarah, tendo apenas escrito um texto – tornou públicas as tensões. Bento xvi sabia que o texto ia ser publicado e enviou-o a Sarah, apontado como possível sucessor de Francisco, ainda durante o sínodo. Ontem, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, disse que Francisco escreveu a exortação em dezembro, dando a entender que não foi influenciado pela intervenção de Bento xvi, conhecida no início de janeiro.

Francisco deixa as suas considerações sobre o “sonho eclesial” na Amazónia, que surge só depois do sonho social, cultural e ecológico para a região. O tópico central é a questão da inculturação, a ideia de que a Igreja deve aceitar e não impor-se à cultura dos locais que evangeliza. “Para conseguir uma renovada inculturação do Evangelho na Amazónia, a Igreja precisa de escutar a sua sabedoria ancestral, voltar a dar voz aos idosos, reconhecer os valores presentes no estilo de vida das comunidades nativas, recuperar a tempo as preciosas narrações dos povos”, escreve o Papa.

Indo ao ponto que mais deu que falar, e que visava responder à escassez de padres na região, Francisco pede aos bispos, em particular da América Latina, que levem quem demonstre vocação missionária a optar pela região. E deixa um reparo em rodapé: “Impressiona o facto de haver, em alguns países da bacia amazónica, mais missionários para a Europa ou os Estados Unidos do que para ajudar nos próprios Vicariatos da Amazónia”. Em relação às mulheres, diz que se devem incentivar serviços e carismas femininos, mas clericalizar as mulheres “diminuiria o grande valor do que elas já deram e subtilmente causaria um empobrecimento da sua contribuição indispensável”.

Na apresentação do documento, e perante as dúvidas da imprensa – o vaticanista Marco Politi questionou diretamente se era compreensível que o Papa, tendo validado a questão da ordenação de homens casados na Amazónia no documento do trabalho que foi discutido no sínodo, não se referisse agora ao assunto –, o cardeal Michael Czerny, secretário-especial do sínodo, e o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, recusaram que o tema tivesse ficado fechado. “As perguntas que estão a colocar são temas que não foram resolvidos pelo Papa”, disse Czerny. “O caminho está aberto”, remataria Baldisseri.

 

“Um erro histórico”

O texto foi visto com deceção por quem esperava que o Papa pudesse ir mais longe. Para o teólogo Anselmo Borges, a exortação contém reflexões importantes que vincam a imagem da Igreja “em saída”, marca de Francisco, mas em relação ao celibato é uma oportunidade perdida. “Julgo que é um erro histórico e, para mim, foi uma desilusão. Se alguém tinha prestígio para abrir esta porta era Francisco. Penso que teve receio de um cisma e foi recetivo a pressões, nomeadamente do livro do cardeal Sarah. E o que vai acontecer é que a ala mais conservadora da Igreja, com este documento, sente-se ainda mais reforçada. O Papa poderá perder força na sua renovação da Igreja”.

Anselmo Borges não tem dúvidas, no entanto, de que esse será um dia o caminho. “Já o Papa João Paulo ii disse uma vez: ‘Sei que o fim do celibato enquanto lei acontecerá, mas que não seja eu a vê-lo’. Os papas sabem que Jesus não impôs o celibato como lei. Começa no séc. xi e só se impõe no séc. xvi e no Ocidente. Nas igrejas orientais continua a haver padres casados. Mais tarde ou mais cedo acontecerá o fim do celibato como lei. O Papa Francisco vê no celibato um dom, mas também já disse que não era um dogma”.

 

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