31/10/20
 
 
Brexit. Entre o otimismo e o luto, o Reino Unido sai da União Europeia

Brexit. Entre o otimismo e o luto, o Reino Unido sai da União Europeia

AFP João Campos Rodrigues 31/01/2020 09:25

Num país profundamente dividido, o Governo britânico promete unir um país que está separado entre o “sim” e o “não” ao Brexit. Mas o processo está longe de terminar. Está quase tudo por definir da futura relação entre Londres e Bruxelas.

Esta sexta-feira, às 23 horas, o Reino Unido põe fim a 47 anos de pertença ao bloco europeu. Enquanto os chamados remainers (ou opositores do Brexit) estão de luto – foram marcadas vigílias por todo o país – muitos brexiteers (ou apoiantes da saída da União Europeia) estão em modo de festa. Ao contrário do pretendido pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, a hora da despedida não será marcada pelo soar do Big Ben: o icónico monumento está em obras, e estima-se que cada badalada custasse cerca de 50 mil libras (quase 60 mil euros). Em vez disso, serão içadas bandeiras na praça do Parlamento, enquanto a fachada de Downing Street, residência do primeiro-ministro, será palco de um espetáculo de luzes. O objetivo é simbolizar a unidade do Reino Unido – apesar da saída ter reforçado as reivindicações dos independentistas escoceses e deixado a Irlanda do Norte com regulações comerciais diferentes do resto do país. Também será projetado um relógio em contagem decrescente até à saída da UE, que dará início a um período de transição de 11 meses. Londres terá de negociar a sua relação com Bruxelas – ou arriscar uma saída não negociada.

“31 de janeiro é um momento significativo na nossa história, dado que o Reino Unido deixa a UE e recupera a sua independência”, declarou em comunicado o Governo britânico, prometendo usar a ocasião para sarar feridas, num país em que o “sim” ao Brexit venceu com curta margem – 51,9% a 48,1% – no referendo de 2016. Se muitos britânicos sentem que na sexta-feira recuperam a soberania – “não sei como vai caber tanta gente no pub!”, disse à BBC, Rob Hancock, dono de um bar em Boston, no Lincolnshire, onde 75,6% apoiaram o Brexit – para outros o sensação é de perda. “O meu companheiro é francês, e sem liberdade de movimento nunca nos teríamos conhecido”, lamentou ao canal britânico Kirsty Law, uma estudante dos arredores de Glasgow, que votou contra a saída da UE, à semelhança de 62% dos eleitores escoceses.

De volta às negociações Após anos de discussão, o impasse no Parlamento britânico foi quebrado pela estrondosa vitória de Johnson nas eleições de 12 de dezembro. Com o mote “concretizar o Brexit”, os conservadores elegeram 365 dos 650 deputados britânicos: a aprovação do acordo de saída da UE, negociado por Johnson, um dado adquirido. Contudo, agora vem a parte mais difícil. “O período médio de tempo para negociar um acordo de comércio é 48 meses”, notou Catherine Barnard, professora de Direito Europeu na Universidade de Cambridge, questionada pelo comité parlamentar para a saída da UE – Johnson tem menos de um ano.

Se muitos remainers aceitam como inevitável o Brexit após as últimas eleições, continuarão a ter de se preocupar com uma saída não acordada. “Continua a ser uma forte possibilidade”, reconheceu esta semana Stefaan De Rynck, conselheiro de Bruxelas para o Brexit, citado pela Reuters, explicando que as futuras negociações serão ainda mais difíceis que as do acordo de saída, alcançado em outubro. Afinal, este apenas assuntos como a compensações que Londres terá de pagar a Bruxelas pelo Brexit, a duração do período de transição – durante o qual o Reino Unido manterá quase todas as regulações europeias – e evita uma fronteira física na ilha da Irlanda. Isto foi conseguindo quando Johnson aceitou que a Irlanda do Norte ficasse sujeita a um regime idêntico ao da República da Irlanda: muitos críticos temem que isso aproxime Belfast de Dublin em detrimento de Londres, pondo em risco a unidade do Reino Unido.

Agora, o que está em cima da mesa são temas tão diversos como a cooperação para a segurança, passando pelos transportes, energia, finança e pescas.

Talvez este último setor seja o mais polémico: há muito que os pescadores britânicos exigem acesso exclusivo às suas ricas águas. Apesar do parco peso na economia britânica, comparativamente a setores como a finança e a indústria, o tema das pescas foi profusamente explorado pelos brexiteers: por exemplo, nos últimos anos multiplicaram-se as fotos de Johnson a segurar em peixes. “As pescas serão a prova dos nove do Brexit”, declarou Nigel Farage, um dos mais notórios proponentes da saída da UE. Mas Bruxelas já deixou claro que o acesso da finança britânica ao mercado único estará ligado ao acesso europeu às águas do Reino Unido. “Os pescadores britânicos terão de aceitar que enquanto venderem 70% do peixe que apanham à Europa, o seu poder negocial não é grande”, avisou à Associated Press o democrata liberal Chris Davies, que encabeça a comissão do Parlamento Europeu para as pescas.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×