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United-City. O devastador leilão do Queens Hotel

United-City. O devastador leilão do Queens Hotel

Afonso de Melo 07/01/2020 17:35

1905 tornou-se o ano em que o desequilíbrio financeiro entre os dois clubes de Manchester atirou o City para uma posição secundária que durou décadas e décadas. Tudo por causa de pagamentos paralelos a jogadores.

Inevitavelmente, os próprios ingleses, sempre tão profundamente sérios em tudo o que respeita às competições do seu association, trataram de puxar pelo seu lado mais prático e abandonaram a filosofia de avançarem sempre com os melhores jogadores em todas as provas. A Taça da Liga, já nas meias-finais, tem sido a maior vítima da necessidade de poupança. Mas sejam quais forem os onzes que esta noite se alinharem frente a frente em Old Trafford, pelas 20h00, não é possível destituir o encontro entre os dois clubes de Manchester do peso de uma rivalidade centenária, nascida no dia 12 de novembro de 1881, quando o St. Mark’s, de West Gorton, recebeu o Newton Heath, com vitória destes por 3-0. Ora, repolhos!, exclamará algum leitor mais distraído. E antes de perguntar a si próprio o que é que um jogo tão evidentemente suburbano tem que ver com um City-United, esclareça-se que o City nasceu de um agrupamento de paroquianos da igreja de St. Mark, em 1880, e chamou-se St. Mark, Gorton AFC e Ardwick FC antes de adotar a designação de Manchester City Football Club em 1894, enquanto o United foi fundado em 1878 como Newton Heath L&YR Football Club, tornou-se apenas Newton Heath Football Club e, finalmente, Manchester United Football Club em 1902.

Por isso, houve United-City antes de United e City serem, verdadeiramente, os Manchester. E os alicerces da rivalidade começaram a fortificar-se com a disputa da Manchester Cup, um troféu que esteve em liça entre 1885 e 1893. Além disso, como geralmente acontece, assentaram mais tarde no terreno sempre meio pantanoso de uma crise profunda. Acusado de pagamentos paralelos a vários dos seus jogadores, o City viu serem castigados 17 dos seus atletas. Quatro deles, no fim do período de suspensão a que foram sujeitos, passaram-se para o United. Os nomes de Jimmy Bannister, Herbert Burgess, Billy Meredith e Sandy Turnbull tornaram-se uma espécie de declaração de conflito na altura em que os adeptos ainda estavam meio indecisos em relação a que cores escolher, já que as raízes sociais das duas agremiações não têm fortes divergências, como sucede em muitas das grandes cidades da Europa.

À sombra Foi o Bury, agora a caminho de uma dolorosa extinção, o primeiro grande clube da região de Manchester. O United e o City começaram a crescer na sua sombra. E foi o episódio de 1905, logo no ano que se seguiu à vitória dos blues na final da Taça de Inglaterra, frente ao Bolton, graças a um golo do defesa galês Billy Meredith, a provocar uma derrocada financeira que deixou a correlação de forças entre os dois rivais desequilibrada a favor dos red devils durante décadas. Uma entrevista concedida por Billy desencadeou o desastre: “What was the secret of the success of the Manchester City team? In my opinion, the fact that the club put aside the rule that no player should receive more than four pounds a week... the team delivered the goods, the club paid for the goods delivered and both sides were satisfied”. A investigação levada a cabo pela FA e o castigo subsequente conduziram ao célebre leilão do Queens Hotel. O City foi obrigado a vender não apenas muitos dos seus jogadores – Meredith, por exemplo, foi comprado pelo United por apenas 500 libras – como uma parte considerável do património. Para perceberem o golpe terrível que sofreu, atentem nesta frase de Richard Kurt, o maior historiador do clube, no livro Deepest Red – a Manchester United Anthology: “Without such an event, we could easily have become a small-time satellite forever orbiting around the sun of Manchester City”.

O futebol move-se por caminhos insondáveis. Dois anos depois do leilão do Queens Hotel, o United, reforçado com jogadores do rival, ganhava o campeonato inglês. No ano seguinte foi a vez da Taça de Inglaterra. O City, esse, observava ao longe o brilho intenso atingido pelos seus conterrâneos. E mergulhou na escuridão das divisões secundárias. Seria preciso esperar 30 anos para comemorar o seu primeiro título de campeão. O golpe fora absolutamente devastador.

 

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