23/2/20
 
 
Livraria da Travessa. Uma embaixada para leituras clandestinas

Livraria da Travessa. Uma embaixada para leituras clandestinas

Diogo Vaz Pinto 13/01/2020 10:49

A Livraria da Travessa abriu há alguns meses em Lisboa e, num tempo sujeito à fúria da desaparição, tornou-se um eixo vibrante na ligação com o Brasil. Além da beleza do espaço e do excelente acervo, a importância do livreiro parece ter voltado a adquirir relevo.

Nas relações culturais entre Portugal e o Brasil, e particularmente no que toca aos livros, persiste desde há décadas um inexplicável fosso burocrático, frustrando as boas hipóteses de se estabelecer um pacto salvaguardando essas espécies que, através da língua, mantêm relações familiares entre vidas e épocas. “Temos uma só seiva e uma raiz só,/ Façamos que haja trocas entre nós”, escreveu Pound, reclamando irmandade com um gigante mal enterrado (Whitman). Na língua portuguesa, pelo contrário, por mais que o génio se empenhe em parir algum colosso, qualquer esquife manhoso serve para entregá-lo ao olvido. E é bastante ténue o rastro dessas expedições para reatar laços a um nível mais profundo do que esse hábito de ir à cama depois de atabafar o juízo com telenovelas. Sobram convénios de letra morta, comemorações tão espalhafatosas quanto inócuas, já se perdeu a conta às embaixadas de escritores enviadas num sentido ou no outro, e os prémios ou as “comendas analfabetas” são apenas o mais saliente aspecto desses modelos de “oficial masturbação” (José Cardoso Pires).

É natural, por isso, que a chegada a Lisboa da Livraria da Travessa tenha sido celebrada como se uma nau extraviada há séculos houvesse retornado, já não com ouro, mas livros, de um Brasil que nunca traiu a sua promessa de exuberância. Numa altura em que as livrarias se extinguem, em que uma fúria de desaparição arranca às zonas nobres da cidade esses territórios onde se conjurava o olvido, era de esperar que a chegada de um grupo que tem já outras oito livrarias espalhadas pelo Brasil produzisse um certo encantamento. No número 46 da Rua da Escola Politécnica, no bairro do Príncipe Real, encontramos desde maio do ano passado um espaço de 300 m2, várias salas montando um enredo em que os títulos logo fogem à homogeneidade das livrarias de centro-comercial, dominadas pelas novidades – “essa miséria dos livros contemporâneos, das livrarias sem história; um encontrar facilmente, entrando, pagando, indo embora” (Daniele Del Giudice).

Tudo começou no subsolo O charme desta livraria não se fica pela grande oferta de títulos editados no Brasil e noutros países, há um convite do próprio lugar, no desenho do espaço, que foi projetado pela arquitecta brasileira Bel Lobo (que com o marido, Bob Neri, tem projectado as livrarias no Brasil, sendo ambos sócios da Travessa) e do arquiteto português Pedro Barata. Além do percurso, de uma organização dos temas e áreas que procura um diálogo, estende cadeiras ao visitante, há a beleza que contrasta com essa forma de espetáculo de derrota e precariedade a que assistimos nas livrarias que resistem hoje como meros depósitos, onde os livros parecem estar de castigo, como monos, sem aprumo nenhum, a aguardar um eventual resgate.

