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Manuel J. Guerreiro 10/01/2020
Manuel J. Guerreiro

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Transportes públicos e o inevitável conformismo lusitano

Convido o Governo a andar de comboio entre as 7 e as 9 horas da manhã acompanhado da sua comunicação social do costume e não em horários adequados ao mero show off televisivo promotor da habitual propaganda política, para terem noção real daquilo que fazem sofrer os cidadãos com a sua absoluta inacção política quanto aos transportes públicos da área metropolitana de Lisboa.

Um dos sintomas da sociedade que mais me perturba é o conformismo. Porque, politicamente, é de todos eles, aquele que mais jeito faz ao poder político e mais prejudica as pessoas e põe em causa o progresso social e a evolução da cidadania. É o clássico e tão popular "comer e calar".

A propósito disso, anda tudo muito calado com os transportes públicos na Grande Lisboa. O que só poderá nos levar a questionar se, porventura, já não haverá quaisquer problemas nos mesmos e se tudo o que ocorreu há pouco tempo está definitivamente ultrapassado e resolvido?

Pois lamento muito afirmar que não. Nada está resolvido quanto ao tema dos transportes públicos da capital. Apenas o povo utente está conformado com o seu trágico funcionamento, conforme tenho testemunhado pessoalmente.

É simplesmente aflitivo ver o que se passa todos os dias de manhã na linha de Sintra. Desde estações como a de Sta. Cruz / Damaia tomada há anos e anos por toxicodependentes heroinómanos que ali 'vivem' praticamente e fazem tudo a céu aberto, perante a amedrontada indiferença das pessoas que por ali passam e sem que ninguém se ache competente para resolver aquele flagelo e problema sério de saúde pública a que estão sujeitos os cidadãos residentes e utentes, numa zona, aliás, com muitas crianças e uma escola primária bastante conhecida por servir de assembleia de voto em eleições...

Conformismo? Pois eu não me conformo!

Nem a Refer, nem a CP, nem a PSP, nem a Junta de Freguesia das Águas Livres, nem a Câmara Municipal da Amadora, nem o Governo, nem a Oposição (eleita). Nada nem ninguém quer saber de coisa nenhuma do que ali se passa todos os dias e a toda a hora.

Reclamar para quaisquer destas entidades sobre este assunto é um acto totalmente inútil já praticado por várias pessoas que acabam por desistir.

Conformismo? Pois eu não me conformo!

É inqualificável aquilo por que as pessoas têm de passar até chegar aos seus empregos. Designadamente, sempre que aquela maldita gravação - que de forma absurda vinca a qualidade suburbana dos comboios e que o mesmo é dizer dos seus respectivos utentes - avisa que o comboio procedente de um lado e com destino ao outro, circula com um atraso, geralmente nunca inferior a 5 suficientes minutos para infernizar a vida das pessoas de uma forma intolerável!

Conformismo? Pois eu não me conformo!

É chocante o estado de pânico por vezes vivido dentro dos comboios da CP transformados em gigantescas latas de conservas humanas. Sim, de gente. Sim, de pessoas que não querem, nem podem chegar atrasadas aos seus locais de trabalho.

Conformismo? Pois eu não me conformo!

Fiquei há dias bastante incomodado numa dessas experiências matinais em hora de ponta. Uma senhora ficou literalmente entalada com alguma gravidade na porta do comboio pois era impossível caber mais um alfinete em todas aquelas carruagens a transbordar de pessoas que pagam os seus títulos de transporte e a quem têm de lhes ser garantidas as condições e qualidade mínimas para usufruírem daquilo a que têm direito. O percurso até à paragem seguinte foi um verdadeiro suplício. A senhora chorava e implorava em doloroso estado de ansiedade para que as pessoas se chegassem mais para a frente. "um bocadinho só, por favor..." Mas tal era manifestamente impossível perante o silêncio atordoador de toda aquela gente temporariamente impossibilitada de movimento.

Conformismo? Pois eu não me conformo!

Por que razão não põe a CP a circular todos os comboios que tem parados?

Por que razão não substitui a CP estes comboiozinhos ridículos das linhas de Sintra e de Cascais por comboios de dois andares que, de resto, já circularam abundantemente no passado na linha de Sintra e que hoje circulam em número incompreensivelmente inferior e apenas na linha da Azambuja e que são iguais aos da Fertagus?

Por que razão destruímos toda a indústria que tínhamos no concelho da Amadora onde se produziam comboios que tanta falta fazem a Portugal?

Por que razão não pode operar a Fertagus nas linhas de Sintra, Cascais e Azambuja e nem sequer pode ainda chegar à estação do Oriente? É por ser uma empresa privada?

Creio que já é tempo de se pôr fim à conversa fiada que o país anda a fazer sobre esta matéria. Estamos mais do que na hora de tomar decisões sérias e de forma rápida. Pois não há nenhuma razão para nestes anos 20 se continuar a infernizar a vida das pessoas desta maneira.

Convido o Governo a andar de comboio entre as 7 e as 9 horas da manhã acompanhado da sua comunicação social do costume e não em horários adequados ao mero show off televisivo promotor da habitual propaganda política, para terem noção real daquilo que fazem sofrer os cidadãos com a sua absoluta inacção política quanto aos transportes públicos da área metropolitana de Lisboa.

Jurista

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