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Benfica. A locomotiva vermelha de Mr. Hagan não parava nas estações

Benfica. A locomotiva vermelha de Mr. Hagan não parava nas estações

Afonso de Melo 28/01/2020 21:37

Entre setembro e dezembro de 1972, o Benfica fez a primeira volta do campeonato perfeita: 15 jogos, 15 vitórias! Não ser campeão era impossível. Continuou a avalancha com mais oito triunfos consecutivos.

Aceitemos: melhor é impossível! Assim mesmo, com ponto de exclamação. Discuta-se o que se discutir sobre a melhor primeira volta deste clube ou daquele, fazer o que o Benfica de Jimmy Hagan fez na época de 1972-73 fica para a memória. A i Divisão tinha 16 equipas. Ou seja, 15 jornadas até virar. E 15 vitórias encarnadas. Com uma pedalada dessas, como não ser campeão. E foi! Claro! Com requintes de malvadez. Somou mais oito vitórias na segunda volta. Todas de enfiada. Vinte e três consecutivas: depois empatou nas Antas (2-2). E nas Antas comemorou o título: jornada n.o 25. Ainda concedeu a benesse de outro empate. Na Tapadinha, frente ao Atlético, na penúltima jornada (0-0), o único encontro em que não marcou golos. Total: 28 vitórias, 2 empates, zero derrotas; 58 pontos – mais 18 do que o segundo classificado, o Belenenses, mais 20 do que o terceiro, o Vitória de Setúbal, mais 21 que FC Porto (quarto) e Sporting (quinto); 101 golos marcados, 13 sofridos. No tempo em que as vitórias só valiam dois pontos.

Os Invencíveis O Século Ilustrado foi à Luz fotografar as águias felizes. Chamou-lhes “Os Invencíveis”. E bem! Gente de luxo. Ora vejam: José Henrique e Bento, Malta da Silva, Adolfo, Artur Correia, Nelinho, Matine, Diamantino Costa, António Simões, Vítor Martins, Toni, Messias, Artur Jorge, Rui Jordão, Eusébio, Nené, Jaime Graça, Rui Rodrigues, Vítor Baptista, Shéu e Humberto Coelho. Cáspite! Só em avançados era um luxo sibarítico.

No dia 9 de setembro de 1972, o Benfica abria o campeonato em casa, face ao Leixões. Três golos de Eusébio, dois de Artur Jorge, um de Nené; 6-0. O mote estava dado. Mesmo com uma terrível falta de férias para muitos dos jogadores que tinham estado no Brasil a disputar a célebre Minicopa com a seleção nacional e saíram de lá para uma digressão que levou os encarnados aos Estados Unidos, para um amigável com o Sporting, e à Indonésia. Se estavam cansados, não davam nas vistas.

O velho Eusébio, no esplendor das suas 30 primaveras, e Artur Jorge, quatro anos mais novo, pareciam tomados pelo demo: no Bessa, dois golos para o primeiro e um para o segundo: 1-3. O vendaval vermelho apanhou em seguida o pobre Beira-Mar, que saiu da Luz vergado ao peso de um doloroso nove a zero: Eusébio (3), Jordão (3), Nené, Jaime Graça e Simões. Como resistir a tanta aglomeração de talento, ainda por cima acompanhada por uma vivacidade física que era a marca do inglês Hagan, um fanático pela ginástica? Uma pergunta que ia, semana a semana, ficando sem resposta.

Em Coimbra, contra o União, Adolfo, Toni, Eusébio e Jordão apepinaram a vida de Melo, o Joaquim. Estávamos em outubro. A vítima seguinte foi Damas, o enorme Vítor. Eusébio, seu companheiro e amigo, não teve piedade: marcou quatro golos – 4-1. Se nem o Sporting escapava às goleadas, ficava o povo à espera de quem desse, pelo menos, água pela barba à águia invencível. Não foi o Barreirense, despachado no Manuel de Mello por 0-3: Nené (2) e Humberto Coelho. Nem o Belenenses, espancado na Luz por 5-0: Eusébio (3), Jaime Graça e Simões. Foi o Setúbal de José Maria Pedroto, com os seus rapazes, Octávio, Guerreiro, Mendes, Carriço, Câmpora, Duda, Jacinto João e José Torres. Vítor Baptista, que conhecia bem o Bonfim, resolveu. O Benfica mantinha-se totalmente vitorioso, mas não fora nada fácil. Nada mesmo.

Logo a seguir, outro berbicacho: o FC Porto. Na Luz, o jogo foi rijo. Fernando Riera, o cavalheiro chileno que já passara pelo Benfica, montou um esquema entrançado no futebol habilidoso de António Oliveira, Pavão e Flávio e esteve a ganhar até ao minuto 75 graças aos golos de Abel e de Flávio. Os 15 minutos derradeiros dos encarnados foram devastadores. Vítor Baptista, Jaime Graça e Humberto Coelho supriram a ausência do lesionado Eusébio e deram a volta ao resultado.

O Pantera Negra regressou em Tomar, na jornada seguinte, e fez um golo a juntar ao do desastrado Faustino na própria baliza. Era um comandante a navegar à bolina. Mesmo em momentos de menor fulgor, as vitórias acumulavam-se com naturalidade. Farense em casa, 3-0: Nené (2) e Humberto Coelho. Vitória de Guimarães, 1 - Benfica, 2: dois golos de Vítor Martins, o nosso saudoso Garoupa. Talvez nunca tenha existido em Portugal um plantel tão supinamente caudaloso.

Aproximava-se o final do ano e o final da primeira volta. No dia 3 de dezembro, no Estádio Alfredo da Silva, Eusébio marca o golo solitário que derrota a CUF de Vítor Gomes, Vítor Pereira e Manuel Fernandes. Segue-se, em casa, o Atlético, treinado por outro inglês, Ted Smith, o homem que conduzira o Benfica à vitória na Taça Latina. Eusébio e Simões fazem o 2-0. O dia 17 de dezembro, no Montijo, seria o remate da perfeição. Aos 55 minutos, Eusébio bate o guarda-redes José Martins e confirma a 15.a vitória consecutiva. Lá está: melhor era impossível.

No mesmo dia, um fantástico Belenenses vence o Barreirense no Barreiro por 1-5. Com 22 pontos, são os azuis de Alejandro Scopelli que mais se aproximam dos 30 do Benfica. Concederam seis empates e apenas uma derrota: a goleada na Luz. O Sporting, terceiro, já leva três derrotas. Nada fará parar a locomotiva encarnada de Mr. Hagan.

 

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