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Marvila. A tradição que vai morrer no Poço do Bispo

Marvila. A tradição que vai morrer no Poço do Bispo

Rita Pereira Carvalho 02/02/2020 11:52

A zona de Marvila está a mudar e alguns cafés e restaurantes vão fechar portas nos próximos tempos – uns já este ano, outros em 2021. Os novos projetos trazem uma nova vida à freguesia e aos moradores; no entanto, pouco se sabe sobre isso. Quem mora em Marvila não conhece os novos projetos, mas diz serem “um mal necessário”.

Uma certeza existe: daqui a alguns anos, as zonas de Marvila e do Beato estarão renovadas. As cartas já começaram a chegar ao correio de alguns dos arrendatários dos espaços que, nos últimos anos, deram uma nova vida ao pedaço oriental de Lisboa. Há cafés e restaurantes que fecham portas definitivamente, outros mudam apenas de sítio. Mas há também quem permaneça.

Na Praça David Leandro da Silva, num dos armazéns Abel Pereira da Fonseca – um empresário que promoveu, no século passado, a dinamização desta zona –, no Poço do Bispo, dezenas de crianças e jovens passam, todas as semanas, pela academia Spot Real. Com paredes altas, este espaço é dedicado exclusivamente à prática de parkour e foi o primeiro do género a abrir portas na cidade de Lisboa. A partir de março do próximo ano, os apaixonados por este desporto terão ou de escolher outro sítio, ou de praticar na rua, ou de acompanhar os quatro sócios do Spot Real para um novo espaço. O contrato termina daqui a pouco mais de um ano e o inquilino do armazém, Hilário Freire, disse ao i que “só foi enviada uma carta no ano passado e mais nada”. “Ninguém deu explicações de nada nem disseram o que vão fazer aqui”, acrescentou.

Quando chegaram a Marvila, há cinco anos, os quatro sócios da Spot Real encontraram o interior do pavilhão sem nada. “Tivemos de fazer tudo, investir, e até canalização tivemos de fazer”, explicou Hilário Freire. A carta que guarda na receção diz que, além de terem de abandonar o espaço no próximo ano, têm também de deixar tudo como estava. “Só se voltarmos a destruir”, ironiza.

Durante a reunião da semana passada em que foi apresentado o projeto para a Matinha, nada foi dito sobre o futuro da zona de Marvila. “Não disseram absolutamente nada”, acrescentou o sócio.

Mas, se a academia dedicada ao parkour só muda daqui a um ano, o mesmo não acontece com o restaurante e com o café situados a cerca de 300 metros – em junho fecham portas, definitivamente. Basta atravessar a estrada e, na Rua Fernando Palha, encontra-se o restaurante O Café Velho e a pastelaria A Tasca. Atrás do balcão está José Almeida, um dos sócios do Café Velho: “Não há muito a dizer, vamos sair no dia 30 de junho deste ano”. “Estamos aqui há 39 anos, mas também já estamos cansados”, acrescentou o proprietário do restaurante, que admite estar já na hora de parar e descansar. Por isso, chegaram a acordo com os proprietários do espaço – que é a Fundação Maria Antónia Barreiro, ligada ao Opus Dei – e não vão reabrir noutro sítio. Sobre o futuro daquele espaço, pouco sabem. “Falam do seguimento da Expo para Santa Apolónia, mas não sei mais nada”, disse José Almeida.

O cenário repete-se na Tasca, cujo edifício é do mesmo proprietário. Sebastião Mendes explora o pequeno café há cerca de 25 anos e, depois de fechar a porta no dia 30 de junho, não quer abrir outro. “Tenho pena, mas estão a empurrar-me. Além disso, recebemos uma compensação e não quero ir para outro lado, já são muitos anos disto”, disse o homem, que tem agora 72 anos.

Nem todos os espaços estão a chegar a acordo com os donos dos edifícios, segundo Sebastião Mendes. Na mesma rua há uma oficina “que ainda não chegou a acordo”, disse. Nesta zona há espaços comerciais, mas há também habitações. Sebastião Mendes fala desse assunto e pergunta à funcionária do seu café pelo senhor António. “Ele deve andar por aí, ainda agora passou, e ele também já recebeu a carta para ir embora”, explicou. Nesse momento, o senhor António passa e entra no restaurante ao lado, O Café Velho. Vive em Marvila há 58 anos, tem 72. “A minha mulher nasceu aqui, mas agora temos de sair, não há nada a fazer”, disse ao i. Provavelmente vão sair de Lisboa, mas ainda não é certo. Sobre o que pode ser construído nesta zona, seja habitação, novo comércio ou turismo, a ideia de quem vive em Marvila é que “para os portugueses não vai ficar melhor, nem para os residentes”, disse.

