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Irão. Em vez de “morte à América” gritou-se “morte aos mentirosos”

Irão. Em vez de “morte à América” gritou-se “morte aos mentirosos”

AFP João Campos Rodrigues 12/01/2020 20:05

Após Teerão encobrir o abate acidental de um avião, com 176 pessoas a bordo, descontentamento substituiu as demonstrações de apoio ao regime iraniano.

Quando centenas de estudantes se juntaram à porta das universidades de Sharif e Amir Kabir, em Teerão, este sábado à noites, em memória dos 176 mortos na queda do voo 752, abatido acidentalmente por mísseis iranianos, rapidamente a vigília se transformou em protesto. Depois de dias de negação, o seu Governo acabou por admitir o seu “erro desastroso”, nas palavras do Presidente iraniano, Hassan Rouhani. As autoridades colocaram nas ruas a polícia de choque, este domingo, perante mobilizações por todo o país. Em vez dos habituais cânticos de “morte à América”, ouviram-se gritos de “morte aos mentirosos”, mostram vídeos divulgados nas redes sociais, verificados pela Times. Muitos pediam a demissão do Supremo Líder, o aiatola Ali Khamenei, que está no poder desde 1989.

Recorde que, esta quarta-feira, na noite do desastre, os sistemas antiaéreos de Teerão estavam em alerta máximo, temendo a retaliação pelo ataque com mísseis balísticos iranianos a bases militares norte-americanas no Iraque, lançado horas antes. Segundo o general  Amir Ali Hajizadeh, líder da divisão aeroespacial da Guarda Revolucionária iraniana, um operador agiu sozinho, confundindo o avião ucraniano com um míssil de cruzeiro, quando este regressava ao aeroporto de Teerão, devido a um problema mecânico.

“Ele tinha 10 segundos para decidir. Podia decidir disparar ou não, e perante as circunstâncias tomou a decisão erra”, declarou Hajizadeh, perante as televisões iranianas, no sábado de manhã. O operador “estava obrigado a comunicar e fazer verificações, mas aparentemente o seu sistema de comunicações teve alguns problemas”, acrescentou o general, desabafando que “desejou estar morto” após saber do sucedido.

Fica por saber de porque é que o Estado iraniano negou tão veementemente ter abatido acidentalmente o avião: um porta-voz das Forças Armadas chegou a descrever as suspeitas como uma “grande mentira”, parte de uma campanha de “guerra psicológica dos EUA”. A admissão de culpa surgiu apenas após os investigadores ucranianos - equipados com a experiência da queda do voo MH17, abatido sobre a Ucrânia em 2014, por separatistas russos - acumularem provas do abate do voo 752.

“Esta foto mostra a parte atingida pelo míssil”, descreveu Oleksiy Danilov, líder do Conselho de Segurança Nacional ucraniano, enquanto mostrava fotos a um repórter da BBC. “Atingiu o cockpit por baixo”, acrescentou, explicando que foi por isso que os pilotos não comunicaram o impacto. “Morreram imediatamente”.

 

Revolta Nas redes sociais também é notório descontentamento entre os iranianos, que perderam 82 compatriotas, junto com 63 canadianos, 11 suecos, quatro afegãos, quatro britânicos, três alemães e 11 tripulantes ucranianos. “Nunca perdoarei as autoridades do meu país, as pessoas que estavam no local e a mentir”, escreveu um utilizador do Twitter. Já o ministro nos Negócios Estrangeiros iraniano, Mohammad Javad Zarif, tweetou: “Erro humano num momento de crise, causada pelo aventureirismo dos EUA, levou ao desastre”.

O caso arrisca diluir as enormes demonstrações de unidade nacional, após a morte do general Qassem Soleimani, alvo de um drone norte-americano em Bagdade, há menos de duas semanas - foi o gatilho para os ataques com mísseis iranianos a bases dos EUA. Se então centenas de milhares de iraniano saíram às ruas, exigindo vingança, este domingo os protestos voltaram a ser contra o regime, como em novembro, quando mais de 300 manifestantes foram mortos, segundo a Amnistia Internacional.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, já deixou o recado no Twitter: “Não pode haver outro massacre de manifestantes pacíficos ou disrupções da internet. O mundo está a observar”. Entretanto, até o embaixador britânico no Irão, Rob Macaire, chegou a ser detido durante três horas após participar numa vigília: a violação da sua imunidade diplomática já levou a críticas de Londres.

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