26/2/20
 
 
CDS-PP. Depois de Cristas quem é o senhor que se segue?

CDS-PP. Depois de Cristas quem é o senhor que se segue?

Bruno Gonçalves Joana Marques Alves 23/01/2020 17:08

O 28.º congresso do CDS-PP realiza-se este fim de semana. Serão debatidas 23 moções e será eleito o novo líder do partido. Enquanto uns assumem uma postura mais moderada, outros preferem acabar com os tabus e seguir uma posição mais extrema. João Almeida é o nome que, até agora, soma mais apoios, mas cada candidato tem os seus trunfos. Filipe Lobo d’Ávila representa um corte com a linha de Assunção Cristas, Francisco Rodrigues dos Santos o avanço da juventude na política, Abel Matos Santos o regresso de uma corrente mais conservadora e Carlos Meira a aposta no interior do país.

João Almeida

Começou a interessar-se pela política quando ainda era miúdo, mas cedo percebeu que não iria a comícios com o pai, que era de esquerda. Tinha apenas 17 anos quando se inscreveu na juventude centrista - foi sozinho ao Largo do Caldas e garante que não foi pressionado por nenhum amigo ou familiar a integrar o partido. Acabou por tornar-se presidente da Juventude Popular em 1999, função que assumiu até 2007. 

Foi crescendo dentro do CDS-PP: começou como deputado municipal em São João da Madeira, depois foi adjunto de Maria José Nogueira Pinto na Câmara Municipal de Lisboa, acabando por, em 2002, entrar na Assembleia da República como deputado.

Ao longo dos anos, integrou várias comissões e esteve envolvido em vários casos importantes, como o inquérito ao BPN, e as relativas à tragédia de Camarate e à recapitalização da Caixa Geral de Depósitos. Em 2015, foi secretário de Estado da Administração Interna do Governo de Passos Coelho.

Dos cinco candidatos à liderança do partido, é o mais próximo da linha assumida até aqui - era porta-voz da direção liderada por Assunção Cristas. Assume as suas responsabilidades nos maus resultados obtidos, mas acredita ter experiência suficiente para liderar o partido. 

“Cheguei ao partido muito antes de Assunção Cristas e até antes de Paulo Portas, e trabalhei com todos os presidentes com a mesma lealdade, sempre dizendo o que penso e apontando internamente as eventuais divergências. Apresentei moções globais nos três últimos ciclos de liderança, dizendo sempre o que pensava. Nunca virei as costas ao meu partido, sempre colaborei dando o meu melhor pelas ideias que defendo. Conheço bem o partido e tenho a experiência suficiente para liderar o CDS-PP neste momento crítico”, disse numa entrevista ao SOL.

Fora da política, é conhecido por ter sido presidente do Belenenses. Agora, está mais ligado ao hóquei em patins, na Associação Desportiva Sanjoanense. 

Filipe Lobo D'Ávila

É visto por muitos como o menino rebelde do CDS - uns acreditam que essa é a rebeldia que falta ao partido, outros preferem apostar na segurança e manter o status quo.

Filiado no CDS desde os 18 anos, começou os trabalhos como deputado na Assembleia da República em 2009. Ao longo dos anos pertenceu às Comissões Parlamentares de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias como suplente e dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas e em 2013 estreou-se em funções governativas, assumindo o cargo de secretário de Estado da Administração Interna, antes de João Almeida.

Em 2018, depois de manifestar a sua discordância face à liderança de Assunção Cristas, decidiu despedir-se do Parlamento. Na altura, Lobo d’Ávila disse: “Dar um passo em frente é também olhar para dentro do partido e reconhecer a divergência de opiniões, é acabar com pequenos poderes dentro do CDS e é saber que o CDS não se faz apenas no largo do Caldas, mas faz-se em todo o país, muitas vezes com muitos sacrifícios de militantes anónimos”.

À luz destes acontecimentos, ninguém encarou com surpresa o anúncio da sua candidatura à liderança do CDS-PP. Assumindo uma postura conservadora, com medidas como a reversão gradual da lei do aborto, defende que o partido deve reforçar a sua identidade, demonstrando de forma clara que caminho seguirá, tentando levar todos consigo. 

“O CDS deve afirmar-se como partido da direita democrática e moderada. Deve procurar ter a máxima força que permita contribuir para uma mudança de Governo. (...) Deve ter um discurso credível dirigido a todos. Um partido de futuro tem que ter ambição de ter muito mais do que 2% no eleitorado jovem e tem que ter a maturidade de perceber que a experiência e o conhecimento da ‘velha guarda’ é sempre essencial. O equilíbrio é sempre preferível ao corte”, disse ao SOL. 

Longe da luta partidária, joga ténis duas vezes por semana no Estádio do Jamor. O seu clube do coração é o FC Porto.  

Francisco Rodrigues dos Santos

Ainda não tinha 30 anos quando começou a dar nas vistas - ‘Chicão’, como é conhecido, filiou-se na Juventude Popular em 2007 com apenas 19 anos e  no CDS-PP, em 2011 aos 23. Quatro anos depois, chegou à liderança da juventude centrista, cargo que ainda hoje ocupa. 