 

Investimento

Ainda na Rua Fernando Palha, mesmo à frente do café e do restaurante que vão fechar e da casa do senhor António, está a Fábrica José Domingos Barreiro, um antigo armazém vinícola fundado no séc. xix. Este edifício era também propriedade da Fundação Maria Antónia Barreiro e foi vendido no início do ano passado por 17 milhões de euros a um fundo de investimento. Ao i, o ateliê Frederico Valsassina Arquitetos confirmou que está encarregado de desenvolver o projeto de arquitetura. “O projeto de licenciamento está em fase de aprovação”, referiu o ateliê, e, por isso, não foi adiantada mais informação sobre os contornos do projeto.

De acordo com as notícias avançadas no ano passado pelo Diário Imobiliário, a nova proprietária é uma empresa chamada Refletecarismas, SA, que conta com três sócios portugueses e um fundo estrangeiro sediado na Suíça. O espaço, que tem uma fachada emblemática, onde foram feitas centenas de anúncios, deverá dar lugar a um condomínio.

 

Futuro da Rua do Açúcar

Já na Rua do Açúcar, o encerramento de alguns espaços parece ser ainda uma incógnita. Por agora, sabe-se que o restaurante de comida chinesa Dinastia Tang encerra já este domingo. O contrato de arrendamento não foi renovado e o negócio teve de encontrar um sítio alternativo, longe de Marvila. O restaurante Dinastia Tang, entre os números 75 e 107, esteve na Rua do Açúcar durante seis anos e vai abrir um novo espaço no Saldanha, com uma cozinha dedicada à comida japonesa. Apesar de fechar no dia 2 de fevereiro, o espaço vai estar aberto até ao dia 6 para vender o recheio a quem quiser comprar. Os proprietários vão abrir um restaurante chinês em Évora.

Também a oficina que fica ao lado da cervejaria artesanal Musa vai encerrar dentro de um mês. O próximo destino é a Bobadela. “Não é muito longe de Lisboa e é mais barato porque, no centro, os preços estão muito elevados”, disse uma das funcionárias. Além de não ser fácil arrendar um espaço em Lisboa, devido aos valores elevados praticados no mercado imobiliário, quem faz negócio em Marvila refere sempre que o investimento futuro nesta zona vai promover a evolução da zona, “mas para os turistas que têm dinheiro”, referiu a funcionária da oficina.

A Musa, um dos espaços que dinamizaram e trouxeram mais pessoas para Marvila – quer pela cerveja, quer pelos concertos –, vê o fim do contrato agendado para o próximo ano, mas ainda não se conhecem mais contornos. Já quanto ao restaurante Aquele Lugar Que Não Existe, o i sabe que ainda não existe acordo com os proprietários dos armazéns e ainda não é conhecida nem confirmada a sua saída.

 

“Um mal necessário”

Quem vive em Marvila e por cá vai continuar tem também uma palavra a dizer, e as opiniões dividem-se. As obras que começaram na Matinha, os novos empreendimentos e o futuro incerto de algumas zonas trouxeram aos moradores de Marvila alguns constrangimentos, mas também algumas perspetivas. As obras que já começaram junto ao rio Tejo obrigaram ao corte da estrada por onde passavam habitualmente os camiões e os transportes públicos. Esse trânsito foi desviado para uma parte da Rua Fernando Palha que, dizem os moradores, não está preparada. “Isso causa muitos constrangimentos todo o dia. A rua não está preparada para este tipo de transportes”, explicou Ana Leal, uma das moradoras. “Para já, tenho uma perspetiva positiva destas mudanças”, disse a moradora, acrescentando que “Marvila parecia outro mundo comparativamente ao Parque das Nações e, neste momento, estamos a assistir a uma melhoria ao nível dos espaços públicos, o que é sempre muito positivo”.

As novas construções trazem esperança aos moradores, que esperam ver a zona mais dinamizada, apesar de admitirem que pode perder as características que sempre teve. “A zona vai perder a sua essência com estas obras, mas de que vale termos essência se não evoluirmos? Este é um mal necessário. Compreendo que haja muita gente chateada por isto desvirtualizar a Marvila antiga mas, se nós queremos ter um mínimo de condições para os nossos filhos, alguma coisa terá de morrer. É um pau de dois bicos, não conseguiremos agradar a todos”, disse Zélia Barbosa, outra moradora de Marvila.

 

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