26/1/20
 
 
António Luís Marinho 10/01/2020
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

O racismo antirracista

Perante dois acontecimentos trágicos e semelhantes, duas reações diferentes: a acusação de racismo, num caso, e o total desprezo pelo acontecimento, no outro.

“Liberdade não é poder escolher entre preto e branco, mas sim abominar este tipo de propostas de escolha”.

Theodor Adorno

Os recentes assassinatos de dois jovens, embora em datas, locais e circunstâncias diferentes, trouxeram para a opinião pública uma questão muito importante da nossa vida social que alguns grupos tentam, no entanto, agitar como bandeira, contribuindo mais para o seu recrudescimento do que para a sua definitiva abolição: o racismo.

A morte do jovem Luís Rodrigues, em Bragança, ainda sem conclusões sobre a sua causa, foi imediatamente caracterizada como ação racista, tendo em conta a nacionalidade cabo-verdiana da vítima, por partidos como o Bloco de Esquerda e o Livre, certamente a reboque do fascistoide racista Mamadou Ba, curiosamente membro do SOS Racismo.

Ao invés, o assassinato do jovem Pedro Fonseca, esfaqueado por um grupo de três assaltantes, também eles jovens, não mereceu por parte destes grupos qualquer referência. A comunicação social omitiu, e bem, a origem guineense dos três assaltantes, mas era fácil para aqueles grupos políticos terem disso conhecimento.

Isto é, perante dois acontecimentos trágicos e semelhantes, a morte violenta de dois jovens, duas reações completamente diferentes: numa conclusão precipitada, a acusação de racismo, num caso, e o total desprezo pelo acontecimento, no outro caso.

Esta atitude recorrente de certas forças políticas levanta a questão de a defesa do antirracismo ser uma atitude sincera e honesta ou apenas uma bandeira, mais uma, confundindo amiúde antirracismo com paternalismo e exibindo ao mesmo tempo atitudes racistas, em nome do tal antirracismo.

Diversos sociólogos defendem que só se pode falar de racismo no preconceito de branco contra negro, por óbvias razões históricas e que prevalecem em diversas sociedades.

Outro grupo, embora minoritário, defende a existência do racismo reverso, a resposta dos grupos étnicos historicamente discriminados.

O tema é controverso, sem dúvida, mas o sentimento de ódio de um grupo étnico em relação a outro é, independentemente das razões históricas, inaceitável em sociedades democráticas, no séc. xxi.

É também evidente que, se se apurar que em qualquer dos crimes houve motivações racistas, as penas dos criminosos devem ser substancialmente agravadas.

Não vale a pena enterrar a cabeça na areia e ignorar que existe racismo em Portugal. Vale também a pena perceber que esse mesmo racismo tem diversos matizes. Ficar apenas pelo “politicamente correto” talvez seja a melhor maneira de dar trunfos aos populismos de diversas tendências.

Os Cadernos das Ciências Sociais publicaram em 2014 um número dedicado ao tema “O que é Racismo?”. Num dos capítulos, com o título “Há racismo em Angola?”, o sociólogo Paulo de Carvalho escrevia: “Entre nós, o preconceito racial manifesta-se em duas direções contrárias: da parte da maioria negra para a minoria branca e vice-versa”. E acrescenta: “O racismo tradicional, com a convicção e a assunção de superioridade de uma raça sobre outra, existe agora em pequena dimensão e não podia, aliás, ser de outra forma, visto que a minoria branca deixou de ter predominância no acesso ao poder político (e é este que determina em certa medida o acesso ao poder económico)”.

Na mesma obra, o sociólogo francês Michel Wiewiorka escreve: “Apresentar-se unicamente como vítima (do racismo passado, colonial, do tráfego negreiro, por exemplo, bem como do presente) é uma coisa, afirmar uma identidade positiva, cultural, até racial, como foi o caso da ‘negritude’, é outra”.

Seria bom criarmos tempo e espaço para debater seriamente este assunto, sob pena de ele ficar à mercê dos demagogos da esquerda e da direita.

 

Jornalista

 

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