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Fleabag. E se a solução fosse falar-se menos de homens e de sexo?

Fleabag. E se a solução fosse falar-se menos de homens e de sexo?

DR Diogo Vaz Pinto 29/01/2020 18:33

Um dia destes, e já não falta muito, as mulheres na ficção não vão falar sobretudo de homens, de sexo ou sequer de romance. Como quem não quer a coisa, Phoebe Waller-Bridge dá um passo firme para escapar a esse engodo.

Ninguém dá explicações no que toca à bandalheira dos decretos, portarias e regulamentos que se acumulam no âmbito do processo social. Todos passamos por apuros mas, olhando em volta, a maioria finge estar a par. Eis o problema: no que respeita à etiqueta e à tão caprichosa enciclopédia da gíria – esses termos que aparecem gingando e furam a fila do vocabulário –, não há a menor complacência. Morre-se sem perceber patavina, mas com um ar de sabedoria capaz de deixar o funcionário da morgue humilhado. Este fica rondando o morto, na hora mais mesquinha, com toda a reverência. E tudo isto porquê? Tantos equívocos e constrangimentos seriam evitados se alguém fizesse a caridade de explicar o termo x, y ou z. Sirva de exemplo o nome da série de que hoje mais vamos ouvindo falar: Fleabag. Que raio significa? Numa tradução de quem nade à cão nestas águas daria “saco de pulgas”; ficaríamos com a imagem de um vagabundo catando sobras no lixo. Afinal, fleabagging é um termo que o site Plenty of Fish – um site de encontros – define como sair repetidamente com a pior escolha de parceiros, percorrer toda a caderneta do inferno em busca da pessoa certa.

Agora que este empecilho já nos saiu do caminho, falemos da série criada por Phoebe Waller-Bridge e que, depois de apenas duas temporadas, ao todo 12 episódios de pouco mais de 20 minutos cada, ganhou um ror de prémios e foi alvo das maiores aclamações, tornando-se tema de conversas, foco de um contágio de tendências... Além de ter assinado um contrato para uma colaboração de três anos com a Amazon, em que – dizem os rumores – Waller-Bridge arrecada 20 milhões por ano, a jovem atriz e guionista inglesa tornou-se a grande sensação em Hollywood. O New York Times exaltou esta comédia sexual que secretamente nos põe diante de uma tragédia moderna e descreveu-a como uma criação selvagem e nova no panorama televisivo que se faz valer de um humor de rapina com efeitos desorientadores. E se Waller-Bridge decidiu que a segunda temporada seria a última, a Amazon pôs o pé na porta na esperança de que a criadora de Fleabag se aperceba que não é todos os dias que se tropeça num enredo original e intimista que cativa uma tão vasta audiência. A própria autora já flirtou com este cenário. Em setembro passado, embalando três Emmys, assumiu que começava a sentir o assédio do mosquedo do remorso por ter determinado um tão precoce fim para a série.

É preciso lembrar, no entanto, que a produção que nos apanhou de surpresa anda com ela desde 2013, tendo começado como um monólogo no Edinburgh Festival Fringe, um evento anual na Escócia que, como o próprio nome indica, lança o fio e busca iscar talentos nas franjas das artes dramáticas. O impacto foi de tal ordem que “deixou uma cratera fumegante com a forma de Waller-Bridge no terreno da comédia”, diz-nos o Times. Foi-lhe pedido que adaptasse a peça para a televisão, e esta estreou na BBC Three, em 2016. E não demorou muito para que os olheiros da Amazon a comprassem, tendo a segunda temporada contado já com apreciáveis recursos – coisa que, de resto, se nota.

