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Warhol, Lichtenstein e a epidemia dos prints falsos

Warhol, Lichtenstein e a epidemia dos prints falsos

DR Cláudia Sobral 27/01/2020 22:41

Segundo membro da equipa da polícia de Munique especializada em falsificações de arte, muitas das edições falsas apreendidas provêm de Itália, Espanha e Portugal.

Não custa a acreditar no que se diz sobre as séries de impressões offset de Flowers (1964) ou Marilyn Monroe (1967), de Andy Warhol: que existem mais cópias fraudulentas do que originais. Há um ano e meio, Susan Sheehan, uma negociadora de arte de Nova Iorque especialista em prints de artistas americanos do pós-guerra, comprou duas edições da série Flowers de Andy Warhol por 100 mil dólares (cerca de 90 mil euros) a uma reputada leiloeira alemã. A compra foi feita à distância. “Depois de ter visto fotografias em alta resolução online”, segundo explica, e não obstante a confiança na garantia de uma experiente casa de leilões. “A proveniência era soberba, mas quando recebi os prints fiquei desconfiada. O papel era brilhante. Os números [numeração feita pelos artistas nas edições dos chamados prints] eram demasiado grandes. A superfície das impressões parecia demasiado nova”.

Desconfiada, Sheehan levou as duas edições a duas leiloeiras de Nova Iorque. “Disseram que os prints eram falsos. Atirei-me ao chão”. A história chega-nos, via New York Times, numa altura em que especialistas do mundo da arte estão a alertar eventuais compradores para o aumento do número de impressões que resultam de cópias falsas em circulação. Roy Lichtenstein e Andy Warhol são os dois artistas mais falsificados, seguidos de Paul Klee, Pablo Picasso e Gerhard Richter, bem como Marc Chagall, Joan Miró, Salvador Dalí e Henri Matisse.

No caso de Sheehan, a compra foi feita a uma casa de leilões especializada em obras de arte (segundo contou, o dinheiro acabou por lhe ser restituído ao cabo de uma espera de seis meses), mas o terreno em que este mercado de prints falsos mais tem proliferado é o da internet.

Tanto que o Ebay, a Etsy ou a Amazon, as três principais das grandes plataformas onde a venda de exemplares falsos encontram terreno fértil para a propagação, emitiram já comunicados em que garantem que têm vindo a tomar medidas no sentido de identificar eventuais fraudes. Apresentadas como verdadeiras, as falsificações chegam a ser vendidas por dezenas de milhares de euros. Numeradas, assinadas e, em vários casos, acompanhadas de certificados de autenticidade.

E aqui começam a detetar-se as falhas. Sabe-se, por exemplo, que Picasso raramente se dava ao trabalho de assinar as edições de impressões. Ou que Roy Lichtenstein, de que muitas edições falsas têm andado a ser vendidas com certificados, nunca fez acompanhar as edições que vendia de certificados de autenticidade. Outras formas de deteção de cópias falsas passam pelo tipo de papel utilizado, bem como o seu estado. Mas, em muitos casos, só uma comparação com um original permitirá detetar a diferença.

E é Lichtenstein precisamente, ao lado de Andy Warhol, Paul Klee e Pablo Picasso, um dos artistas mais falsificados no último grande episódio de fraude identificado – no caso, em Basileia, cidade suíça que acolhe uma das mais conceituadas feiras de arte do circuito internacional. Segundo as autoridades suíças, um especialista em arte local vendeu, ao longo dos últimos dez anos, centenas de prints falsos que alegava serem da autoria daqueles artistas.

Já em 2008 a Reuters se debruçava sobre um caso muito semelhante. “Olhe melhor para esse print de Picasso que comprou no Ebay”, lia-se no início do texto então publicado. Dessa vez, depois de ter sido desmantelada uma rede de contrafação de prints que, entre 1999 e esse ano, vendera milhares de falsas edições de Picasso, Miró e Dalí. “Milhares de pessoas vão descobrir que... compraram [uma edição] falsa”, disse na época àquela agência o procurador Patrick Fitzgerald, de Chicago, onde tinha ocorrido o caso. Entre os acusados estavam então dois indivíduos norte-americanos, um espanhol e dois italianos.

