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Carlos Gouveia Martins 23/01/2020
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

O futuro cada vez mais presente da hospitalização domiciliária

Cientificamente falando, segundo diversos estudos científicos credíveis (e disponíveis para consulta), a taxa de mortalidade de quem fica em casa é 24% inferior ao que acontece em meio hospitalar.

Esta semana, precisamente na passada terça-feira, mais um conjunto de hospitais assinaram a carta de compromisso com o Ministério da Saúde para avançarem com a hospitalização domiciliária. Já existe, é certo, em cerca de 20 hospitais portugueses a contratualização com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) nestes referidos moldes.

Mais longe do que as linhas de uma qualquer carta de compromisso ou mais forte que a missão proposta para este ano nessa matéria, a atual Ministra da Saúde garantiu ao país que a hospitalização domiciliária estará em todos os hospitais do SNS em 2021. Grande ambição, mas é esse o caminho que a saúde e a inovação tecnológica percorrem todos os dias e, sobretudo, é esse o percurso natural trazido por um aumento da esperança média de vida e pela consciência participativa dos doentes neste último século.

Este aumento da esperança média de vida, associada ao envelhecimento da população portuguesa, potencia a prevalência das doenças crónicas e representa um problema transversal ao nosso sistema de saúde mas também da generalidade de todo o mundo ocidental. Há uma clara sobrelotação dos serviços de urgência e consequentemente uma solicitação crescente do número de camas hospitalares.

Como resposta a esta verdade de La Palice, têm-se desenvolvido diversas alternativas ao internamento convencional. Para os especialistas, a solução passa pela hospitalização domiciliária, qualificada e estudada como uma opção de qualidade, segura, eficaz e de custo-efetivo relevante.

Regressando às palavras ministeriais desta semana, e mesmo antes dessa meta dos 100% de hospitais do SNS como possibilidade de resposta na domicialização hospitalar dos doentes, ficou a promessa de até ao final deste 2020 chegar-se a mais dez hospitais que irão disponibilizar serviços de hospitalização domiciliária.

“Centenamente”, é importante referir que, para a meta deste ano, o Governo previu em Orçamento do Estado disponibilizar a verba de um milhão de euros que se destina exclusivamente para a contratação dos recursos humanos destas referidas equipas. Veremos se chega mas pelo menos teremos um padrão para anos futuros.

É sempre importante incorporar números revestidos de história para percebermos do que falamos. Falamos de muitos hospitais, falamos de muitos portugueses e também diz a ciência que falamos de muitas condições e condicionantes.

Pelo princípio, mesmo que não seja cá “dentro”, temos de recuar sete décadas.

A hospitalização domiciliária nasce como conceito e é logo batizada nos Estados Unidos da América pelo nome de “Home Care”, sendo comumente aceite como datada de 1947. Esta experiência tinha um propósito muito simples: visava (ainda é atual 73 anos depois) descongestionar os hospitais, em primeira instância, e em igual escala pretendia criar um ambiente psicológico mais favorável para o doente.

Uma década depois desse início, em 1957, este conceito bem-sucedido que a América criou chega à Europa. É num hospital francês que é dado o pontapé de saída do dito “Home Care” no nosso Velho Continente.

Já no século XX, decorria o ano de 1996, o Comité Regional da Europa da Organização Mundial da Saúde promoveu o desenvolvimento do “Hospital para Cuidados de Saúde”, também conhecido como “hospital em casa”, seguindo o já antigo modelo americano que hoje nada mais é que a hospitalização domiciliária.

Agora, “cá dentro”. A hospitalização domiciliária surge em Portugal apenas em 2015, com a primeira experiência a ser realizada no Hospital Garcia de Orta. Atualmente estão em funcionamento, por todo o país, 19 das 23 unidades que foram contratualizadas com o SNS em outubro de 2018.

Mas quem são estas pessoas e porque são abrangidas? A hospitalização domiciliária é, por definição, um modelo de assistência hospitalar direcionado para a prestação de cuidados no domicílio a doentes agudos em situações cujo as suas condições biológicas, psicológicas e sociais o permitam. Estatisticamente, o público-alvo está numa população maioritariamente idosa e com elevada prevalência de doenças crónicas.

E humanizando a matemática das pessoas, que significam estes hospitais todos do nosso SNS em peso populacional? Pelo SNS, encontram-se em hospitalização domiciliária mais de 3.000 portugueses desde outubro de 2018. Portanto, num ano e pouco, é esse o número que hoje temos em cima da mesa.