À frente da rede de livrarias está Rui Campos, um livreiro que nasceu em Belo Horizonte (Minas Gerais), e que explicou ao Público que a Travessa se mantém, apesar de tudo, uma empresa pequena e familiar, e se tem vindo a crescer, lembra que a faturação em 2018, no conjunto das livrarias, não foi além de 70 milhões de reais (15 milhões de euros). Ao invés de dar ênfase ao negócio, Rui Campos tem preferido lembrar como tudo começou, em 1975, numa livraria com poucos metros no subsolo de uma galeria no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro. Chamava-se Muro, e conseguiu tornar-se um local de encontro de intelectuais e de resistência nos tempos da ditadura militar. Depois de a livraria ter fechado, em 1986, um ano após o fim da ditadura, Rui Campos abriu outra no centro da cidade, na Travessa do Ouvidor. É daí que lhe vem o nome. Mas este passo imenso que foi preciso para atravessar o Atlântico, fixando uma embaixada literária, não partiu de Campos mas sim do empresário português Rui Gomes Araújo. Trineto de brasileiros, o fundador da Casa Pau Brasil – que fica logo no número ao lado da livraria, o 42, e que comercializa produtos e marcas brasileiras de design, cosmética, moda, decoração –, percebeu a vantagem de carregar o contorno cultural daquela casa comercial. Sendo cliente habitual da Livraria da Travessa no Rio, onde diz ter-se reunido com muitas das marcas que estão na Casa Pau-Brasil, Araújo sabia como uma boa livraria é muito mais do que um espaço de onde se entra e sai depois de satisfeito um desejo banal. Na sua “silenciosa irradiação”, o propósito de uma livraria é alargar esse desejo, fazê-lo perder-se nela, achar-se outro. E é assim que, na corrente invisível que estabelece, com as suas ilhas de livros à escuta, as livrarias pretendem ser labirintos de sedução. No livro de ensaios que Irene Vallejo dedica ao culto dos livros, El infinito en un junco, a autora lembra como o pai se ia afundando nas livrarias de que mais gostava como se estivesse a cavar numa mina. Mas ao mesmo tempo que a livraria lhe dava a possibilidade de “praticar a sua paixão de mineiro dos livros”, também lhe abria a possibilidade de “manter longas conversas, cheias de meandros”. E Vallejo acrescenta: “Eu, então muito nova, escutava aquelas lentas trocas, fluviais, estranhas e indecifráveis como conjuros. Falar, parecia-me, era o objectivo da existência adulta”.

Alguns meses depois de abrir em Portugal, a Livraria da Travessa adquiriu já um certo prestígio, e, além de atrair os turistas, mesmo dos nativos vai merecendo uma especial atenção, e resta agora saber se, com o tempo, criará uma comunidade menos transitiva. Afinal, a medida do impacto das livrarias traduz-se nesses “campos magnéticos que criam nas ruas e bairros onde se estabelecem”. Isto diz-nos Vallejo, e cita o livreiro Paco Puche, fundador das livrarias Proteo e Prometeo, que, no seu Memoria de librería, lembrava que “não se pode medir o efeito que tem uma livraria na cidade que a acolhe, nem a energia que transmite às suas ruas ou aos seus habitantes. Desde logo, de pouco vale falar em números de clientes e vendas, ou de facturação, porque o influxo que uma livraria tem numa cidade é subtil, secreto, inapreensível”.

Tínhamos já estado outras vezes na livraria da Travessa, e mesmo no dia em que abriu portas, mas para quê participar na típica efusividade com que estes projetos hoje são acolhidos para, muitas vezes, só voltarem a ser lembrados quando encerram as portas. Para quem vê de fora, cada vez mais se aplicam às nossas livrarias os célebres versos de Pessoa – “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,/ Não há nada mais simples./ Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte”.

“uma profissão de grande dignidade” E se no acervo que a Travessa nos propõe não faltam caminhos que se bifurcam, e se os livros ali têm margem para nos puxar a manga, sussurrar a quem passa, pedir essa senha de um manuseio que faz desencadear a trama de “ecos suaves e crepitantes de toda a memória desconhecida”, quisemos também ouvir a nova gerente da livraria, Paula Lourenço, que em novembro substituiu Ana Reis-Sá e Lúcia Penteado. A responsável, que tinha já estado à frente das livrarias Bookhouse, tendo também passado pela Bertrand, estando há 20 anos ligada ao setor do livro, destaca na experiência que a Travessa traz do Brasil “o cuidado absoluto no atendimento”. “Eles falam em ‘acolhimento’, que é uma palavra mais forte”, sublinha Paula Lourenço, referindo que “a sala de entrada funciona como um hall de recepção”. “Isso só faz algum sentido se as pessoas que estão a receber forem livreiros. Na nossa equipa, todos somos livreiros. Infelizmente, em Portugal, não há a carteira de livreiro, como acontece noutros países, como França, Espanha, Inglaterra… É uma profissão de uma grande dignidade, e cujos conhecimentos demora um longo tempo a adquirir”.

