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Sporting-Benfica. Quando a águia caiu no novo covil dos leões

Sporting-Benfica. Quando a águia caiu no novo covil dos leões

DR Afonso de Melo 17/01/2020 10:20

23 de dezembro de 1956: pela primeira vez no velhinho Alvalade, o Sporting recebeu o Benfica para a 14.ª jornada do Campeonato Nacional. Estreia abençoada para os leões que há dois anos não venciam o rival.

Se todos os dérbis são especiais, uns são mais especiais do que outros. Uma frase que Orwell não desdenharia de ter escrito, não se desse o caso de ser já da sua autoria, embora envolvendo suínos. No dia 10 de junho de 1956, frente ao Vasco da Gama, do Brasil, o Sporting atraíra mais de 60 mil pessoas para assistirem à inauguração do Estádio José Alvalade, projeto de uma nobre figura chamada Anselmo Fernandez que, não contente por ser apenas arquiteto, ainda conduziu os leões, como treinador, à conquista do seu único troféu europeu, a Taça das Taças de 1964. Pouco mais de seis meses mais tarde, era altura de o Benfica ficar a conhecer o novo covil das feras.

Um trânsito caótico começou a tomar conta do Campo Grande no final da manhã. Gente aos magotes. Não 60 mil, como no Verão, mas mais de 45 mil. Acrescente-se que, na festa da inauguração, muitos ficaram de fora, a amaldiçoar a sua sorte. Talvez isso tenho temperado algum excesso de voluntarismo.

Era favorito o Benfica. Afinal ainda não tinha sido derrotado até aí, viria mesmo a ser campeão. Ganhou o Sporting e foi difícil até que os encarnados conseguissem ir ganhar ao novo recinto leonino – tiveram de esperar até 1963. O golo da vitória (1-0) foi, no mínimo, caricato, para não cair no grotesco. Logo aos 17 minutos. Coluna decidiu-se por um remate, à sua maneira, de fora da grande-área. A violência foi de tal ordem que Carlos Gomes sacudiu a bola com os punhos e ela sobrou para Martins. Calado reclamou: para ele, saíra pela lateral e era lançamento a favor do Benfica. Inocêncio Calabote, o árbitro, nem lhe prestou atenção. Calado ficou por ali, de braço no ar, a ver Martins dar para Pompeu e este ir à linha de fundo centrar para Hugo que surgiu num repente pelo meio de Ângelo e Alfredo. Bastos desesperou-se. Não teve outro remédio senão ir buscar a bola ao fundo da baliza.

Alvalade estralejou de palmas, ouviram gritos de contentamento.

Mas ainda havia muito tempo para que as coisas não ficassem como estavam. Palavra aos encarnados.

Sem descanso. O primeiro dérbi de Alvalade teve tudo o que os adeptos podiam desejar. Vá lá: menos os golos. E, no entanto, poderiam ter sido muitos mais. Houve um anulado a Martins, por carga sobre Bastos. Pompeu e Hugo tiveram oportunidades flagrantíssimas. À media que o tempo ia passando, os encarnados perceberam que tinham de dar corda aos sapatos. A pouco e pouco começaram a tomar conta dos acontecimentos, ocupando os espaços com mais razoabilidade, forçando o adversário a recuar na proteção da sua baliza.

Carlos Gomes era um guarda-redes enorme. Não apenas em tamanho. Era de um descaramento divino, como dizia o Alencar do Eça. Conseguia ser dono dos ângulos, atirava-se de cabeça a qualquer bola que rondasse com perigo a zona pela qual se considerava responsável, e tinha uma visão muito particular da amplitude dessa zona já que saía com frequência fora da grande-área, substituindo-se aos seus defesas. O público encantava-se com a sua protérvia. Ei-lo que surge a roubar uma bola dos pés de Cavém, a opor-se a uma cabeçada de José Águas, a desesperar Salvador que parecia já convencido do golo do empate.

Não havia descanso sobre a relva. Não havia descanso para Carlos Gomes, obrigado a esticar-se como um gato para contrariar as ganas de Coluna. Mas Bastos também não podia perder a concentração. Martins, Gabriel, Pompeu e Hugo rondavam a baliza do Benfica, pareciam falcões esfomeados, ainda por cima continuamente acicatados pelos gritos dos aficionados verde e brancos.

Nas Antas, os radinhos a pilhas levavam boas notícias. A derrota encarnada, a juntar à vitória do FC Porto sobre o Torreense, atirava os nortenhos para o primeiro posto. O campeonato iria ficar excitante como nunca. Ainda por cima porque o Benfica tinha de ir à Invicta na segunda volta. Não me venham dizer que a história não se repete. O que não se repete é a vida. Hoje à noite, pelas 21h15, também haverá portistas cruzando os dedos e fazendo promessas por uma vitória leonina, e quanto mais leonina para eles melhor. Mas para que a vitória do Sporting sobre o Benfica valha alguma coisa, é preciso que o FC Porto bata o Braga, em casa (19h00). A esperança azul floresce verde para os lados do Campo Grande. As casas de apostas esfregam as mãos.

 

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