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Alexandra Duarte 27/01/2020
Alexandra Duarte

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Os livros que não li

Há quem diga que são os livros que nos escolhem. Que há livros que nos obrigam a tropeçar neles para serem lidos por quem precisa das palavras que encerram, como se se tratasse de uma mensagem.

Um bom livro pode mudar uma vida, assim como pode marcar um tempo de quem o leu. Há sempre um que fica na nossa memória mais afastada e de que, por alguma razão, nos recordamos com especial gosto e saudosismo.

Se perguntarmos a um jovem sobre a obra preferida, a resposta mais comum recai sobre uma leitura obrigatória durante o percurso escolar, deixando pouco espaço para respostas mais criativas de outras obras que pudessem ter sido descobertas aleatoriamente. Este indicador confirma-nos, por si só, que andamos a ler o indispensável e obrigatório, de forma a cumprirmos os planos curriculares. Mais do que isto é uma excecionalidade.

As leituras escolhidas acompanham as várias idades que vamos tendo e derivam diretamente de um estado de espírito que comunga com o livro que nos aparece pela frente. Há quem diga que são os livros que nos escolhem, em vez de sermos nós. Que há livros que nos obrigam a tropeçar neles para serem lidos por quem precisa das palavras que encerram, como se se tratasse de uma mensagem. E é muito isto: um livro conta uma história que se pode tornar a nossa própria história.

E não precisam de ser romances ou dramas reais. Qualquer livro, mesmo os que são técnicos e assumem uma linguagem mais precisa, e são escritos por especialistas sobre um tema em concreto, podem ser a chave para uma situação da vida real do leitor.

Os livros dão-nos muitas respostas, quase tantas como as interrogações que surgem depois de uma leitura. Obrigam-nos a pensar sobre os temas abordados, originando nos nossos neurónios várias ligações que permitem descodificar a leitura, adaptando-a aos nossos conhecimentos e experiências.

Há histórias simplesmente fabulosas pela sua simplicidade e descrição da grandiosidade humana, quase sempre acompanhada de relatos de mesquinhez e de ganância. Os grandes escritores clássicos esmiuçaram esta vertente da natureza humana, em vários cenários, descrevendo uma pluralidade de relacionamentos possíveis entre pessoas: desde familiares aos de amizade, vizinhança, amorosos, religiosos, profissionais. Podemos mesmo encontrar romances históricos ou contos que retratam a ausência de relacionamentos, incidindo sobre a solidão ou focando a vida espiritual de personagens complexos que dispensam a presença de outros personagens na construção do enredo.

Parte da nossa própria definição pode advir das leituras que fizemos e fazemos. O porquê de tais seleções e a razão de alimentarmos a nossa curiosidade sobre determinado tema podem denunciar as intenções do leitor e pôr a descoberto os seus interesses, como se estivéssemos perante uma ficha técnica daquele que lê.

Desde pequena que encontro na leitura um momento de prazer solitário que me preenche e dá consolo. A importância de ler foi-me ensinada pelos conteúdos dos livros e como uma forma enriquecedora de aproveitar o tempo. Devorei todos os volumes de Os Mistérios de Agatha Christie numas férias de verão; apaixonei-me pelos deuses e semideuses, primeiro, da mitologia grega e, quando iniciei a aprendizagem de latim, da mitologia romana; li e reli o Siddharta, de Herman Hesse, e a curiosidade levou-me a ler o Kama Sutra – um livro sobre o amor e relação entre o homem e a mulher nas suas diversas dimensões. Da minha meninice recordo a história da Maria da Lua, As Histórias do Avozinho e os mais variados contos de fadas, além dos contos dos irmãos Grimm. Mais tarde chegou a curiosidade pelos livros de época, biografias e manuais das relações internacionais, da diplomacia e da ciência política. E hoje delicio-me com livros que vêm parar às minhas mãos ou por mãos alheias, ou numa conversa improvisada ou num impulso espontâneo de entrar numa livraria e percorrer as estantes, como se estivesse numa farmácia à procura de um remédio para uma maleita. Por outras mãos chegaram às minhas A Biografia do Silêncio e O Animal Social, escolhi o Sapiens, de Noah Harari, adotei como manual O Livro das Pequenas Revoluções, segui a recomendação de ler, já tarde, A Paixão do Jovem Werther. Algumas destas leituras, não pensaria em fazê-las há uns anos, mas hoje fazem todo o sentido e são como que vitaminas para o meu espírito e para o subconsciente. Alimentar o nosso subconsciente é tão indispensável quanto a importância que damos ao nosso consciente, o testa-de-ferro das nossas decisões, mesmo aquelas que não conseguimos explicar – talvez porque estas emanam do nosso subconsciente sem que tenhamos essa perceção.

Não há dia em que não converse com os meus filhos sobre a relevância da leitura para o cumprimento das suas metas curriculares mas, acima de tudo, como fonte de sabedoria para a construção de caráter. Um adolescente que cresça a ler sobre Ulisses, o herói grego que valorizava a família; que compreenda o enaltecimento que Sócrates fez da verdade; que aprecie a fúria guerreira de Aquiles e a sua estratégia beligerante, cedo se familiarizará com valores e princípios virtuosos que, hoje em dia, dificilmente encontrará retratados com tanta mestria em publicações do dia-a-dia.

Os valores de hoje são diferentes dos que já foram consagrados. Os livros servem para manter presentes histórias que simbolizaram a vitória das virtudes e do esforço sobre as fracas qualidades do ser humano. Uma história bem contada traz esperança, mesmo quando invoca períodos negros da nossa História, porque termina no dia a seguir à derrota do mal.

Claro que o guião não é sempre o mesmo. Recordo que o jovem Werther se matou por um amor não correspondido e que este final foi doloroso para o leitor que se apercebe da incapacidade do apaixonado para gerir algo tão avassalador como o amor. Somos levados a crer que corremos o risco de ser capturados por este sentimento que nos pode enredar e levar à loucura, com a mesma simplicidade com que nos eleva à euforia e à felicidade.

Constato que desde o meu tempo de escola, em que me eram recomendadas leituras, no essencial foram introduzidas poucas alterações nas sugestões. O que me coloca algumas reservas, uma vez que os jovens de hoje não partilham os nossos interesses e têm centralidades muito diferentes das que eu tinha. Certamente que um clássico será sempre um clássico, independentemente da época em que foi escrito, porque o que importa é o seu conteúdo e narrativa. Não coloco em causa Eça, Camões, Pessoa, Júlio Verne, Homero, Dostoievski, entre outros tão preciosos quanto estes. Mas questiono por que razão não terão sido introduzidas outras referências de leitura mais contemporâneas que pudessem ser catalisadoras de motivação para a leitura daqueles alunos que bocejam sempre que pegam num livro.

Quando temos mais de 40% da população que não lê um livro há mais de seis meses, quando caímos no ranking da avaliação da literacia literária dos alunos do 4.o ano e quando estamos perante a exclusão do livro da nossa rotina em detrimento de outras ocupações do tempo que não acrescem valor aos nossos jovens, então passamos a ter a certeza de que já não é uma tendência que se observa, mas sim uma certeza e constatação de um problema de facto.

Já dizia Russell Lowell que os livros são abelhas que levam o pólen de uma inteligência para outra.

 

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