Se hoje não falta quem reconheça a importância desse “ofício milenário” que é o do livreiro, e o quanto ganham as livrarias que estão nas mãos dessas sentinelas que garantem que estas “vibram com o nervo do presente, que são líquidas, que dialogam com o seu tempo, e chegam mesmo a ser espaços perigosos” (Vallejo), não basta, contudo, encher aqueles que se dedicam a este arriscado ofício de louros. É preciso reconhecê-lo não os pagando como um qualquer trabalhador sem especiais qualificações. O i falou com Claúdia Marques, uma livreira que trabalhou durante seis meses na Travessa de Lisboa, sendo depois dispensada, sem uma justificação formal, e soube ainda de uma outra livreira que também já não está ligada ao projeto. Além de acusar a livraria de “sacanagem” pela forma como o vínculo laboral foi quebrado, ficando alguns valores por pagar, Claúdia assegura que o salário de base praticado é o salário mínimo. Isto, com a excepção de dois livreiros que ganham mais porque já tinham alguns anos de casa, tendo trabalhado nas livrarias no Brasil. Depois de terem emigrado nos últimos, tiveram a oportunidade de continuar o seu ofício quando surgiu a oportunidade de abrir esta nona livraria deste lado do Atlântico.

Esta é uma dessas questões em relação às quais, curiosamente, ninguém indagou. Vieram a lume os números sobre a faturação desta rede livreira, mas, enquanto Rui Campos garantia que a alma da livraria são os livreiros, e que os sócios investem muito na sua formação, a questão de saber se esse trabalho, essa dedicação e risco, é justamente recompensado, parece secundária. Talvez seja apenas um aspecto inconveniente, que suscita demasiado pudor. Além do que, se a conversa nos levar por aí, há o perigo de, entre o heroísmo e a fantasia que caracterizam os discursos à volta destes ‘templos’ culturais, se acharem os sinais de uma contradição insanável: a de que todo o livreiro hoje está condenado a ser uma espécie de mártir, ouvindo repetidamente que o seu empenho e dedicação são essenciais, que sem ele perder-se-ia algo de absolutamente valioso, mas, chegando ao final do mês, a história é outra.

“Engraçado. No Brasil, a Travessa paga melhor aos seus funcionários, mas chegou cá e percebeu que nas livrarias portuguesas era prática comum pagar-se o salário mínimo, e toca de fazer o mesmo”, disse ao i Cláudia Marques. “É, de facto, uma empresa diferente, que trata os livreiros com a dignidade que merecem.”


 

ERA UMA VEZ NA TRAVESSA

Um testemunho de Cláudia Marques, ex-funcionária da casa

Quando me comunicaram que não me renovariam o contrato na Livraria da Travessa, eu estava a uns dias de entrar de férias. A notícia não se fez acompanhar de justificação formal e em cinco meses (o contrato terminava ao fim de seis), eu não ouvira um só reparo por parte da gerência a qualquer aspecto do meu trabalho. A surpresa era total. Tendo argumentado isto mesmo junto dos sócios da livraria, estes responderam-me com o clássico “não és tu, somos nós” – a decisão nada tinha que ver comigo, de quem sempre tiveram a melhor impressão, mas fora necessário reduzir a equipa. Uma resposta hipócrita, ou não tivessem de seguida contratado outra pessoa, por sinal, romanticamente ligada a uma figura da literatura portuguesa simpática à casa. Nada de novo no jardim à beira-mar plantado. E lá fui eu de férias, sabendo que quando regressasse, não teria mais emprego. (Só para chatear, curti imenso – obrigada pela preocupação.)

