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Maria Reis. “Relaciono-me com a música através da intimidade e da vulnerabilidade”

Maria Reis. “Relaciono-me com a música através da intimidade e da vulnerabilidade”

Mafalda Gomes Hugo Geada 12/02/2020 18:32

A autora de Chove na Sala, Água nos Olhos vai apresentar hoje o seu álbum de estreia na Culturgest.

Para uma pessoa normal, um buraco no teto da sala é um problema. Para outros, pode ser uma inspiração. Não, não estamos a falar de Fixing a Hole dos Beatles (Paul McCartney já desmentiu numa entrevista que a música não tem nada a ver com um buraco na sua quinta). A azarada com chuva dentro da sala foi Maria Reis que, com a sua irmã Júlia, forma as Pega Monstro. Este percalço serviu de inspiração para o título do seu álbum de estreia, Chove na Sala, Água nos Olhos, editado em novembro do ano passado, que vai ser hoje apresentado pela primeira vez na Culturgest. Em conversa com o i, a artista falou sobre o concerto, as subtis diferenças entre os seus projetos musicais e fazer música em família. 

O que aconteceu entre o período em que fazia música com as Pega Monstro e o lançamento do seu primeiro álbum a solo, Chove na Sala, Água nos Olhos?

Em 2017, como Pega Monstro, lançámos o nosso terceiro disco, Casa de Cima. Nesse mesmo ano fiz o meu primeiro EP a solo, Maria EP, participei com o Gabriel Ferrandini e o André Cepeda num projeto meio estranho, também saiu um disco disso [Live Performance, 2018] e, agora, estive a preparar este novo álbum.

Porquê gravar agora um disco a solo?

Era um desafio que tinha para mim própria há algum tempo e resolvi fazê-lo agora. Acho que para uma pessoa que tem esta coisa solitária de escrever canções sozinha, faz mais sentido este processo a solo. 

É muito diferente o processo de criação de Maria Reis e Pega Monstro?

Se calhar diverge no resultado final, mas o processo de criação foi muito idêntico.

Será este disco o seu disco mais pessoal?

Pega Monstro já era um projeto pessoal. Não consigo não sê-lo, na verdade. A minha maneira de me relacionar com a música é através da intimidade e da vulnerabilidade, é a minha linguagem desde que comecei a fazer música. Não sinto que me esteja a expor mais ou menos. Claro que ter uma coisa em meu nome é bizarro porque não me consigo distanciar da música, mas acaba por ser o mesmo naquilo que entrego à música.

Como é que a sua irmã reagiu a este seu projeto a solo?

Reagiu bem. [risos] Ela não colaborou neste disco diretamente. Colabora doutras formas. A minha irmã decidiu sair da cidade, está a viver nos arredores de Viseu. Foi uma decisão que tomou e agora vejo-a muito mais tranquila nessa vida de campo. O facto de ela se ter resolvido deu-me um impulso para me resolver à minha maneira. Apoiamo-nos uma à outra, se não for na música é de outra maneira. 

Cada uma seguiu o seu caminho?

Sim, basicamente. Continuo na música, ainda tenho muitas coisas para descobrir e ainda me sinto bem a fazer isto. A partir do momento que me sentir mal a fazer música resolvo-me de outra forma mas, de momento, não me vejo a fazer outra coisa.

Não se imagina a fazer outro tipo de arte?

A expressão artística não tem a ver com a tua prática. A música tem uma coisa democrática que, para mim, é muito clara e, até agora, sinto que não há nenhum outro meio onde haja essa democracia. Mas as coisas agora estão diferentes, agora os concertos têm uma coisa de vernissage.

Quão diferente vai ser este seu concerto a solo de um concerto das Pega Monstro?

Formalmente vai ser bastante diferente, vou ter uma secção de cordas, uma bateria e baixo, uma coisa nova - em Pega Monstro era só guitarra e bateria. Mas aquilo que é a música e aquilo que é a minha música, com um registo mais emocional, acho que vai ser semelhante.

Diz que vão ser semelhantes, mas o som dos dois projetos é bastante diferente: Maria Reis é mais intimista, enquanto Pega Monstro tem mais distorções e é mais energético.

O grão da música não se mede pela quantidade de distorção e de subterfúgios de efeitos. O disco está como está, foi feito em colaboração com muitas pessoas diferentes, e o que quero que se multiplique em concertos não é replicar aquilo que gravei. Quero descobrir o que as canções estão a pedir: às vezes vão ser mais agressivas, outras vezes vão ser mais suaves.

Como compara este álbum em relação ao resto da sua discografia?

