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Pointlist. Seis anos do som da agência musical de Évora

Pointlist. Seis anos do som da agência musical de Évora

DR Hugo Geada 09/01/2020 21:00

No sexto aniversário da Pointlist, o seu fundador, João Modas, conversou com o i sobre a importância do projeto na cena musical portuguesa. A festa está marcada para este sábado, no Sabotage.

Poucos têm contribuído para a descentralização da cultura em Portugal como a Pointlist. Para os que têm andado a dormir e não sabem o que é, fica aqui o ralhete. É uma agenciadora de concertos independente formada em Évora em 2014 por João Modas e Tiago Alexandrino, que tinham apenas uma coisa em mente: partilhar as suas bandas preferidas com os seus amigos.

A promotora, que este sábado vai celebrar o seu sexto aniversário no Sabotage, em Lisboa, nasceu depois de João ter deixado de colaborar com a Sociedade Harmonia Eborense (SHE), associação cultural sem fins lucrativos, e decidido que não queria ficar parado.

O sonho materializou-se com a realização do festival Black Bass (inicialmente, Évora Psych Fest), que acontece regularmente desde 2014 e que levou alguns dos maiores nomes da música underground portuguesa, como 10000 Russos, The Black Wizards, Killimanjaro, e bandas com quem trabalham desde a sua eclosão, como os Sunflowers ou os FUGLY. Desde então têm vindo a desdobrar-se em eventos pelo resto do país.

Tudo começou com a vontade de oferecer uma programação alternativa à que aquela zona do país estava habituada. “Existe uma grande tradição de bandas de metal, uma coisa mais pesada, e uma das principais razões por que aparecemos foi para combater esta hegemonia”, diz o fundador ao i. “Não havia alternativas. Pensámos: se não fazem os outros, fazemos nós”.

Crescer ao sol No advento do sexto aniversário da agência que ajudou a criar, João Modas, atualmente o único membro fundador do projeto, considera que esta meia dúzia de anos foi suficiente para deixar a sua marca no país e para criar uma identidade bem definida e reconhecida. “Há muitas pessoas que nos dizem que só agenciamos bandas de garage”, disse, notando que existe definitivamente o “som da Pointlist”. “Este é o som que curtimos. Não é que não gostemos de outro tipo de música, mas a nossa praia é esta e é onde nos sentimos mais confortáveis”.

A primeira parceria da Pointlist foi com os Sunflowers, duo do Porto composto por Carolina Brandão e Carlos de Jesus. O seu som era tudo aquilo que João e Tiago procuravam: uma loucura sónica inspirada na cena musical californiana, que misturava o psicadélico com garage e surf rock, géneros dos quais surgiram bandas como Oh Sees ou Ty Segall. “Foi o início de uma parceria que roça mais a amizade do que o negócio”, diz Carlos, guitarrista da banda.

Os projetos cresceram quase de forma simbiótica, ao ponto de por vezes se gerarem confusões sobre quem pertence a qual. Carolina ajuda no agenciamento europeu da Pointlist, Carlos ajuda na organização do festival Black Bass. A Cão da Garagem, editora lançada pelos dois músicos, funciona de forma independente, mas edita (algumas das) bandas da Pointlist, como 800 Gondomar, El Señor e Huggs. “Temos ambições e expetativas muito elevadas (talvez demasiado para o país onde estamos), mas eles nunca nos puxaram para baixo. Aliás, penso que eles gostam tanto de exagerar como nós”, confessa Carlos. “Ajudaram-nos a ser das bandas mais ativas dos últimos anos, com concertos por todo o país, e isso ajudou a moldar a nossa filosofia enquanto banda”.

Prestes a lançar o seu terceiro álbum, a 7 de fevereiro, Endless Voyage, e a partir numa odisseia de concertos, os Sunflowers vão roubar horas de sono a João Modas, que trata sozinho do agenciamento nacional. Em troca, Carlos deixa-lhe palavras de carinho: “Eles trazem as melhores bandas que ninguém conhece a Portugal e fazem-no pela pica que lhes dá ver e proporcionar um bom concerto. São um tesouro nacional, a par do Cristiano Ronaldo”.

Pica é o que não falta a João, que apesar de não gostar de fazer planos a longo prazo, não pensa desistir deste projeto. “Há muitas pessoas novas que entram neste tipo de projetos e pensam que vai durar ‘enquanto for novo e enquanto der pica’, mas eu ainda não perdi nem um único nível de entusiasmo e continuo a trabalhar com a mesma alegria e com a mesma vontade todos os dias. Até hoje, não tive nenhum momento em que pensasse desistir disto”.

Celebrar a meia dúzia de anos O concerto dos seis anos da Pointlist vai acontecer em Lisboa porque, infelizmente, em Évora não se consegue fazer uma casa “rebentar pelas costuras”. “Há muita gente que vai de propósito de Évora para Lisboa para os nossos aniversários; já o contrário não acontece”. Um dos maiores desafios da Pointlist é estar a trabalhar com bandas jovens que muitas vezes têm de deixar os seus projetos musicais de parte para prosseguir com a sua vida. Foi o caso do “bandão” 800 Gondomar, os Panado ou os Moon Preachers. Além disso, não têm aparecido muitas bandas tão efusivas como os primogénitos Sunflowers, e Modas tem de se virar para outro lado e procurar outras jovens bandas ou sons diferentes.

Este sábado vai funcionar quase como uma montra de jovens talentos e recentes membros da família Pointlist – caso de Niki Moss, alter ego do multi-instrumentista Miguel Vilhena, e dos Hause Plants, projeto com influências de bedroom pop embebido em fuzz. Para além destes meninos, os El Señor, prata da casa da Pointlist, com um elétrico garage rock, que são os cabeças-de-cartaz da noite.

A colaboração entre esta banda de Fafe e a agenciadora de Évora começou depois de o grupo ter dado nas vistas num concurso da Vodafone, em 2016. A Pointlist desafiou-os a gravar um EP, quando os El Señor ainda “eram quatro ou cinco músicas”, como descreve o vocalista, Guilherme Santos. “Fazemos a música que queremos e em que acreditamos, mas tudo se torna diferente quando há alguém que puxa por nós”, diz o guitarrista. “Melhor ainda quando sentes que o fazem com uma paixão e uma dedicação incrível. E para além do processo de booking há um espírito de entreajuda e amizade quer entre as bandas e a Pointlist, quer entre as bandas em si”.

A distância geográfica pode já não ser um entrave para o trabalho entre músicos e agentes. No entanto, para a saudade não há cura. “Não moramos todos no mesmo sítio e, quando nos juntamos, há festa e histórias para o dia seguinte”. A grande festa de aniversário está marcada para as 22h30 e, por 6 euros, custo da entrada, podemos todos ajudar esta família a colocar o jantar em cima da mesa.

“Não tive nenhum momento em que pensasse desistir disto”

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