No entanto, vejamos como esta vontade nacional e ministerial – seguramente apoiada por todos os quadrantes políticos e suportada por vários quadrantes da saúde – tem potencial para abranger bem mais do que os atuais 0,03% da população portuguesa.

Numa primeira fase, ou seja, num curto prazo temporal de 2 a 3 anos, é estimado que se passe de 3.000 para perto de 8.000 doentes/ano a serem acompanhados em regime de hospitalização domiciliária. A partir daí, natural que assim seja, este número cresce. Entre 3 a 5 anos estima-se que este número dispare para 20.000 doentes/ano. E, num período temporal maior, entre 7 a 10 anos, segundo a ambição do responsável pela dinamização da hospitalização domiciliária nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, poderá alcançar-se o meio milhão de pessoas em hospitalização domiciliária.

Falamos do acréscimo claro, é tão só como passar de 0,03% para 5% da população nacional.

Cientificamente falando, segundo diversos estudos científicos credíveis (e disponíveis para consulta), a taxa de mortalidade de quem fica em casa é 24% inferior ao que acontece em meio hospitalar. Existe ainda a validação científica de uma maior satisfação dos doentes com taxas de internamento mais baixas e menos infeções.

Com um curto tempo de análise a nível nacional, mas com várias décadas de estudo noutros países que dão tarimba aos nossos resultados, podemos afirmar que a hospitalização domiciliária nos estabelecimentos hospitalares do SNS apresenta resultados muito positivos ao nível da inovação e da modernização.

Atualmente já há hospitais que telemonitorizam o doente desde sua casa, a todo o instante e em tempo real, em que os dados e parâmetros clínicos são rigorosamente seguidos por uma equipa clínica hospitalar. Como exemplo, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) divulgou que a avaliação a doentes com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) telemonitorizados mostrou uma redução de 50% de internamentos e de 30% de idas à urgências, comparativamente a doentes não telemonitorizados.

Há paralelamente uma evolução estratosférica no mundo da imagiologia que é acompanhada a um ritmo alucinante pelos dados digitais que dão corpo ao que se vê “à distância”. Há a inteligência artificial como suporte à decisão clínica. Há uma infinidade de avanços tecnológicos que dão uma cor de esperança muito forte ao bom evoluir da prestação de cuidados de saúde de futuro.

Consequentemente, assim esperamos, porque esse é o próximo passo, a melhoria na qualidade de acompanhamento médico de cada doente. À distância de um clique. De uma imagem. De um som. De uma pulseira ou de um smartphone.  

Hoje é fácil assumirmos que a sinergia entre os profissionais de saúde, o doente e a sua família em condições psicológicas favoráveis aliados à tecnologia das multinacionais com responsabilidade no setor da saúde desenvolvem um claro modelo potenciador de uma melhoria da acessibilidade aos cuidados de saúde. Em conjunto, reduzem as complicações inerentes ao internamento convencional e da envolvência psicossocial do doente durante o período de internamento. É a chamada “humanização dos cuidados” no seu estágio primário.

Mas estes evidentes ganhos em eficiência e em qualidade levam-nos a outro ponto de análise: À base transversal que suporta o porquê da hospitalização domiciliária.  

Neste referido “ponto” chegamos a cinco princípios fundamentais de suporte: Voluntariedade na aceitação deste modelo (1); Igualdade de direitos e deveres do doente (2); Equivalência de qualidade na prestação dos cuidados (3); Rigor na admissão de doentes e no seu acompanhamento clínico (4); Humanização de serviços e consequente valorização do papel da família (5).

Financeiramente, que também conta e até poderia ser um outro ponto de suporte a juntar aos anteriores 5, apontamos para que entre 40% a 60% dos doentes internados em hospitais sejam candidatos possíveis para o modelo de hospitalização em casa. Se formos rigorosos, justos e honestos, podemos afirmar também que (e só por alto) assim se irá gerir melhor o erário público e que poder-se-á poupar ou reajustar milhões de euros que servirão, por exemplo, para reforçar a sustentabilidade do SNS.

O futuro caminha numa estrada em que a inovação científica e tecnológica responde às perguntas de um setor da saúde evoluído, responsável e em que o doente conta cada vez mais. 

Platão deixou escrito que “a necessidade é a Mãe da inovação” e em pleno 2020 é certinho que todos os dias iremos necessitar de novas respostas ao que a Saúde e os Doentes anseiam. Que se percorra este caminho porque o futuro dá-nos muita esperança na inovação que aí vem.

Carlos Gouveia Martins

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