Também aí, as falsas edições – com assinaturas e certificados de autenticidade forjados – tinham sido vendidas por valores que ascendiam aos 50 mil dólares entre galerias e sites como o Ebay. As cópias, oriundas de Espanha e de Itália, tinham sido produzidas numa escala tal que, segundo Fitzgerald, um dos burlões terá mesmo chegado a avisar outro em conversa de que era necessário cuidado para não inundar o mercado com demasiadas cópias.

Outro dos casos mais mediáticos ocorreu em 2017, em Nova Iorque, quando três homens foram acusados de vender, segundo o ArtNews, prints falsos de Damien Hirst.

Compras online agravaram o problema Mais ou menos rocambolescas, de histórias de falsificações está repleta a História. A evolução da tecnologia, que permite chegar a cópias cada vez mais perfeitas, combinada com o mercado digital, têm contribuído para o que os agentes legais descrevem ao New York Times como um agravamento do problema, tanto na Europa como nos Estados Unidos. A popularidade dos prints – designação genérica para as reproduções em séries limitadas de uma obra, quase sempre numeradas pelo artista, por meio de um conjunto de técnicas que podem ir da gravura à litografia ou às xilogravuras – entre os falsificadores de arte explica-se facilmente pela facilidade de reprodução. E pelo facto de poder ser feita em série – isto apesar de, em muitos casos, os artistas destruírem, após a reprodução da série original, as placas ou matrizes utilizadas.

As falsificações são, no caso dos prints, também mais difíceis de detetar do que em obras de pintura, por exemplo. Além disso, tratando-se de edições das quais existem habitualmente dezenas, por vezes centenas, de edições, os preços não são tão elevados como os de obras únicas e a fraude torna-se, pelas duas razões, mais difícil de detetar pelos eventuais compradores.

Ouvido pelo diário norte-americano, Timothy Carpenter, agente supervisor da equipa de crimes no mundo da arte do FBI, afirma que o aumento das vendas de arte online veio agravar um problema que sempre existiu. “Antigamente era preciso encontrar uma forma de fazer [as edições falsas] entrarem no mercado, mas isso mudou com o e-commerce”. Em Nova Iorque, o jornal ouviu também Ted Feder, presidente da Sociedade dos Direitos de Autores norte-americana, que tem uma pessoa dedicada a navegar pela internet à procura de prints falsificados. “Acontece todos os dias a Adrienne enviar uma notificação para deitar abaixo um website”.

Como prova o caso de Basileia – e havia provado já em 2008 a extensão da rede desmantelada em Chicago a território espanhol e italiano –, o problema não é exclusivo dos Estados Unidos nem da Suíça. Ao New York Times, um agente da Polícia do estado da Baviera que em Munique se dedica a investigar falsificações de obras de arte voltou a mencionar Itália e Espanha como os países de onde provêm boa parte das falsificações, mas juntou-lhes um outro: Portugal. “Nos últimos anos confiscámos centenas de falsificações que os burlões e os negociadores diziam ser da autoria de Lichtenstein, Georg Baselitz, Picasso e de outros que vinham de Itália, de Espanha e de Portugal”.

O problema, segundo os especialistas, é que, no caso dos prints, também a probabilidade de regresso ao mercado depois de detetados é, ao contrário do que sucede com outras obras, muito elevada – a não ser que sejam, de factom apreendidos pela polícia. “Normalmente não desaparecem”, segundo Hubertus Butin, historiador de arte que está a preparar um livro sobre este tema. “Depois de serem descobertos, de alguma maneira acabam por encontrar o seu caminho de volta para a circulação no mercado da arte”.

 

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