Mas o melhor da sacanagem ainda não se anunciara: estava eu de regresso a Portugal, no meu último dia de férias, quando me telefonaram para me dizer que eu estava dispensada de fazer a semana e meia que me restava até ao fim do contrato e que me pagariam na mesma. O recibo desse mês chegou para me dizer que eu fora enganada: pagaram-me apenas o salário base, valor ao qual deveria acrescer os do subsídio de alimentação, do subsídio de turno, das horas nocturnas e do abono para falhas correspondentes aos dias de trabalho que eu teria feito (e que estava disponível para fazer) se não tivesse sido dispensada pela generosíssima entidade patronal – a mesma que me dizia agora que eu perdera o direito aos mesmos porque não fora trabalhar. A mesma que acrescentou que eu deveria entender este período de dispensa como uma espécie de prolongamento das férias. Como se as férias não tivessem de ser pagas.

E foi assim que, em Outubro de 2019, eu me vi sem trabalho e uma transferência bancária abaixo do salário mínimo.

É comovente pensar na falta de espinha dorsal de quem tem algum poder para exercer. Por que valor arrisca a Livraria da Travessa ver o seu nome manchado? Milhares de euros? Não, uma ninharia. Para eles, pelo menos.

A Livraria da Travessa é especial? A gerência defende que sim, porque nela todos são livreiros, mas livreiros à séria, pessoas com conhecimentos profundos e permanentemente actualizados sobre livros, sobre as mais diversas áreas, sobre os mais diversos autores, sobre os mercados editoriais, sobre os livros enquanto objectos – e remata que o livreiro é uma profissão de grande dignidade. Mas depois pagam-lhes o salário mínimo. Engraçado. No Brasil, a Travessa paga melhor aos seus funcionários, mas chegou cá e percebeu que nas livrarias portuguesas era prática comum pagar-se o salário mínimo, e toca de fazer o mesmo. É, de facto, uma empresa diferente, que trata os livreiros com a dignidade que merecem. 

Para que a Livraria da Travessa inaugurasse na data anunciada, uma equipa de 6 livreiros aceitou trabalhar 9h por dia durante dias a mais (oito, nove, dez). Trabalho físico e desgastante, a carregar e a desempacotar caixas envoltos no pó das obras, encarado por todos como um sacrifício necessário para que pudéssemos gozar da normalidade que se seguiria. Durante seis meses, aguardei pela normalização de uma série de questões, mas dei por mim n’A Fábrica de Nada, em auto-gestão, a sentir que tudo o que dizia respeito aos funcionários estava irremediavelmente remetido para o fundo das prioridades, seis meses à espera que alguém, uma alma que fosse, numa empresa que tem uma cadeia de livrarias a funcionar no Brasil, fizesse um horário decente e bem feito para uma equipa de seis livreiros em Portugal. Acabei por sair da livraria sem que isso acontecesse. Primeiro, faziam-nos os horários uma semana de cada vez, impedindo-nos de planear por completo a nossa vida; depois, chegaram a propor-nos que trabalhássemos dez dias seguidos para que toda a gente pudesse folgar um fim-de-semana por mês, como era nosso desejo; houve ainda um período, durante cerca de dois meses, em que fizemos 48h semanais, em claro incumprimento com o nosso contrato (aguardamos, até hoje, o “parecer jurídico” dos advogados da Travessa sobre o modo de compensação pelas horas trabalhadas a mais). Durante meses, os livreiros procuraram activamente resolver o problema da escala – quando não era essa a sua função, nem a sua competência – e várias das soluções esboçadas por nós foram implementadas face à ausência de propostas da gerência. 

Se aguentei o barco durante tanto tempo, foi porque fui acreditando em quem me garantia que “esta empresa não é assim”, que todo este caos a que me sujeitei e que transtornou a minha vida durante meses (para terem uma ideia, a mudança de casa que eu deveria ter feito em Maio, só foi completada em Setembro) decorria mais de uma inabilidade superável, do que de qualquer espécie de má-fé ou despreocupação negligente para com os funcionários da casa. 

Felizmente, quanto a isso, estamos hoje muito mais esclarecidos. 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×