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José Paulo do Carmo 07/02/2020
José Paulo do Carmo

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Saídas de amigos

É talvez por essa razão que encontro naqueles bares mais antigos e tradicionais de Lisboa, como o Pavilhão Chinês , o Procópio, o Foxtrot ou o Paródia, cada vez menos gente. A tendência é beber barato e muito, não interessa se em copo de plástico refundido, falar pouco ou nada e agarrar-se ao telemóvel em vez de aproveitar o momento.

Esta semana, num jantar de amigos, falávamos abertamente sobre as mudanças que se deram na nossa vida neste último ano. Um deles, no seu estilo gozão, brincava com os outros dizendo que nós já não tínhamos interesse nenhum porque havíamos alterado hábitos e comportamentos. Essa era, aliás, a tónica apontada para não estarmos tanto juntos como antigamente. Agora, cada um passa mais tempo em casa, tem mais dificuldade em sair até às tantas porque demora dois ou três dias para recuperar e começamos a ter mais preocupações com a saúde, mas também devido ao facto de, com o passar do tempo, começarmos a dar valor a outros momentos e concretizações. Já me tinham avisado que esse tempo chegaria e confesso que houve alturas em que não acreditaria que isso viria a tocar-me também a mim. A verdade é que as pessoas são como são e no nosso grupo sempre gostámos de nos divertir, de dançar e, muitas vezes, ficar na conversa até de manhã. Penso que isso não irá mudar muito.

Só que à exceção desse meu amigo (tão resistente que o corpinho dele deverá ser entregue à ciência para ser estudado), todos os outros preferem um bom jantar seguido de um copo num bar que tenha conforto e qualidade. Onde as bebidas não sejam maradas, o serviço seja em condições, a música boa e o ambiente diversificado mas sem uma correria de miúdos a pisarem-nos os pés sem sequer pedir desculpa. O problema é que, hoje em dia, as pessoas andam com tanto na cabeça e fazem tantas coisas com segundas intenções que deixaram um pouco a genuinidade de parte. Na realidade, parece-me que antigamente as pessoas eram mais noctívagas com prazer, o lado boémio era selecionado, atraente e invejado. Agora, como toda a gente sai para todo o lado, perdeu um pouco esse encanto, até porque os mais jovens saem mais para ver, serem vistos e tirarem fotografias do que propriamente pelo prazer da noite.

Certo é que a noite mudou e vai mudando, como tudo na vida, de uma forma cíclica. Neste momento, as pessoas estão cada vez mais formatadas exatamente para os mesmos conceitos. Os mais velhos escolhem invariavelmente ao fim de semana restaurantes com bar dançante que lhe permitam ficar até as 03h e depois ir para casa. Os mais novos jantam cada vez mais tarde em espaços normalmente com ementas fixas e baratas e arranjam sítios onde beber as garrafas pré-compradas para irem diretos para a discoteca, de preferência já bêbados para gastarem menos. Ou seja, o consumo do álcool é definido muitas vezes pelo seu efeito enquanto, em tempos mais antigos, era escolhido pelo prazer que a bebida nos dava. Lembro-me da excitação que era degustar um whisky diferente da garrafeira dos nossos pais ou de experimentar um bom charuto. Agora, não se importam com o paladar nem com o gosto, querem que bata forte e rápido para irem mais descontraídos.

É talvez por essa razão que encontro naqueles bares mais antigos e tradicionais de Lisboa, como o Pavilhão Chinês , o Procópio, o Foxtrot ou o Paródia, cada vez menos gente. A tendência é beber barato e muito, não interessa se em copo de plástico refundido, falar pouco ou nada e agarrar-se ao telemóvel em vez de aproveitar o momento. Os bares passaram a ser terreno híbrido. As pessoas deixaram de dar valor aos momentos com os amigos quando saem. Penso que às vezes esquecem-se mesmo de que saíram acompanhados e não percebem porque é tudo fácil, tudo fugaz. Quando eu comecei, sair era todo um momento especial em que nos aperaltávamos por brio e com a preocupação de não sermos barrados. Por vezes, quando vou sair e olho à minha volta penso no prazer que retirávamos de toda aquela excitação. É por isso que continuo a gostar muito de sair com esse meu amigo, porque parece que os anos não passaram, a alegria é a mesma e vivemos tudo outra vez. Não tenho a ousadia de achar que antigamente era melhor ou pior, como alguns que dizem que agora tudo é mau só porque estão mais velhos. Mas que era diferente, lá isso era. Seguramente.

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