26/1/20
 
 
Carlos Zorrinho 16/01/2020
Carlos Zorrinho
opiniao

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Há “petróleo” por todo o lado. E agora?

As novas aplicações que incorporam inteligência e capacidade de aprendizagem podem ser a chave para resolver muitos dos grandes problemas e dilemas da humanidade.

 

É comum dizer-se que os dados são o petróleo do futuro. Com a brutal aceleração tecnológica que os permite captar, armazenar, combinar e utilizar para dar tração aos algoritmos inteligentes e com capacidade de aprendizagem, podemos dizer que há “petróleo” por todo o lado, mas isso não é necessariamente uma boa notícia. O petróleo, ele próprio, foi um fator de criação de riqueza e de progresso, mas em muitos territórios provocou ruturas sociais, desigualdades e conflitos, tendo o seu uso abusivo contribuído também para o aumento de emissões que deterioram a qualidade do ar e provocam alterações catastróficas no clima, na biodiversidade e na sustentabilidade do planeta.

Será pouco inteligente se a humanidade cometer com os dados os mesmos erros que cometeu com o petróleo, mas se não alterarmos os fundamentos éticos e políticos no seu uso e exploração, o egoísmo e a predominância do interesse privado sobre o bem comum acabarão por conduzir-nos a um fim similar e em realidade aumentada.

As novas aplicações que incorporam inteligência e capacidade de aprendizagem podem ser a chave para resolver muitos dos grandes problemas e dilemas da humanidade. Tudo depende da forma como forem utilizadas, dos valores que nelas foram incorporados e dos padrões de análise e interpretação que depois serão copiados e recriados automaticamente. 

A União Europeia (UE) é, pela sua natureza, um concorrente global diferenciado no uso dos dados como fator de riqueza e desenvolvimento. Os requisitos democráticos nos processos de tomada de decisão contribuíram para um arranque tardio na exploração e na utilização e para um investimento público relativamente minguado quando comparado com outras potências. Tem, por isso, de apostar agora não na quantidade de dados, mas na sua qualidade, assegurada pela forma como são obtidos e pelo uso que lhes é dado.

Ilustrando as ideias antes expostas num domínio em que a interação homem/máquina e o uso dos dados levantam mais oportunidades e ameaças, a resolução recentemente aprovada pelo Parlamento Europeu sobre a transição digital na saúde é um bom exemplo de um trilho que, a ser bem percorrido, pode levar a UE a ter uma vantagem comparativa na nova sociedade digital, resultante da perspetiva humanista que inspira os seus valores partilhados.

Embora a saúde não seja uma política comunitária, a transição digital ajudará a tornar cada vez mais importante a colaboração na formulação das respostas. O programa Digital Europa 2021/2027, em que represento o Parlamento Europeu no processo negocial em nome do Grupo Socialista e Democrata (S&D), focado na computação de alta performance, na inteligência artificial, na cibersegurança, na interoperabilidade e na capacitação, e incorporando um escrutínio ético, terá na saúde uma aplicação evidente.

Mas uma aplicação que, segundo a recomendação do Parlamento Europeu antes referida, deve ser transparente, focada nas soluções para as pessoas e na generalização da prevenção e do acesso às melhores respostas, respeitando a privacidade dos indivíduos.

O “petróleo” assim extraído será bom “petróleo”. Valerá mais no mercado do futuro. Brincar com os dados é mais perigoso que brincar com o fogo.

Eurodeputado

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