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Mal-entendido ou golpe? A história do livro polémico de Bento XVI

Mal-entendido ou golpe? A história do livro polémico de Bento XVI

AFP Marta F. Reis 14/01/2020 21:59

Defesa do celibato chega amanhã às bancas. Papa emérito pediu alterações, mas mantém reflexão. 

Está previsto que chegue esta quarta-feira às bancas em França depois de já ter feito correr muita tinta. O livro Des Profondeurs de Notre Coeur, com um texto de Bento XVI sobre a importância do celibato, foi visto com uma quebra do compromisso de silêncio do Papa emérito desde que renunciou à liderança da Igreja Católica em 2013 – e uma tomada de posição numa altura em que é esperada a decisão de Francisco sobre a proposta do sínodo da Amazónia para que possa ser permitida a ordenação de homens casados em regiões mais remotas, onde não há sacerdotes suficientes. Instalada a polémica, Bento XVI pediu para que o seu nome fosse retirado do destaque na capa, em que aparecia como coautor ao lado do cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto e a Disciplina dos Sacramentos, e também da assinatura da introdução e conclusões. Mas o texto fica e há pontas soltas na história.

Sarah, nos últimos dias debaixo de fogo, garante que a obra foi feita em obediência filial a Francisco. E escreveu no Twitter que em edições futuras o nome do Papa emérito aparecerá em segundo plano, o que sugere que para já o título vai mesmo assim para os escaparates. Num comunicado emitido ontem, o cardeal que tem feito a sua defesa na rede social, onde inclusive publicou três cartas do Papa emérito, reiterou no entanto que Bento XVI deu aval ao livro e revelou mesmo que o Papa lhe enviou o seu texto durante o sínodo da Amazónia.

O cardeal começa por dizer que foi a 5 de setembro, depois de uma visita ao mosteiro onde vive Bento XVI, que escreveu ao Papa emérito a perguntar-lhe se seria possível escrever um texto sobre o sacerdócio, em particular sobre o celibato. Nessa ocasião, revela ter-lhe dito que imaginava que pudesse pensar que as suas reflexões poderiam não ser oportunas dadas “as polémicas que provocariam nos jornais”, argumentando, porém, que a Igreja precisava desse “dom” – e prevendo a publicação do mesmo texto por altura do Natal ou início de 2020. Na volta do correio, a 20 de setembro, relata, Bento XVI indicou-lhe que já começara a escrever, mas não se sentira com forças para um texto teológico. Mas a carta de Sarah tê-lo-ia incentivado a iniciar um novo documento. O cardeal diz que a 12 de outubro, quando o Papa emérito lhe enviou a reflexão, constatou que dado o volume e qualidade, não seria possível a publicação num jornal ou revista, propondo um livro. O respetivo manuscrito terá sido enviado a Bento XVI a 19 de novembro, segundo Robert Sarah já com capa, introdução e uma conclusão “comuns”. A 25 de novembro, teve o ok de Bento XVI: “Pela minha parte, o texto pode ser publicado como imaginou”. Esta carta, na qual Bento XVI parece satisfeito por poder transmitir os seus pensamentos sobre o sacerdócio, foi uma das que o cardeal guineense divulgou no Twitter. 

Silere non possum! Os primeiros excertos foram avançados pelo jornal Le Figaro e um dos trechos da introdução, que aparece assinada pelos dois, foi lido como um dos mais contundentes: “Nos últimos meses, quando o mundo ressoava com o tumulto criado por um estranho sínodo dos media que tomou precedência sobre o sínodo real, encontrámo-nos. Trocámos as nossas ideias e preocupações. Orámos e meditámos em silêncio. Cada um dos nossos encontros confortou-nos e acalmou-nos mutuamente. (...) Podemos dizer: ‘silere non possum! Não posso ficar em silêncio”, escrevem, citando Santo Agostinho. É nesta introdução que o nome de Bento XVI terá sido usado indevidamente, o que Sarah admitiu, embora considere ter sido alvo de uma polémica “abjeta” e perdoe a todos os que o caluniaram e quiseram opor a Francisco.

Mal entendido, recuo ou marketing – a editora Fayard promove o livro como tendo sido escrito a quatro mãos quando os documentos publicados por Sarah mostram que não foi o que aconteceu, mesmo que Bento XVI possa ter dado a sua concordância – o incidente causou mal estar no Vaticano e as versões continuam a não ser totalmente coincidentes. Georg Gänswein, secretário particular do Papa emérito, confirmou ter pedido a Sarah para contactar os editores, pedindo-lhes que retirem o nome de Bento XVI como coautor. Diz que o Papa emérito sabia do livro, mas que não aprovou um projeto que fosse assinado conjuntamente nem tinha visto nem autorizado a capa: “Foi um mal-entendido, sem questionar a boa fé do cardeal Sarah”.

Quanto ao celibato propriamente dito, Bento XVI considera que é “indispensável” e que uma vez que um homem casado é devotado à família e “servir a Deus” exige a mesma devoção, “não parece possível ter as duas vocações em simultâneo.” Matteo Bruni, porta-voz da Santa Sé, recordou esta semana a posição de Francisco, lembrando as palavras do Papa na viagem de regresso do Panamá: “Não estou de acordo com permitir o celibato opcional. Haveria qualquer possibilidade apenas nos lugares mais remotos; penso nas ilhas do Pacífico... [...]. Haveria necessidade pastoral, e o pastor deve pensar nos fiéis”. No final do sínodo, a proposta de permitir a ordenação de homens casados, de virtude reconhecida, foi vista como uma maior abertura da Igreja ao tema, sendo que Francisco já disse também que o celibato não é um dogma.

John Allen, conhecido vaticanista e editor do site católico Crux, notou que tanto Sarah como Bento XVI estão do mesmo lado e admitem exceções limitadas, salientando que o Papa emérito foi mais longe do que qualquer outro quando permitiu a padres anglicanos que se convertem ao catolicismo manterem as suas famílias. “Penso que isto é menos sobre Papa versus Papa do que sobre campos rivais na Igreja que tentam explorar ambos os Papas.” 

O mito dos dois papas Há também quem defenda que a polémica pôs sobretudo a nu o problema dos ‘dois Papas’ e as divisões no Vaticano, uma discussão que deverá ir além do livro. “Há um grande erro na capa: este não é um livro de Bento XVI. É um livro escrito por um emérito. Teria sido mais apropriado publicar como Joseph Ratzinger”, disse o teólogo Kurt Martens. “O lado bom desta opereta barata é que fica claramente demonstrado que a questão do [Papa] emérito não funciona”, comentou ao Washington Post Ulrich Lehner, teólogo da Universidade de Notre Dame. Já num texto sobre o “mito da autorregulação da instituição do Papa emérito”, o teólogo Massimo Faggioli considera a intervenção uma forma ilegítima de pressão sobre o único Papa. “Independentemente de quais sejam as reais intenções de Ratzinger, tornou-se parte de uma narrativa em que os tradicionalistas querem ‘defender’ o celibato enfraquecendo a unidade da Igreja”.

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