12/8/20
 
 
Marta F. Reis 13/02/2020
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@ionline.pt

Tempos modernos ou crime organizado?

A cena de Charles Chaplin trucidado pela velocidade da linha de montagem em Tempos Modernos pode não refletir bem o ambiente que se vive hoje nas fábricas, onde há quem defenda que o trabalho é até mais intelectual, mas há novas formas de trucidação. Vê-se nas linhas de caixa de supermercados, com muitos postos fechados e enormes filas, poucos funcionários para dar conta do trabalho.

Em 2019 houve mais de 1,8 milhões de baixas médicas, um número recorde desde 2001, ano em que começaram os registos.

Os dados foram noticiados ontem pela TSF, com o Governo a considerar que a subida se deve também ao aumento do emprego nos últimos anos. Já a Confederação Empresarial de Portugal denuncia um aumento das baixas fraudulentas e António Saraiva admite mesmo uma situação de crime organizado, e que outra hipótese será os médicos passarem baixa por receio de serem agredidos.

Os números são impressionantes tendo em conta a população ativa no país e seguramente haverá mais do que uma explicação, mas merecem uma análise séria e é pena que existam poucos dados sobre a natureza das baixas e qual o peso de doenças profissionais ou problemas de saúde mental. No debate lançado pela TSF, o bastonário dos médicos lembrou a questão do burnout e vários estudos têm mostrado como várias profissões trabalham hoje com níveis de exaustão elevados.

Uma população mais envelhecida também tenderá naturalmente a registar maior absentismo por doença e é preciso perceber como adaptar o trabalho a esta nova realidade sem penalizar os mais novos e sem transformar o final da vida laboral num pesadelo. Foi interessante o contributo do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira, um dos setores onde a CIP diz haver suspeitas de esquemas para baixas fraudulentas. Etelvina Rosa falou da cadência do trabalho num tempo de automação crescente e como se torna mais difícil responder às máquinas e à produtividade.

A cena de Charles Chaplin trucidado pela velocidade da linha de montagem em Tempos Modernos pode não refletir bem o ambiente que se vive hoje nas fábricas, onde há quem defenda que o trabalho é até mais intelectual, mas há novas formas de trucidação. Vê-se nas linhas de caixa de supermercados, com muitos postos fechados e enormes filas, poucos funcionários para dar conta do trabalho.

Mesmo quando são caixas de pagamento automático que encravam e deixam o pessoal num rodopio. Nos centros de saúde, nos hospitais, nas escolas, em todos os setores não é difícil apanhar momentos de exasperação em que se percebe que as pessoas estão a trabalhar no limite das suas condições psicológicas e físicas. A Ordem dos Médicos admitiu ontem que vai investigar a questão das baixas fraudulentas, mas seria importante ouvir mais vezes a Autoridade para as Condições do Trabalho e ser mais intransigente com os problemas a montante.

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