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José Paulo do Carmo 10/01/2020
José Paulo do Carmo

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Pela Porta dos Fundos

Existem tantos problemas e de tamanha gravidade no mundo que não percebo como têm sequer paciência, ao fim de um extenuante dia de trabalho, de se irem preocupar com o que o outro escreveu ou com a piada disto ou daquilo

Começo por fazer uma declaração de interesses. Sou católico, nasci inclusivamente em Fátima e, por isso, conheço bastante bem a realidade da Igreja e os seus meandros. Acho que o papel da mesma na sociedade é deveras importante e que poderia ser mais ainda não fossem os seus representantes seres humanos como nós e, como tal, sujeitos ao erro. Já vi muitas e boas ações praticadas, mas também já as vi más e maldosas. Admiro a aproximação que faz aos mais pobres, a dedicação a que muitos se prestam para com os que menos têm, muitas vezes pondo em risco a sua própria integridade física e segurança e a fé que os faz continuar a acreditar, mas sou crítico da opulência e ostentação, nomeadamente na sua sede, no Vaticano, em joias e ouros variados que podiam perfeitamente ser utilizados para ajudar quem mais precisa. Temos exemplos no passado que nos orgulham, sobretudo no âmbito da caridade, mas também nas áreas da educação e da saúde, e, depois, outros que nos envergonham, como a pedofilia de alguns padres.

Esta semana, um tribunal brasileiro decidiu cancelar o especial de Natal da produtora de vídeos humorísticos brasileira Porta dos Fundos, emitido pela plataforma Netflix, por o considerar “mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, maioritariamente cristã, até que se julgue o mérito, à cautela, para acalmar ânimos”. Para quem não teve oportunidade de ver, este episódio tem como título “A primeira tentação de Cristo” e Jesus é representado como um jovem que terá tido uma experiência homossexual, e também insinua que o casal bíblico Maria e José viveram um triângulo amoroso com Deus.

Eu sou defensor da liberdade de expressão, mas o meu bom senso leva-me a ter um certo cuidado com os limites, nomeadamente com temas mais sensíveis, que motivam habitualmente reações mais fanáticas e violentas. Talvez por isso não tivesse jeito para ser humorista. Essa é a razão pela qual deixei de comentar com pessoas que não conheço (nomeadamente nas redes sociais) sobre futebol, política e religião, entre outras coisas. As pessoas tornaram-se chatas, pudicas e violentas. Não admitem o contraditório, revoltam-se e são altamente influenciáveis. Rapidamente um comentário inofensivo se torna um grande problema que desagua em conflitos gigantescos e, por vezes, no término de relações de anos. Parece-me, no entanto, que as pessoas têm de começar a preocupar-se mais com o que realmente interessa e deixarem de ser tão sensíveis e picuinhas. Hoje em dia não se pode falar de nada, não se pode brincar com nada, é tudo muito sério e tudo ofensivo.

Está na altura de as pessoas se descontraírem um pouco e de perceberem que só nos atinge aquilo que deixamos que nos atinja. Além disso, existem tantos problemas e de tamanha gravidade no mundo que não percebo como têm sequer paciência, ao fim de um extenuante dia de trabalho, de se irem preocupar com o que o outro escreveu ou com a piada disto ou daquilo. Deixem-se de parvoíces, aproveitem mais a vida, sigam as vossas convicções e não se piquem por tudo e por nada. Não se levem tanto a sério, e da mesma forma que gostam de brincar, aceitem as brincadeiras dos outros de uma forma construtiva. O que não querem ver não vejam, do que não acham piada não riam, mas parem de uma vez por todas de arranjar pretextos para se andarem a pisar uns aos outros. Valorizem o que tem importância e não percam tempo com o que não vos interessa. Tornámo-nos uns chatos e aborrecidos a quem nada se pode dizer, senão prendemos o burro e atiramos com a cadeira…

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