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Marta F. Reis 09/01/2020
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

A passividade que permitiu agressões

O país tem desde 2007 um observatório de violência contra profissionais de saúde no âmbito da Direção-Geral da Saúde e já antes disso, em 2002, uma comissão apresentou um extenso relatório com propostas concretas de soluções, incluindo muitas das medidas que têm vindo a ser defendidas nos últimos dias, agora com a garantia do Governo de que será ainda este mês apresentada uma estratégia. 

O relato da agressão a uma enfermeira, na madrugada desta quarta-feira, no Hospital de Santa Maria mostrou mais uma vez como a impunidade, à custa de uma passividade cada vez mais clara, se foi instalando. Segundo o relato da bastonária, a enfermeira ausentou-se dez minutos para ir buscar medicação, o que bastou para ser esbofeteada pela utente, pelo marido e por outros familiares - nada os travou de entrarem na urgência e de a atacarem até que chegasse ajuda. A sucessão de casos nos últimos dias pôs a nu um fenómeno há anos documentado e até estudado no SNS, sem que se tenha promovido de forma sustentada uma cultura de segurança. Se os períodos de pico de afluência poderão levar a maior conflitualidade, assim como a falta de meios ou de organização, o fenómeno é mais do que conjuntural e é considerado pela OMS um problema de saúde pública, estimando-se que até 50% dos profissionais de saúde passem por episódios de violência a cada ano, o que exige medidas de proteção e acompanhamento. O país tem desde 2007 um observatório de violência contra profissionais de saúde no âmbito da Direção-Geral da Saúde e já antes disso, em 2002, uma comissão apresentou um extenso relatório com propostas concretas de soluções, incluindo muitas das medidas que têm vindo a ser defendidas nos últimos dias, agora com a garantia do Governo de que será ainda este mês apresentada uma estratégia. De nada adiantará se for para daqui a uns tempos estar tudo na mesma, como aconteceu nos últimos anos, em que, apesar de pontualmente virem casos a público, o assunto se reduziu a publicações de estatísticas, cada vez menos aprofundadas. O último relatório um pouco mais completo do observatório de violência é de 2015 e já revelava um problema latente: das 582 notificações recebidas naquele ano, 72% das vítimas diziam que a violência era habitual na sua unidade de saúde e 60% sentiam que a agressão de que tinham sido alvo podia ser prevenida. E mais de metade sentiam-se insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a forma como a situação tinha sido gerida pelos responsáveis. Tirando o projeto inovador lançado no ano passado na Amadora, pouco parece ter acontecido. Ontem, a FNAM pediu esclarecimentos à ACT sobre as medidas desenvolvidas - afinal, existe uma Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho 2015-2020, como existiam diagnósticos e instrumentos no SNS. Não é chover no molhado, mas enquanto não se resolver a cultura dos pensos rápidos, que depressa descolam e caem no esquecimento, os problemas persistem até uma nova crise. Nem tudo será prevenível e a tolerância zero tem de partir de todos: é preciso agir perante os casos em que vemos quem quer que seja ser maltratado e desrespeitado e não sermos cúmplices com o nosso silêncio e, às vezes pior, nas nossas irritações a quente. 

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