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Buckingham. Os despojos de um “Megxit” que chegou sem aviso

Buckingham. Os despojos de um “Megxit” que chegou sem aviso

AFP Mariana Madrinha 10/01/2020 10:23

A rainha terá sabido do “abandono” de Harry e Meghan pela televisão e o resto da família real sentir-se-á traída. O casal, que planeou a saída de forma unilateral, já lançou um novo site, onde esclareceu que não irá abdicar dos títulos reais e fala das questões financeiras. 

A família real britânica deu, no final da tarde de quinta-feira, matéria para que a série The Crown dure mais uma catrefada de temporadas. A bomba foi largada pelos dois mais recentes ex-membros da família real britânica, Harry e Meghan, que anunciaram que vão afastar-se dos seus papéis de “membros séniores” da família de Isabel II. A notícia foi dada pelos duques de Sussex através do pombo correio dos tempos que correm: o Instagram. No post, Harry e Meghan davam conta de que, após “muitos meses de reflexão e discussão interna”, tencionam afastar-se e trabalhar para se tornarem “financeiramente independentes”, criando o filho Archie num “equilíbrio geográfico” entre Inglaterra e América do Norte. Poucos minutos depois, a decisão era replicada como notícia de “última hora” por todo o mundo.
O Reino Unido, escusado será dizer, entrou em frenesim e o dia de ontem amanheceu com as capas dos jornais a darem lustro ao tema da forma mais apetecível possível – e foi assim que o termo Megxit, dado ao prelo pelo The Sun, rapidamente se tornou na expressão do dia. Na sua mensagem de ‘despedida’, Harry e Meghan afirmavam que iriam continuar a “apoiar totalmente Sua Majestade” e que pretendiam honrar os seus deveres para com “a Rainha, a Commonwealth” e colaborar com o Príncipe de Gales e com o Duque de Cambridge. “É com o vosso apoio, particularmente nos últimos anos, que nos sentimos preparados para fazer este ajuste”, escreveu o casal. 
Um apoio que, ao que parece, virá muitíssimo mais dos seus fãs e seguidores do que da própria família real. Na mensagem, Harry e Meghan agradecem a todos os que os acompanham e, pelo conteúdo, esta é uma decisão que aparentemente foi tomada em conjunto com as cúpulas de Buckingham. Só que a reação da Casa Real em relação a este afastamento veio, afinal, mostrar exatamente o contrário. Citado pelo Guardian, fonte oficial do Palácio afirmou que as conversas sobre este desejo dos duques de Sussex estavam “numa fase inicial”. “Percebemos o desejo deles de ter uma aproximação diferente, mas estes são assuntos complicados que demoram tempo a ser destrinçados”, acrescentou.

Mais até do que os imbróglios monárquicos, parece que há uma outra enorme pedra no sapato num caminho que só agora começará a ser percorrido: é que, segundo a imprensa britânica, os duques não terão falado com nenhum membro da família sobre este afastamento. O Daily Mail escreveu que tanto a Rainha como os príncipes Charles e William souberam da decisão através da televisão – e que estão “profundamente dececionados”, “chocados” e até “furiosos” por terem sido deixados às escuras. “Isto é profundamente injusto para a Rainha, que não merece ser tratada desta maneira. É uma forma péssima de fazê-lo. A família entende que eles queiram fazer algo diferente e estão dispostos a ajudá-los. Estão apenas devastados”, afirmou uma fonte àquele jornal britânico.

Um passo estudado A viagem de seis semanas ao Canadá, onde passaram o Natal e o Ano Novo, terá servido para o casal traçar o plano que agora começaram a por em prática. Harry e Meghan já têm até um novo site pronto e anunciaram que, neste que apelidaram de “capítulo seguinte”, vão dedicar-se ao trabalho na sua “nova instituição de caridade”. Numa nota à parte publicada no tal site, o casal disse ainda estar ansioso para começar a trabalhar com uma nova geração de jornalistas e de publicações especializadas. Uma alfinetada que não surge descontextualizada, visto que ambos sempre questionaram a “credibilidade dos correspondentes reais” de anos e anos, recorda o Guardian.