Não é muito fácil pôr o dedo nesse ponto sensível que Waller-Bridge descobriu e que aprendeu a pressionar provocando uma sensação que mistura doses invulgares de embaraço e enlevo, uma capacidade de explorar o mais paralisante luto e a sua carga de frustrações, sem deixar de nos fazer rir. Mas há um par de coisas que, à falta de algo mais tangível, têm sido amplamente creditadas como aspetos originais. Primeiro, temos a cumplicidade que a personagem interpretada por Waller-Bridge estabelece com a audiência, olhando para a câmara e dirigindo-se-lhe, num expansivo efeito de marginália que, mais à frente, já na segunda temporada, vai ser rompido. O que pode aparentar ser um atrevido jogo metanarrativo acaba por tornar-se crucial na forma como a série nos enreda, puxa e abusa das nossas expetativas, dando relevo aos elementos mais contraditórios e complexos na hora em que contemplamos o crime e nos torturamos com castigos maiores ou menores. Do saco de pulgas onde nos metemos com vontade de rir vamos saindo com babas estranhíssimas, e a série de comédia vai-nos metendo os dedos na cara e inventando expressões para sensações difíceis de explicar. Em segundo lugar há as triunfantes interpretações que Fleabag, particularmente na segunda temporada, oferece ao elenco secundário. Numa série que, como notou Miguel Esteves Cardoso, faz “uma observação profunda da família, da amizade, do luto e do sexo”, Waller-Bridge sabe distribuir jogo e oferece, mesmo a personagens que não têm mais do que alguns minutos de protagonismo, momentos bastante emotivos e até arrebatadores.

A série escava-se a si mesma, ligando-se a fundos secretos, abrindo uma galeria própria no terreno do humor negro, e ainda que não passe com distinção no teste de Bechdel – o melhor será pesquisarem na internet mas, para abreviar, diga-se que é um repto lançado pela autora de novelas gráficas norte-americana Alison Bechdel, que nos incita a averiguar se uma obra de ficção possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem –, este é um dos melhores desempenhos de uma nova autora para contar a fábula de redenção e crescimento pessoal de uma mulher solteira que consegue refletir de forma crua e às vezes cruel sobre si mesma, enquanto aprende a desvincular-se da pequena encenação e das reviravoltas dramáticas que o sexo oferece como forma de raspar a pele, fingir que se consegue fugir de si mesmo, escapar às tragédias pessoais com a mesma facilidade com que se trocam os lençóis e se areja o quarto.

A MÁ FEMINISTA, OU APENAS UMA PESSOA

Andreia C. Faria traça um perfil de Fleabag que sinaliza a sua importância geracional. 

Fleabag é descarada (à falta de melhor tradução para unapologetic). É egoísta e menos cínica do que descrente. O sarcasmo, a crueza, a inteligência e a autoderisão são aquilo que afasta dela as pessoas, mas também aquilo que a salva de se atolar na culpa e no terror moral (e para o terror moral dos outros, cada um de nós tem apenas a sua pouca dose de paciência). Se juntarmos a isto uma tristeza venenosa, língua afiada, sexo a servir de penso rápido, álcool a mais e desespero, temos a personagem feminina mais desconfortável do universo das séries, mas também a mais gratificante. Fleabag é o típico anti-herói, o caloroso patife que nos habituámos a acolher com ternura e padrões largos quando no masculino. Sendo mulher, insulta (os homens com quem se deita e/ou os espetadores) e assusta (as famílias, a sua e as que assistem), estando por vezes perigosamente perto de ser o bode expiatório de todos eles (“slut”, “mentirosa”) e de si própria (“a greedy, perverted, selfish, apathetic, cynical, depraved, morally bankrupt woman who can’t even call herself a feminist”). Ela é a má feminista, caótica, contraditória, humilhante e humilhada, mais perigosa para as boas consciências do que se escutasse a cada passo a sua própria, mais eficaz por se permitir as falhas e indignidades que reconhecemos como nossas. Assumindo que este ainda é o tempo em que uma personagem tão forte como Fleabag não se pode furtar a ser medida no seu grau de feminismo, diríamos que ela é tanto mais um bálsamo para o feminismo quanto não está muito certa de ser feminista. É-o pela preguiça, pela incapacidade de obedecer a qualquer tentativa de organização mental, pela ausência de filtros, pela candura brutal com que simplesmente se permite ser. Não é fácil simpatizar com a personagem de Phoebe Waller-Bridge. Mas reconhecemo-la, como reconhecemos uma pessoa de carne e osso. O que nela nos atrai, suspeito, é sua verosimilhança, o encarnar com os clichés certos um modo de se perder e encontrar em qualquer cidade europeia, algures no final da década de 2010, com um rasto em breve decrépito de glamour (ou dinheiro dos pais), a juventude prolongada até ao grotesco, uma curva de aprendizagem não muito pronunciada, alguma esperança e contas por pagar.
 

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