26/1/20
 
 

Já poucas coisas são portuguesas

Temos identidade mas, internacionalmente, não temos nenhuma relevância económica e financeira.

1. Ao contrário de muitos outros países, Portugal não coloca entraves protecionistas à compra de empresas e ativos por entidades estrangeiras. Pelo contrário. Antes da troika, durante a troika e depois dela, tem sido um fartote a despachar tudo o que vale alguma coisa, não importando a quem e a que interesses possa haver ligações. Está tudo à venda!

Os nossos Governos adoram alienar e permitem que os privados o façam de qualquer maneira, mesmo com empresas estratégicas. Todavia, isso não tem feito com que a economia esteja melhor ou paguemos menos impostos. Pelo contrário! Quantos mais anéis se vão, mais dinheiro se pede ao contribuinte, a fim de pagar a gestão danosa ou incompetente de grupos. Quase tudo estoirou por alturas da crise de 2008. E os desgraçados dos contribuintes e clientes bancários já entraram com 24 mil milhões de euros, que dariam para resolver todos os problemas do SNS.

Ninguém em Portugal tem dinheiro para segurar as nossas maiores empresas, as quais são de pequena ou média dimensão em termos internacionais. A nossa economia está dependente do exterior. É assim com a EDP, com a Galp, com a banca, com a Altice, com os hospitais privados, com a REN, com a ANA e, futuramente, com a Brisa e muitas outras. As cimenteiras, essas, já nada têm a ver connosco. 

Para alguns políticos, a venda a estrangeiros é um maná. Dá para arranjar uns lugares simpáticos. Na advocacia de negócios (também ela já em parte na mão de estrangeiros) permite fazer uns contratos e faturar balúrdios. 

Na economia, nada de relevante é verdadeiramente nosso. Basta andar nas ruas e verificar que nas marcas comerciais, sejam de roupa, de restauração ou de distribuição, a presença portuguesa é insignificante. Os hotéis pertencem, na maioria dos casos, a cadeias internacionais. Até ver, safam-se as padarias portuguesas (a tradição é o que é e foi com elas que nos implantámos como povo em muitos sítios). Na agricultura há cada vez mais sinais de hegemonia externa. A exceção dos vinhos não conta porque, planetariamente, não representa nada, se excetuarmos o Mateus Rosé. O pastel de nata, que anda pelo mundo, nada nos traz. Pode ser feito com ingredientes locais em qualquer sítio. Sobra apenas a referência do nome e a ligação ao nosso retângulo. É pouco. Será que alguém acha que a França ganha alguma coisa por se devorarem milhões de croissants em todo o mundo?

A maioria dos países europeus (começando logo aqui pela temível Espanha) procuram criar obstáculos, impõem regras protecionistas subtis e burocráticas para não perderem o controlo nacional dos seus grupos. Cá, acontece o contrário. Somos nós que estamos a cumprir hiperzelosamente com a regulamentação que permite a estrangeiros a compra de empresas em saldos.

Uma coisa é aderir à livre circulação de capitais e negócios e outra é ser-se tanso. Hoje somos um país gerido de fora para dentro. E o que é pior é que há quem ache isso muito bem e não traga essa preocupação para a praça pública. Portugal é um país antigo e aquele que tem fronteiras definidas há mais tempo na Europa. A realidade, porém, é que economicamente somos uma província em mãos externas.

A circunstância de termos gente altamente qualificada em lugares planetários da política ou do desporto e de os portugueses terem uma diáspora trabalhadora e respeitada não altera nada essa lamentável realidade, que se agrava sistematicamente.

 

2. A banca vai perdoar 273 milhões de dividas. Novo Banco, Caixa Geral de Depósitos e BCP estão nessa estratégia. Percebe-se que entre não receber nada e receber um bocadinho haja essa opção. Mas, francamente, o Novo Banco e a CGD não podem continuar a fazer essa gestão e depois pedirem dinheiro aos contribuintes ou aumentarem escandalosamente as comissões, como o faz a Caixa. Alguns dos negócios que agora merecem amnistia financeira tinham a ver com um empresário que apanhava aos fins de semana o seu avião particular para dar um salto ao Brasil, onde tinha uma ilha. Outro, com um clube de futebol. Há negócios que correm mal por motivos aceitáveis. Outros têm a ver com desmandos ou até atos criminosos que não têm de ser suportados por depositantes, acionistas ou contribuintes. Quando é que isto acaba?

 

3. Ana Mendes Godinho é digna herdeira da incompetência de Vieira da Silva. No rasto do seu antecessor, a ministra mantém atrasos escandalosos no pagamento de pensões de velhice a quem as requer. Os atrasos chegam aos cinco meses em Portugal. Quando envolvem apuramentos com outros países, como o Luxemburgo, atingem anos. A esses atrasos criminosos somam-se penalizações fiscais quando os pensionistas recebem os retroativos, ficando prejudicados em termos de IRS. Perante isto, o mínimo de decoro seria retirar do nome do ministério palavras como Solidariedade e Segurança Social. Ficava só Trabalho, que é forçado nos casos em que as pessoas têm de ficar em atividade até receberem as pensões para não morrerem à fome. Um caso de total insensibilidade social!

 

Escreve à quarta-feira

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