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Rio quer entendimentos para reformar justiça e política

Rio quer entendimentos para reformar justiça e política

Mafalda Gomes Cristina Rita 10/02/2020 09:11

Congresso do PSD serviu para arrumar a casa, mas o presidente laranja segue a mesma estratégia e quer sair com glória. Coragem, reformas e transparência nas mensagens do líder.

Não foi propriamente um discurso de encerramento do congresso cheio de novidades. O presidente do PSD repisou ontem alguns argumentos passados sobre setores como o da saúde, mas a intervenção serviu para falar ao país, depois da casa arrumada (uma vitória no conselho nacional e mexidas cirúrgicas na sua equipa de direção). Derrota, só mesmo para o conselho de jurisdição: a escolha de Rio, o ex-líder parlamentar Fernando Negrão, falhou a presidência do tribunal do partido (e ganhou Paulo Colaço).

Na sua intervenção final no 38.o congresso, que se realizou em Viana do Castelo, Rui Rio procurou encostar o PS à esquerda “mais radical” e aos seus parceiros de geringonça, “amarrados às conceções mais primárias de luta de classes”, atacou o Governo por não ter uma visão reformista e voltou a defender a necessidade de entendimentos para dois setores que são bandeiras antigas do também antigo autarca do Porto: o sistema político e a justiça.

“O PSD esteve e continuará a estar disponível para encontrar pontos de entendimento com outros partidos e com a sociedade em geral”, avisou Rui Rio, insistindo na necessidade de diálogo entre os partidos sobre estes dois temas. Para o efeito, Rio pediu também que as forças políticas em geral sejam mais “comedidas” nas promessas, “menos fazedores de notícias e mais construtores de soluções”, e sempre recorrendo à expressão “interesse nacional”.

No caso da reforma do sistema político, Rio defendeu a redução “moderada” do número de deputados e a limitação dos seus mandatos, aplicando-se o princípio em vigor para os presidentes de câmara: 12 anos. O discurso incluiu também a revisão da composição da Comissão de Ética na Assembleia da República, um “revisitar a lei dos partidos” e a necessidade de se repensar a forma de eleger os deputados e os executivos autárquicos. Para Rui Rio, é preciso “uma reforma que devolva transparência, verdade e eficácia ao nosso sistema político”.

Mas se a classe política está desprestigiada, “os agentes judiciais não o estão menos, o que é obviamente um sintoma muito negativo para o próprio regime democrático”, avisou Rio.

Mais, o presidente social-democrata foi duro com o setor da justiça. Criticou o corporativismo, a “opacidade”, e não esqueceu o aumento dos salários dos magistrados. Para Rui Rio, este foi mais um momento em que o Governo “mostrou que não tem grande problema em ser fraco com os fortes e forte com os fracos”.

Insistindo no registo de seriedade, o presidente do PSD voltou à carga e exigiu coragem para combater a demagogia e o populismo: “Essa lógica abstrusa pode agradar aos tabloides que vivem do escândalo e da suspeita gratuita, mas não serve a dignidade e muito menos a nobreza da função política. Tem de haver coragem para combater a demagogia e o populismo, que são dois dos mais perigosos adversários da democracia”, declarou Rui Rio.

A palavra coragem foi evocada também no apelo a um pacto abrangente para combater as assimetrias do país e apostar na descentralização.

Sobre o Governo, criticou o seu modelo focado no consumo, que não permite o crescimento baseado na produção, sem espaço para reformas. O resultado? “Os portugueses podem ter alguma ambição desde que ela seja poucochinha”, afirmou Rui Rio, galvanizando o congresso.

Na saúde, Rio insistiu ainda na fiscalização ao desperdício no setor “ e, muito provavelmente, na deteção de relações comerciais menos transparentes nas aquisições de bens e serviços” – sem concretizar. E voltou a defender as parcerias público-privadas sempre que necessário.

No início do discurso, Rio fez uma saudação especial ao CDS, realçando as diferenças, mas recordando os momentos em que os dois partidos governaram o país, em situações difíceis, como a da entrada da troika em Portugal. Foi o sinal de paz, depois da polémica sobre o IVA na eletricidade.

Por fim, numa última frase, Rio despediu-se do congresso com a intenção de ficar na história do partido com honra e glória: “Quando estamos na vida pública, só conseguiremos marcar a nossa passagem com o que a ela damos. Quem nela está para receber, dela sairá sem qualquer honra ou glória. Na história do PSD, muitos saíram com honra e glória. Saibamos seguir esses exemplos e servir Portugal como eles serviram”.

Fora do discurso ficaram temas como as presidenciais. Neste ponto, o secretário-geral, José Silvano, esclareceu à Rádio Renascença e à Lusa que quando Marcelo Rebelo de Sousa esclarecer que é recandidato, então o PSD dar-lhe-á o apoio.

 

Machado de guerra enterrado

No congresso que serviu para tentar enterrar o machado de guerra, ficou claro que Luís Montenegro, derrotado por Rio na segunda volta das diretas, não se calará, mas retorna à condição de militante de base. Já Miguel Pinto Luz garantiu à RTP que o partido sai unido, depois de ter ficado em terceiro lugar na primeira volta eleitoral. E será um nome a reter no futuro.

Agora, o PSD já tem novos órgãos eleitos. A lista de Rio para o conselho nacional (encabeçada por Paulo Rangel) alcançou 21 mandatos contra 16 da lista apadrinhada por Luís Montenegro e a direção tem dois novos rostos: os deputados André Coelho Lima e Isaura Morais. Joaquim Sarmento, o “Centeno” de Rio para as finanças públicas, passa a integrar a comissão política.

Insólito só mesmo o facto de Negrão ter falhado a presidência do conselho de jurisdição e nem ter tomado posse, segundo o Observador. Ao i, Negrão alegou “motivos pessoais” para estar ausente na parte final do congresso.

“O líder do PSD acabou de fazer um discurso que retirou do congelador” Carlos César Presidente do ps “Por um lado, [Rui Rio] parece não compreender as responsabilidades que o PSD tem em muitos dos problemas que identifica e, por outro, não apresentou uma única proposta concreta” Catarina Martins Coordenadora do BE “Estão criadas condições para que seja criada esta plataforma de entendimento [nas autárquicas]” Francisco Rodrigues dos Santos Presidente do CDS-PP “Foi feito um grande esforço por parte de Rui Rio para (...) branquear todas as responsabilidades que a política do PSD tem tido nos problemas que identifica” Gonçalo Oliveira comissão política do pcp “Rio só conta com o Chega se nos der a mão na luta contra a corrupção, contra os pedófilos e contra as gorduras do sistema político” André Ventura líder do chega“O líder do PSD acabou de fazer um discurso que retirou do congelador” Citações

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