27/5/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 05/02/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

António Costa: agressividade e tensão política

O primeiro-ministro tende a isolar-se e mostra-se muito crispado, até com os seus correligionários.

1. Os indicadores mais recentes tornam claro que as opções do Governo não auguram nada de bom para os portugueses. Os dados disponíveis e a constatação por mera observação e/ou análise, ainda que superficial, tornam óbvia a degradação de muitas das estruturas da sociedade portuguesa. Por mais bonitas que sejam as contas públicas, factos são factos. Na saúde, é o desastre. Na Segurança Social, é o caos. Na justiça, reina a ineficácia. Na segurança, há alta tensão. No ambiente, vivemos na mentira. Na economia, não há capacidade de atração de investimento. Nas finanças, vivemos o tiro ao bolso, a instabilidade fiscal e as cativações avulso, uma política que o homem de Santa Comba tinha aplicado. O Orçamento em discussão é, na verdade, um exercício virtual. Mário Centeno fará dele o que entender, enquanto estiver à frente das finanças públicas.

Os poucos dados positivos que existem e que não se podem negar, como a diminuição do desemprego, são conjunturais e suscetíveis de descambar ao mínimo abalo. Na verdade, não faltam preocupações e dificuldades no horizonte de Portugal e da Europa, agora enfraquecida pela saída do Reino Unido, cujos efeitos chegarão em força em 2021. E a isso se junta uma crescente hegemonia das economias chinesa e americana que, ao contrário do que se esperava, estão a reaproximar-se, limitando o crescimento dos países europeus, nomeadamente os menos “performantes” em termos de produtividade, como Portugal.

Esta conjuntura interna e externa não é boa para Portugal e coloca dificuldades acrescidas a António Costa, e logo no princípio de uma legislatura. Tudo num tempo em que a Assembleia não é dissolúvel durante longos meses por ser recém-constituída e por, a seguir, entrarmos em fase final do mandato presidencial, em que o poder do chefe do Estado fica limitado quanto a uma dissolução. É neste contexto que se vê que o primeiro-ministro está manifestamente crispado e nervoso. António Costa perdeu o ar artificialmente bonacheirão. Tem mostrado uma faceta dura e até irascível. Como acontece a muitos líderes, o tempo e o isolamento de quem acha que consegue controlar todas as situações mostraram-nos o lado mais agressivo, arrogante e vingativo relativamente a alguns que dele discordaram, mesmo pontualmente.

António Costa sempre foi implacável na luta política. Mas agora mais parece uma pessoa azeda. O exemplo acabado é Francisco Assis, saneado de Bruxelas, onde foi um ilustre deputado. Ana Gomes (uma ex-fervorosa socrática) é outra figura hostilizada e ainda mais desde que a apontam como potencial candidata a Belém. Maria João Rodrigues e Manuel dos Santos, militantes relevantes do PS, foram também afastados. Outro exemplo esteve no desprezo com que o líder da UGT, Carlos Silva, foi tratado, ao ponto de não querer recandidatar-se ao lugar. Isto sem esquecer Paulo Pedroso, que abandonou o PS depois de a sua proposta de colaboração ativa ter sido olimpicamente ignorada por Costa, embora o ex-ministro seja a pessoa que mais sabe de segurança social em Portugal e um quadro reconhecido mundialmente. A faceta implacável de António Costa já tinha sido exposta na forma como inopinadamente passou ao ataque e apeou António José Seguro e como ignora muitos históricos do PS.

Na política, o declínio dos líderes começa no momento em que se isolam, ignoram os seus correligionários, inventam rivais e criam um núcleo duro onde entram uns e saem outros. Verifica-se isso com o distanciamento gradual que há com Mário Centeno e o protagonismo reduzido que passou a dar a Pedro Nuno Santos, a quem retirou glamour e protagonismo, desde que este se pôs em bicos de pés.

António Costa está numa fase de construção de desconfianças e ruturas. Está também em estado de negação. É-lhe difícil adaptar-se à nova circunstância política. Não faltam exemplos da sua agressividade. O incidente na Praça do Comércio foi mais simbólico por ser público e visar um simples popular. De duas, uma: ou Costa faz um retiro de introspeção e se modifica, ou rapidamente entra em agonia política. Além disso, não tem quem lhe dê respaldo. António Costa nunca quis um número dois e, apesar da qualidade de Ana Catarina Mendes, falta-lhe um braço-direito combativo, aguerrido e hábil como Carlos César, capaz de saltar para a arena sempre que necessário. Aliás, nunca se percebeu muito bem porque é que Carlos César se afastou… certamente que não foi pela possibilidade de aumento do IVA nas touradas.

2. A deputada Joacine, agora já como não inscrita, tornou o suposto antirracismo a sua única afirmação política, não hesitando em utilizar os exemplos mais absurdos e em armar estardalhaços públicos sistemáticos. Só que, no momento em que pode fazer alguma coisa de concreto, não comparece. Foi o caso nos trabalhos da primeira comissão do Parlamento que trata de Direitos, Liberdades e Garantias, onde primou pela ausência aquando da audição da ministra da Presidência, que tutela a área. Justificou-se depois dizendo não ter sido notificada da reunião, quando todos os outros deputados lá estavam. A deputada tem realmente um problema grave de comunicação, como já se tinha visto na relação com os seus parceiros de partido.

3. Lê-se e não se acredita. O Banco de Portugal notificou Tomás Correia com uma contraordenação por atos dolosos alegadamente cometidos no Montepio através de um edital nos jornais, porque não conseguiu encontrar o gestor na sua morada. A diligência é surrealista! Até 31 de dezembro, Tomás Correia estava no Montepio diariamente e tudo o que está na contraordenação já se sabia.

 

Escreve à quarta-feira

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×