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China isolou epicentro do vírus há duas semanas mas epidemia não dá sinais de abrandamento

China isolou epicentro do vírus há duas semanas mas epidemia não dá sinais de abrandamento

AFP Marta F. Reis 06/02/2020 10:25

Diretor da OMS diz que número reduzido de casos fora da China é uma “janela de oportunidade” para evitar crise global.

Passam duas semanas desde que as autoridades chinesas proibiram as entradas e saídas de Wuhan, a cidade de 11 milhões de habitantes onde começou o surto do novo coronavírus. Desde então, as ruas ficaram vazias, o trabalho passou a ser feito a partir de casa e muitas das escolas, encerradas, estão a garantir que os alunos tenham aulas online. Centenas de estrangeiros foram repatriados, entre os quais os 20 portugueses em isolamento em Lisboa. Construíram-se dois hospitais no espaço de dias e a cidade está agora a converter um ginásio e dois centros de conferências em enfermarias, dispondo milhares de camas lado a lado para tentar garantir que ninguém fica sem resposta ou a propagar o vírus na comunidade.

Além de Wuhan, mais uma dúzia de cidades chinesas estiveram nas últimas semanas sob quarentena na província de Hubei, numa área com 50 milhões de pessoas, mas a epidemia não dá ainda sinais de abrandamento. Os casos confirmados continuam a multiplicar-se – ontem eram 24 630. Ultrapassado agora o período máximo de incubação do vírus desde o isolamento das primeiras cidades (14 dias), a perspetiva é perceber se o plano para conter uma disseminação maior do vírus funcionou e se os casos não aumentam exponencialmente noutras províncias chinesas, como aconteceu em Hubei ou mesmo fora do país – o que alguns peritos puseram em causa já que, antes da quarentena, pelo menos 5 milhões de pessoas, segundo o prefeito da cidade, deixaram Wuhan, naquele que é o período do ano com mais viagens para os chineses.

Os próximos dias serão decisivos para conter a propagação da doença noutros locais. Em Macau, os casinos vão estar fechados durante duas semanas, assim como as escolas, creches e parques infantis. O anúncio motivou uma corrida aos supermercados e farmácias, mas um português residente na cidade disse ontem ao i que o ambiente de histeria deu entretanto lugar a alguma calma, ainda que a preocupação seja notória. Foi pedido à maioria das pessoas para ficarem a trabalhar em casa, o que justifica o esvaziar das prateleiras, dado que na maioria das vezes comem fora durante o dia. Nas ruas, já não se vê ninguém sem máscara. A partir desta quinta-feira, até as igrejas passam a estar fechadas e as missas vão ser transmitidas online, informou a Diocese de Macau.

Em Hong Kong, depois de o Governo ter recusado o apelo de especialistas para o encerramento de fronteiras, o Executivo anunciou que todos os visitantes provenientes da China continental serão colocados sob quarentena durante 14 dias. Macau registava até ontem dez casos confirmados, e Hong Kong 21.

“Fora de Hubei, vemos alguns casos esporádicos, pessoas que foram maioritariamente infetadas em Hubei antes da quarentena”, disse na terça-feira Sylvie Briand, especialista da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Queremos ter a certeza de que não teremos uma segunda Hubei”.

Ontem, em conferência de imprensa, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde apontou no mesmo sentido: “Até ao momento, 99% dos casos do novo coronavírus são na China e 80% dos casos na China são na província de Hubei. O número relativamente pequeno de casos fora da China [ontem eram 191 em 24 países] dá-nos uma janela de oportunidade para evitar que este surto se torne uma crise global maior”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde quer que os países reforcem os seus planos de preparação para conter o surto e detetar precocemente qualquer caso que possa surgir, e anunciou o lançamento de uma nova estratégia, assim como a ativação de reservas de material da organização.

Vão ser distribuídos 250 mil testes para 70 laboratórios de referência em todo o mundo para que casos suspeitos sejam logo avaliados, mas também meio milhão de máscaras, 350 mil pares de luvas e 40 mil ventiladores, que para já serão distribuídos por 24 países. O diretor da OMS pediu também publicamente um fundo de 675 milhões de dólares para financiar os trabalhos dos próximos três meses – 60 milhões de dólares destinados às operações da OMS e o restante para os países em maior risco. “A nossa mensagem para a comunidade internacional é: invistam agora ou irão pagar mais depois”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, sublinhando mais uma vez que a principal preocupação da OMS é com o impacto de uma epidemia desta natureza em países com sistemas de saúde menos robustos.

Em Portugal, Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, afirmou ontem que “todo o cuidado é pouco” e que é preciso “treinar e capacitar”. O país está preparado para uma “eventual escalada de infeções”, referiu Graça Freitas, acrescentando que foi dada indicação aos hospitais para que os planos de contingência sejam atualizados e reformulados. Além disso, a Direção-Geral da Saúde, em parceria com a Autoridade Nacional da Aviação Civil, vai distribuir folhetos informativos a bordo dos voos diretos da China para Portugal, com informações sobre o que deve ser feito em caso de sintomas.

 

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