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2019. Livros na língua de Camões

2019. Livros na língua de Camões

Teresa Carvalho 08/01/2020 16:27

Os balanços, as listas, as toscas panorâmicas fazem hoje parte de um cerimonial de despedida que se repete como o estertor de cada ano e que esconde alguma má consciência. Na falta de uma reflexão mais séria, dá a sensação de que “sobra o presente e escasseia o tempo”. Por isso, fica esse gesto apressado, a extrema-unção antes de passar a mão e cerrar os olhos do ano que se fina, para que o seu olhar não nos assombre. Aqui procurámos fazer algo mais: avançar sem fazer pouco do que passou.

 

Apreciámos as festividades centenárias e dirigimo-nos ao mercado editorial em língua portuguesa. No braço, um cesto gradeado, exíguo. Mesmo descontando o espaço ocupado pelo tijolo que é a biografia de Jorge Amado,  saído da mão competentíssima de Joselia Aguiar, deu e sobrou.

2019 reuniu em comemoração de centenário Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. Habituado que está a pesar, contar e dividir, o meio literário veio mostrar que em boa parte dos seus salões Sena não tem entrada senão pelo braço de Sophia. E ficou claro que em Portugal não  há espaço para dar o devido relevo a mais de um grande vulto ao mesmo tempo. Por seu lado, o presidente da República não encontrou tempo para comparecer sequer  à inauguração da exposição sobre a vida e a obra de Sena, patente na Biblioteca Nacional até ao final de fevereiro  nem condecoração que se lhe ajustasse, uma fita, uma latinha, nada. Mas de tudo isto Sena se deu conta, resignando-se a escrever para o futuro - “o que é algo doloroso para quem não acredita em nenhuma forma de imortalidade, nem sequer a literária – aonde só se entra com um acompanhamento notável de estupidez humana que fica pegado a nós como um visgo da época que nós vivemos.”

Neste nosso tempo em que o mérito maior de um livro parece ter-se fixado em especial no que lhe é exterior, as banalidades valem como revelações e as revelações passam por banalidades; nem se dá por elas. É uma dinâmica perversa construída pelo mercado, o patrocinador desse seco, duro, estéril monte de livros, onde poucos valem verdadeiramente a pena. Eis alguns:

Quartos de Final e Outras Histórias

Cláudia Andrade

Elsinore

Anunciada pela Elsinore como “uma nova voz no panorama literário”, Cláudia Andrade é verdadeiramente (caso raro) uma nova voz num panorama ficcional cada vez mais monótono e inócuo. Não mais um nome de estender catálogos ou de arredondar niqueis de editoras sempre precisadas de mais uns cobres. E é-o, não pelo domínio sólido, ágil da língua de Camões, manobrada de tal modo que engendra guinadas especiais, ou pela ironia com travo a fel, mas pela crueza poética,  pelos lances de uma visceralidade incomum, sobretudo manifestada no modo de tratar o corpo (jovem, envelhecido, moribundo), manuseado com pinças desinfectadas de “liricalhas” e lugares-comuns: o corpo em apelo, em ferida, em risco, em queda.  

O dia dos “quartos de final” - a prova de eliminatórias que dá título a este volume de contos  -  não será talvez o melhor dia para casar. É o dia em que os homens só têm olhos para o ecrã e caem nos braços uns dos outros. O plantel narrativo é sortido:  uma noiva desesperada, quase sem “arquejo de esperança no túmulo do peito”; uma prostituta de estrada salva por uma rafeira abandonada que partilha com ela a condição de “fêmea sem sorte” e para quem a defesa é o melhor ataque;  uma moribunda de falsas partidas; uma criança perfeitinha, mas só de frente; um poeta   de vida saudável e nada conveniente à biografia que dele se espera -  tudo recolhido de um mundo que nunca se esquece de “vir por-nos a jeito de nos cagar em cima”. O resultado final  é um mundo novo restituído pelas palavras, tratadas com o desvelo de um corpo frágil. 

A Musa Irregular (edição aumentada)

Fernando Assis Pacheco

Organização de Abel Barros Baptista. Posfácio de Manuel Gusmão.

Tinta-da-China

Há poetas de respeitável nome de quem se pode dizer que entregaram à posteridade uma obra  e há a auto-irónica figura de Assis Pacheco, que passou a vida a dar cabo da ideia de autor-com-obra-feita, ora sovando o autor,  ora a própria obra: “vãos poemas”, “versos ribaldeiros”. Aparecida pela primeira vez em 1991, na Hiena, a Musa de Assis Pacheco chegou aumentada (inclui os poemas postumamente publicados de “Respiração Assistida” e exibe um volume de inéditos sob o título Lote de Salvados), mas sempre liberta de adiposidades, tumescências ou essa “gosma séria/ aprendida na Faculdade de Letras” da qual num poema se procura limpar, num gesto bastante higiénico.  

Avessa ao instituído, ao solene, ao canónico (e aos odores da naftalina), à cartilha académica que saudavelmente desrespeitava, a poesia de Assis Pacheco, tendencialmente prosaica, orienta-se por um programa pronto a sabotar o oficial e os formatos agigantados, monumental incluído: passe-se por alto aquilo que foi a sua recatada vida editorial, para destacar, por ex., “um Baco de Aldeia”. A verdade é que a auto-derrisão vai constituindo nós de significação muito pessoal, configuradores de um universo próprio e articulado. E mesmo na sua expressão fragmentária (“Ainda falta ó gaita o primeiro verso / legível desta narração partida em cacos”), sentimo-lo preso a obsessões e a núcleos temáticos que vão progressivamente criando o sentido de uma ideia de obra.