Fora do partido, foi eleito membro da Assembleia de Freguesia de Carnide, posição que assumiu entre 2012 e 2017. Foi também Vice-Presidente do IYDU - International Young Democrat Union.

Em 2018, foi considerado pela revista Forbes um dos “30 jovens mais brilhantes, inovadores e influentes da Europa”, graças ao trabalho que desenvolveu à frente da Juventude Popular.

Mas pelo meio deste caminho brilhante, também foi somando polémicas: desde o comentário irónico sobre a cor da pele de António Costa para falar sobre a violência à porta da discoteca Urban Beach (“O karma vingou-se. Urban foi barrado de Lisboa por um tipo moreno de ascendência indiana”) à defesa do ensino da abstinência sexual, ‘Chicão’ é conhecido por não ter medo de dizer o que pensa, doa a quem doer. “O CDS deve ser uma direita que não tem problemas em ser disruptiva, uma direita que não tem medo de ser inconveniente, de atentar às vezes contra o establishment, contra algumas elitezinhas de esquerda gourmet, socialista, bem pensante”, disse ao SOL.

No dia-a-dia, este conservador trata os amigos por camarada. Um hábito que vem, provavelmente, dos oito anos que passou no Colégio Militar como aluno interno.  E mais: é fã de José Afonso. “É uma das minhas referências musicais. Gosto muito de música de intervenção. Claro que não subscrevo a mensagem política subjacente àquele tipo de musicalidade, mas a verdade é que gosto muito”, disse ao Público. 

Abel Matos Santos

Foi o primeiro a anunciar uma candidatura à liderança do CDS-PP, logo na noite das eleições de 6 de outubro, depois de Assunção Cristas apresentar a demissão devido aos fracos resultados eleitorais. Mas Abel Matos Santos vai mais longe: o seu objetivo não é apenas “romper” com o legado de Cristas, mas sim com a linha que tem sido assumida nos últimos 20 anos. É fundador do TEM - Tendência Esperança em Movimento, uma corrente de opinião democrata-cristã do CDS, e conselheiro nacional do partido.

Psicólogo de profissão, as suas opiniões polémicas já são conhecidas há muito tempo. “Estudos mostram que os homossexuais têm mais doenças e sofrem mais”, escreveu numa opinião publicada em 2016. 

Nunca teve medo de dizer o que pensa, por mais fraturante que o tema seja. E é precisamente essa postura que quer que o CDS-PP assuma. “É importante assumir as bandeiras certas, reunir o apoio dos portugueses e criar condições para sermos a grande casa da direita em Portugal. Não podemos ser um projeto credível de poder, sem antes sermos um projeto credível de defesa de ideias, causas, valores e princípios. É preciso afirmar um CDS de direita, sem complexos, afirmativo e convicto”, disse ao SOL. E essa posição convicta é assumida por Matos Santos em vários pontos da sua moção, como a defesa da revogação da lei do aborto, a restrição das situações de divórcio unilateral e o fim da adoção de crianças por casais homossexuais. Fora da política, é psicólogo no Hospital de Santa Maria, em Lisboa - foi da equipa de Daniel Sampaio - e é fã de corridas de toiros.

Carlos Meira

Surgiu na corrida à liderança do CDS-PP como o desconhecido, mas a verdade é que a sua ligação à política já vem de trás.  Aliás, no último congresso do partido, frisou que era neto “de um antigo deputado da União Nacional, Dr. Joaquim Nunes de Oliveira, e é esse nome que quero honrar”. 

Natural de Viana do Castelo, Carlos Meira assume-se como o candidato que quer dar voz ao interior do país. “Sou o único cuja candidatura não é proveniente de Lisboa. Esta candidatura surge com o propósito de demonstrar ao partido e a Portugal que não basta nas campanhas eleitorais falar-se em descentralização, falar-se do interior e dos territórios de baixa densidade. Esse discurso tem também que ter aplicação prática na organização do partido. Esta é uma candidatura vinda quase da Galiza, do Minho Alto, que pretende ser a voz dos que não têm voz no interior do partido”, disse numa entrevista ao SOL o ex-presidente da concelhia do CDS-PP de Viana do Castelo.

Militante do partido desde os 19 anos, Meira mostra-se desiludido com o rumo do partido. “O CDS vive hoje na bancarrota política, na bancarrota financeira, na bancarrota patrimonial, são factos, por muito que nos custe... Foi uma autêntica descida aos ‘infernos’. E na política, tal como na vida empresarial, os resultados espelham uma gestão e os resultados foram desastrosos”, defendeu. 

É comparado por alguns dos seus opositores com Tino de Rans, mas isso não o apoquenta: “é um gosto ser comparado ao meu amigo Tino. Antes ser apelidado de Tino, do que pouco honesto, pouco sério, corrupto, boy, ex boy, ou de nomeador”, escreveu na sua conta no Facebook.

Nos tempos livres, o empresário gosta da arte esquestre e de participar nas romarias tradicionais da sua terra. 
 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×