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Carlos Zorrinho 13/02/2020
Carlos Zorrinho
opiniao

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União Europeia – museu ou laboratório do futuro

Numa abordagem política séria, os valores partilhados no mundo analógico devem ser transpostos para o mundo digital. O desafio não é fácil, mas é central.

O Parlamento Europeu debateu ontem no plenário de Estrasburgo as relações entre a evolução do mundo digital e da Europa social. É um tema de absoluta atualidade e em que o Parlamento Europeu tem estado muito ativo, equiparando e articulando a transição energética e a transição digital como os dois grandes fios condutores da estratégia europeia de modernização e desenvolvimento sustentável, debatendo com os vários comissários os impactos sociais, políticos e tecnológicos da mudança, ouvindo as empresas e os representantes dos trabalhadores e das organizações da sociedade civil e produzindo documentos de posicionamento político que determinam as diferentes visões em presença.

Numa abordagem política séria, os valores partilhados no mundo analógico devem ser transpostos para o mundo digital. O desafio não é fácil, mas é central. Perante ele, há quem esconda a cabeça na areia, deixando que tudo aconteça ao lado do escrutínio político, há quem procure fazer um dique impossível ao avanço tecnológico e científico e há quem veja na revolução uma oportunidade de corrigir algumas das maiores distorções da sociedade em que vivemos. Em caricatura, há quem, em nome da privacidade e da tradição, queira fazer da UE um museu do passado e há quem aposte em demonstrar que a democracia, a transparência, o Estado de direito e a liberdade de expressão são contextos favoráveis, e não limitações, para que a UE seja o laboratório da nova globalização impulsionada pela transição energética e digital.

Tendo sido relator da iniciativa WIFI4EU, que visa promover o acesso gratuito e universal a uma internet de elevada qualidade no espaço da UE, e relator-sombra do programa Europa Digital, que aposta no desenvolvimento de computação de alta performance, da inteligência artificial, da cibersegurança, da interoperabilidade e das competências digitais avançadas, defendo que, tendo em conta que a iniciativa foi aprovada por larga maioria no Parlamento e aprovada em trílogo interinstitucional, e que o programa obteve os mesmos resultados, carecendo apenas da dotação financeira, as linhas fortes consensualizadas podem servir de base ao arranque europeu para se assumir como laboratório do futuro.

E que linhas são essas? Em primeiro lugar, usar o nosso acquis de valores e princípios partilhados pelos países da União como a base de uma identidade digital fundada na ética e na prioridade às soluções para os cidadãos, como instrumento de diferenciação competitiva com as outras potências digitais. Em segundo lugar, fazer do acesso universal à internet de alta qualidade um objetivo central. Em terceiro lugar, desenvolvendo conhecimentos, produtos e competências através de redes descentralizadas e estruturadas em ligação com os hubs de inovação digital.

Estará aqui a solução para fazer da UE um laboratório vivo de germinação duma sociedade digital progressista e centrada nas necessidades das pessoas e na salvaguarda do planeta? É, pelo menos, um passo no caminho certo, pois se continuarmos a hesitar acabaremos por tornar-nos um museu do que foi, e não um exemplo do que deve ser.

 

Eurodeputado

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