Considero este álbum mais arrojado, pelo menos na procura de colaborações, de instrumentos e de registos diferentes. Apesar de não o considerar minimal, considero que a minha música tem de ser eco consciente na palavra e não ocupar espaço que sei que estou a ocupar. Quero apenas dizer as coisas que tenho que dizer. Sinto que há uma tendência nas canções para dizer muito chouriço, só para rimar ou para cantar, e isso, para mim, não é desafiante. 

Nas suas letras também usa muitas referências pop. Por exemplo, fala no Lars von Trier. Porquê?

Tenho uma tendência lixada para usar um tom moralista. [Em Lars von Trier] exploro a problemática de sermos fãs de um artista e mais tarde descobrirmos que é um otário. É aquela questão de “será que dá para gostarmos da arte sem gostarmos do artista?”. É engraçado, porque desmistifica a ideia do que é o artista: um gajo normal - normal sendo horrível, o que é normal. É normal uma pessoa tomar decisões erradas. O Lars von Trier é uma dessas personalidades que têm essa postura polémica e, nesta música, não me coloco numa posição definida e tento pensar sobre este assunto [de um ponto de vista imparcial].

É contra a cultura de cancelar celebridades?

Não sou contra, é isso que estou a dizer na canção. Não é sobre ser contra ou a favor, mas sobre o que são os comportamentos de assédio e comportamentos que só podem ser tidos por alguém numa posição de poder, que foram todos estes casos que apareceram, o que isso implica depois e o que essas pessoas fizeram em termos artísticos.

Acha que fazem falta mais álbuns com consciência social na música portuguesa?

Acho que não é só na música. Não acho que os músicos e os artistas tenham de ser politizados. Toda a gente deveria ser. Acho que é importante não usarmos isso na música, mas usarmos a música para falar sobre isso.

Vai agora estrear-se na Culturgest. O que podem esperar os fãs?

Vai ser uma surpresa. É importante ver aquilo que só vai acontecer uma vez. Este concerto não vai ser indicativo dos próximos, vai ser um all-in. Quero tornar este concerto uma experiência única, por isso também vai ser uma experiência diferente para mim.

O concerto vai ter uma forte componente visual?

Vou estar na Culturgest, se não o fizesse era um desperdício de espaço. [risos] Estou a colaborar com a Cláudia Lancaster, designer, e com o Bruno Bogarim. Nós os três pensámos sobre o que podia ser fixe estar em palco mas, para já, é surpresa.

Acha que este é o local ideal para apresentar o seu novo disco?

Prefiro muito mais tocar em sítios fechados do que em festivais. Pode perguntar a qualquer músico que ele vai dizer-lhe o mesmo. Não há nenhum músico que prefira tocar num festival, só se for por render mais dinheiro e dar mais exposição.

Com que banda vai apresentar-se agora na Culturgest?

A parte mais rock, como lhe estou a chamar, vai ser o João Portalegre na bateria e o Simão Simões no baixo, que tem um projeto de música marada na Rotten \ Fresh. Na secção das cordas, no contrabaixo está o meu irmão, António Quintino, que toca em Cassete Pirata e às vezes com os Dead Combo, e que me ajudou a fazer o arranjo das cordas, e ainda há um violoncelo, dois violinos, uma viola de arco, trompete e flauta.

Não sabia que o seu irmão também fazia música. Vem de uma família de músicos?

Eu, a minha irmã Júlia e o António [somos músicos]. Ainda tenho outra irmã que faz booking de músicos e também desenha. Os meus pais não são da música, mas sempre nos motivaram para isso. São professores no secundário, o meu pai ensina matemática e filosofia, a minha mãe já se reformou mas era de francês e português.

Como é tocar com a família? É um momento íntimo ou pode ser estranho?

É normal. A família só é família quando te dás bem com ela, se não só é família de sangue. Nós damo-nos todos bem, partilhamos as mesmas ideias sobre o que gostamos e o que está bom. Existe confiança e diálogo. Não diria que é mais difícil, até diria o contrário.

Este álbum foi muito bem recebido pela crítica. Isso motiva-a a continuar a trabalhar?

Mesmo que não tivesse sido aclamado, motiva-me sempre. Hoje de manhã cheguei atrasada porque, de repente, estava a compor. Às vezes aparece-me nos piores momentos. Tenho milhões de merdas para fazer, mas quando começo a tocar não consigo parar. Não escolhi esta vida. [risos]

Não escolheu ser música?

Escolhi. E ainda bem que escolhi. Às vezes é lixado porque temos mesmo de nos esforçarmos para conseguir criar alguma coisa mas, quando flui, sabe bem. A música é um ofício como outro qualquer. Se fazemos programação no computador e não o fazemos regularmente, esquecemo-nos. É como matemática ou uma língua: se não praticamos, não vamos conseguir falá-la do nada.

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