Satânia – Novelas / De mim - conferência

Judith Teixeira

E-Primatur – Livro B

Os qualificativos com que a crítica sua contemporânea e a imprensa conservadora, preconceituosa lhe rodearam o nome –  “desavergonhada” (Marcello Caetano), “ignóbil”, “cancro nauseabundo” –  representariam um bom arranque para um dicionário universal do insulto. Fernando Pessoa, colaborador, como ela, da “Contemporânea”, saiu em defesa das “Canções” de António Botto e “Sodoma Divinizada”, de Raul Leal, mas sobre Judith Teixeira (1880-1959), “silêncio e escuridão e nada mais”. Nem um fonema. Aquilino Ribeiro – pasme-se! - foi o único que saiu em sua defesa. Na conferência que fecha este livro de sensuais novelas, explica-se a autora sobre a Vida, a Estética e a Moral. É o seu único volume em prosa e o último que publicou, estava ainda a 30 anos da morte. 

Obra Reunida

Manuel de Lima

Ponto de Fuga

A publicação da Obra Reunida deste surrealista sem escola, ficcionista notável, prestes a converter-se num sólido candidato a fantasma, com reaparições muito espaçadas, é o que se costuma chamar um acontecimento editorial, ainda para mais enriquecido da soberba  introdução de Vladimiro Nunes. Manuel de Lima soube arrebatar-nos à carcaça terrena e ao real concreto, transformado sem entraves pela sua livre imaginação, para nos introduzir num universo onde reina o absurdo, em doses variáveis, o intrigante e o insólito graduado em valores de tragédia. O humor, esse, surge tingido de refinado negro. É muito habitado o seu universo ficcional. Por lá se encontra (e se perde) todo o tipo de gente. Uns parecem reunidos em conciliábulo e dão-nos o conforto da familiaridade: advogados célebres, políticos de prestígio, “capitalistas que já tinham atingido a zona abstrata dos valores”; outros desafiam as leis da física, as harmonias da biologia, amam-se, odeiam-se de morte, devoram-se, impõem-nos a contabilidade dos seus ridículos e misérias. Tragédia e comédia disputam-lhes o destino. Põem-nos espelho à cara.

Obnóxio (Cenas)

Abel Barros Baptista

com um “Óbvio Obnóxio deste livro” por Luísa Costa Gomes

Tinta-da-china

Obnóxio é o nome. Declinar é o verbo. E que bem declina Abel Barros Baptista. É uma ideia feita, mas de curtíssima perna, a de que a literatura se divide em  géneros maiores, como o romance, e géneros menores, como os que vieram a este mundo literário bater a má porta:  a crónica, o ensaio, o diário, aquele tipo de género que o próprio editor não define sem se alongar: “Conversas e breves encenações, frases e situações reconhecíveis, um género que fazia falta, com tanto de entretenimento intelectual como de elevação humorística”. Ora, em mãos hábeis, todos os géneros são maiores; é o caso. Em mãos inaptas, desastradas até o que é maior se faz pequeno. Abel Barros Baptista junta a fluidez da imaginação à graça literária.

Almadilha - Ensaios sobre Sophia de Mello Breyner Andresen

Federico Bertolazzi

Documenta

Do trato íntimo, continuado com a obra de Sophia, um dos nomes mais unânimes da poesia portuguesa contemporânea (perturbadoramente unânimes, diga-se)  nasceram nove ensaios,  em boa parte resultantes de participações em colóquios e agora reunidos sob um título-palavra que não faz a sua aparição em dicionários. “Almadilha” é uma criação poética de Sophia, uma palavra armadilhada da qual se desprende um feixe de sentidos, do qual o mar não se ausenta. Tradutor de Sophia para italiano, Federico Bertolazzi sublinha a “capacidade de Sophia de transformar a influência do mar em linguagem”.

Neste volume, o que mais visivelmente emerge, além da naturalidade exemplar de um estilo fluente, é um modo de ser ensaísta que, destituindo as formas preguiçosas do pensar,  é avesso à figura do adorno, às nebulusas hermenêuticas e àquela aridez académica de vácuo que tantas vezes redunda em afastamento e perda de leitores.

Acordo Ortográfico, um Beco com Saída

Nuno Pacheco

Gradiva

Para Nuno Pacheco não há becos sem frinchas ou saídas praticáveis. Bem ao contrário da célebre personagem de Eça, este Pacheco, crítico da primeira hora do Acordo Ortográfico, não é homem para ficar calado, recolhido num talento que, nele sim, de muitos modos se manifesta, aqui declinado em crónicas escritas originalmente para O Público: da arte de informar e esclarecer,  de miudear sem maçar, passando pelo empenho criativo de muitos dos começos destes textos. O índice deste livro é um guia de rumos e pespectivas de análise, que não recua diante  do ludismo e do humor em que pode reverter o desconsolo e a irritação. Alguns exemplos: “São mudas mas falam”, “ Omens sem H”, “Surdos dos olhos, cegos dos ouvidos, “Uns assentos para os acentos, senão eles caem”

 

 

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