A relação complicada com os média, aliás, vem desde os tempos do noivado e parece ter tido também a sua quota parte de culpa na equação. Logo nessa altura, a Casa Real emitiu um comunicado secundado pelo príncipe em defesa de Meghan, afirmando que muitas publicações se tinham referido de forma pejorativa à mistura racial da noiva. Depois do casamento, não houve tréguas e a relação atribulada de Meghan com a sua própria família – especialmente com o pai, que foi até apanhado poucos dias antes do casamento a tentar vender pormenores da boda e que acabou por ser desconvidado. Depois disso, a zanga entre ambos foi dissecada de forma muito pouco bonita. Em outubro do ano passado, Meghan encetou mesmo um processo legal contra o Mail on Sunday, que publicou uma carta pessoal, escrita pela duquesa à mão, que a própria tinha enviado ao pai. Harry denunciou a atuação do jornal, afirmando que não iria tornar-se numa “testemunha silenciosa do ‘sofrimento privado’” da mulher e que não iria tolerar ver a história a repetir-se, recordando o assédio dos paparazzi à mãe, Diana. “Perdi a minha mãe e agora estou a ver a minha mulher a ser vítima das mesmas forças poderosas”, disse na altura.

O processo e a tomada de posição pública de Harry surgiram pouco após a visita oficial do casal à África do Sul, altura em que, numa entrevista na Cidade do Cabo, Meghan quase se desfez em lágrimas perante as câmaras quando falou sobre a pressão que estava a sentir. Depois, agradeceu ao jornalista por ter perguntado se estava a sentir-se bem. “Obrigada por perguntar, porque poucas pessoas perguntaram se estou bem. É algo muito sério de se lidar por trás das câmaras”, afirmou a duquesa de Sussex.

Mais uma vez, o facto de ter assumido o desconforto não caiu bem a muitos setores da opinião pública britânica que, desde o início, criticaram Meghan por algumas quebras de protocolo e por assumir uma postura menos tradicional. 
E agora? Estes desentendimentos são apenas alguns dos aspetos mais visíveis que terão levado a este desfecho. Um novelo que, nos próximos tempos, alimentará por certo as parangonas. Por agora começaram já a surgir algumas questões mais práticas que os próprios duques começaram já responder no seu novo site. 

A Reuters enumerou algumas e esclarece que o casal não pretende prescindir dos seus títulos reais. Harry e o bebé Archie, que completa um ano em maio, estão em sexto e sétimo na linha de sucessão ao trono e, possivelmente, a posição só será alterada caso Kate e William tenham mais filhos, e não por esta decisão dos duques de Sussex. Relativamente às questões financeiras, os duques explicaram que recebem 5% do Fundo Soberano, uma bolsa de dinheiro gerado pelos lucros das propriedades das Coroas. Deste valor, entre 15% e 25% segue para a família e o restante para os cofres do Governo, e agora o casal deverá deixar de receber a sua percentagem. Contudo, analisa a Reuters, Harry e Meghan não explicaram se vão desistir do dinheiro oriundo da propriedade privada do príncipe Carlos, e remetem até essa resposta para o herdeiro direto do trono. Os duques esclareceram ainda que esperam que o Governo britânico continue a assumir os custos de segurança, cujo valor não é conhecido. E o casal, que ainda não revelou onde pretende morar na América do Norte, parece também querer manter o Frogmore Cottage, no Castelo de Windsor, a propriedade para onde se mudaram após terem gasto perto de 2,7 milhões de euros dos contribuintes em renovações, que terminaram no verão passado. Ora, se vão deixar de receber o dinheiro do fundo soberano, será que terão de pagar renda? Questions, questions... 

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